Fotografar é, atualmente, a minha mais profunda e completa forma de expressão. Apesar de ser um amor antigo, só há pouco mais de um ano me dediquei mais a ele e à forma como me permite deitar cá para fora o que sinto por dentro. Tudo começou quando percebi que precisava de encontrar algo que me despertasse aquele “bicho carpinteiro” que sentimos quando estamos a meio de um livro que nos apaixona, e que não queremos que acabe. Mas o livro acaba, e a vantagem de fotografar é que só termina se eu quiser.
Sou uma autodidata na arte de fotografar. Escolhi o estilo fotografia de rua e sou ainda bastante amadora, mas vou aprendendo com muitos disparos e a observar com atenção o trabalho de quem já faz isto há muito tempo. Gosto de pegar na câmara, aventurar-me pelas ruas da minha cidade e captar pessoas em momentos que sinto únicos, espontâneos e irrepetíveis.
Descolo-me numa cadeira de rodas há muito anos e, tendo em conta a falta de acessibilidades gritante em grande parte da minha cidade, levo sempre comigo uma espécie de dispositivo que, quando acoplado à minha cadeira de rodas a torna elétrica.
Chamo-lhe “mota” e ajuda-me a ultrapassar algumas barreiras que sei que vou encontrar pelo caminho.
Eu, a minha cadeira de rodas, a minha “mota” e a minha câmara. É tudo o que preciso para ter um dia perfeito.
A escolha dos locais para fotografar é sempre feita com base no que me pode aparecer como obstáculo à minha condição. Por muito que gostasse de percorrer os bairros mais antigos de Lisboa, e sendo a minha cidade a das Sete Colinas, opto por circular por locais onde sei que vou ter alguma autonomia.
Mesmo assim arrisco-me bastante. Como daquela vez em que pedi ao meu táxi de sempre para me deixar em Alvalade e para me ir buscar (muitas) horas depois ao Cais do Sodré. Olhou para mim preocupado. E a verdade é que havia alguns motivos para isso. Afinal, ambos sabíamos que o percurso não era totalmente acessível, e que o mais certo seria ter de arranjar alternativas para não parar. Que arranjei sempre.
Sinto-me sempre um pouco extraterrestre pela forma como quem passa por mim fica especado a olhar. Mas tenho de compreender.
Afinal, uma “coisa” que ninguém percebe bem se é uma cadeira de rodas ou uma mota – já agora discretamente pintadas de amarelo e vermelho – com uma mulher sem medo em cima dela, que sobe passeios mal desnivelados, contorna sinais de trânsito e caixotes do lixo colocados no meio na via pública – já para não falar dos automóveis estacionados em cima de passeios – “são só 5 minutos!” – podia bem ser de outro mundo, tal é a resistência necessária para não desistir.
Mas sou deste mundo, e não, não desisto.
Quando os obstáculos me saem da frente, aí sim, é a liberdade no seu auge. Entro numa espécie de universo só meu, focada apenas no que se passa à minha volta.
Vejo pessoas felizes, ocupadas, outras tristes e sem esperança no futuro.
Registo ambas.
Passo por turistas fascinados com o que veem, e por lisboetas que já nem ligam à beleza da nossa cidade de tão habituados que estão a ela.
E volto a registar.
Cruzo-me com pessoas a viver na rua, sem qualquer dignidade, seres humanos como nós e tantas vezes invisíveis para os que passam – porque olhar para o sofrimento custa ou não interessa porque é dos outros – e também os levo comigo.
Não há dia em que chegue a casa com menos de 150 fotografias. Depois da seleção e edição, vou partilhando as que mais gosto numa página de Instagram que criei para o efeito. Chamei-lhe Marta Canário Photos. Simples e claro como eu quero sejam os registos que faço de quem vive ou passa pela minha cidade e por mim.
Não me interesso por números de seguidores ou likes.
O que me apaixona é o processo: desde o momento em que decido olhar para a minha semana, à procura do espaço necessário na agenda, passando pelo dia em que em que saio para fotografar, até ao momento em que regresso à base e mergulho na edição de cada emoção e reação, para que transmitam exatamente aquilo que os meus olhos viram quando decidiram parar para o trazer comigo.
Quando me perguntam qual será o próximo passo, e como vai evoluir este novo amor, respondo que não sei e que a única certeza que tenho é que vou continuar a nutri-lo o melhor que conseguir, entregar-lhe todo o meu tempo disponível, e a receber em troca a sensação incrível que me enche a alma quando sei que trago na câmara a foto que me fez sair de casa.
*Marta Guimarães Canário trabalha em comunicação há mais de 20 anos, área em que se licenciou. Quis ser pivot do Jornal da Noite da SIC, mas a tecnológica Novabase pôs-se no seu caminho e ficou com ela para gerir a área de Relação com os Media. Viveu 25 anos em Lisboa, cidade onde ainda hoje trabalha e onde passa grande parte do teu tempo, também em lazer. Paraplégica desde os 15 anos, é autora do livro “Ser Feliz é uma Escolha”. Tem 47 anos e pretende chegar aos 100. “No mínimo”, como costuma dizer.












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