Entre o café que sai quente e a mão que o serve ao cliente, há ainda o sorriso de quem na Pomarense trabalha. Esta é mais antiga pastelaria viva em plena Avenida da Liberdade. Mas, às mesas, já se vai sabendo que assim será apenas até final de abril, quando fechar portas definitivamente.

Quem sai do metro da Avenida dá de caras com esta pequena pastelaria, que pode passar despercebida entre uma loja de noivas e outra de canetas de luxo, um hotel . A acrescentar à esplanada que se enche de turistas no verão, há oito pequenas mesas no interior – o espaço não permite muito mais lugares, mas facilmente as cadeiras ou os tampos se mexem e moldam a quem chega. Lá dentro, Teresa Resende trata de preparar as famosas bifanas vendidas a 2,60 euros. Ou pregos a 3,30.

Dina, a funcionário de 20 anos da Pomarense. Foto: Líbia Florentino

Aqui, fala-se de “felicidade” no trabalho, a mesma que Dina Almeida sentiu quando aqui chegou há 20 anos para um part-time, e que se mantém ainda hoje quando cumprimenta cada cliente – os turistas e os portugueses clientes habituais, que cá chegam à procura do que dizem ser um lugar acolhedor e a preços acessíveis numa avenida tomada pelo luxo.

Vários dos clientes habituais da pastelaria são exatamente os lojistas e trabalhadores dos hotéis da Avenida. Os próprios hóspedes vêm cá tomar o pequenos-almoço, sendo sempre recebidos com um “bom dia”, que facilmente se pode transformar num “good morning” ou em “buenos días“.

Se por um lado “há cada vez menos portugueses e mais turistas”, foram também estes quem foi ajudando na sobrevivência. Também por esta razão a pandemia de covid-19 foi um período “péssimo”. Eram servidos meia dúzia de cafés por dia. E por aqui não se nega que esta também possa ser uma das razões que tenha motivado a decisão de fechar portas.

A velha pastelaria que resiste numa avenida voltada ao luxo

Antes de ser pastelaria, a Pomarense era chamada de leitaria. Chegou à avenida em 1932, mas esse tempo é demasiado longínquo para Alcino Resende, 54 anos, atual proprietário, ser capaz de contar a história. Sabe apenas que o nome foi inspirado na freguesia de Pomares – em Arganil, Coimbra -, de onde eram naturais os primeiros donos, migrantes em Lisboa como tantos outros que procuravam na cidade mais oportunidades de vida.

Alcino Resende está há mais de 20 anos à frente da Pomarense. Foto: Líbia Florentino

É, por isso, um dos comércios mais antigos da Avenida da Liberdade, a par da Leitaria Baiana no número 59, fundada quatro anos mais tarde, em 1936.

Alcino chegou muito depois daqueles primeiros tempos. Trabalhava numa outra “casa” na Rua Alexandre Herculano, e mudou-se para aqui porque “as pessoas que lá estavam queriam sair” – estas já sem qualquer ligação aos primeiros donos.

Desde então, a Avenida da Liberdade, eternizada nas paredes da pastelaria numa fotografia a preto e branco, mudou bastante. A ocupação pelos carros e a “saída de várias casas mais tradicionais, consultórios, lojas”. A pressão imobiliária e a alteração 2012 da Lei do Arrendamento são apontadas como as principais razões que levaram à saída de todos estes pequenos comércios.

A pastelaria foi resistindo.

Foto: Líbia Florentino

O fim anunciado

De forma a “manter os preços normais” e para pagar as despesas, “é preciso trabalhar”. Todos os dias às 7:00 da manhã, as portas estão abertas, mas o dia de Alcino começa ainda mais cedo – e as 12 horas que passa diariamente na pastelaria fazem-no querer “uma coisa mais calma” para o futuro incerto que se avizinha.

Durante anos, a Pomarense usufruiu das condições de um contrato antigo e com uma renda que Alcino diz ser relativamente baixa, o que permitiu a sobrevivência nesta avenida. Já tinham recebido várias propostas para ceder o espaço, mas só no ano passado estas se efetivaram: com indícios de que o contrato não seria renovado por valores idênticos, decidiram antecipar o fim apontado para 2028 e trespassar a casa.

Foto: Líbia Florentino

Alcino Resende fala de uma “proximidade” agora difícil de encontrar em Lisboa, típica das antigas “casas de bairro”. 

“Não é como aqueles grandes espaços onde as pessoas são números. Nós reconhecemos [as pessoas] pelo nome…, tratamos as pessoas de uma forma diferente, que não se vê em muitas casas hoje em dia por Lisboa”.

Aqui ainda não se perdeu o hábito de se tomar o café ao balcão, mesmo de pé. “Agora o que há são conceitos novos e caros [de restauração] e os portugueses não se identificam muito com o serviço”.

É com tristeza que o proprietário confirma que os clientes já vão sabendo do encerramento – voluntário – do negócio que tem vindo a construir há 22 anos com a mulher. “É pena e eu também tenho pena”. Há clientes que se foram tornando “amigos”, e que já virou rotina cá virem.

Uma “companhia internacional”, cuja identidade Alcino é obrigado a não desvendar, ocupará o espaço da Pomarense. Na Avenida onde todos os anos se comemora Abril, fecham-se agora as portas a mais um dos comércios locais que conseguiu resistir durante estes 92 anos.


Ariana Moreira

Natural de Rebordosa, em Paredes, Ariana Moreira é aluna de licenciatura em Ciências da Comunicação na Universidade Nova FCSH, em Lisboa. Está a estagiar na Mensagem de Lisboa.


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6 Comments

  1. Os novos “conceitos” de uma restauração de luxo estão a desfigurar e desumanizar Lisboa. É mesmo triste que os negócios e a própria cidade esvaziem-se de Essência e autenticidade em nome apenas do lucro trazido por quem vem de fora. Triste tendência, Cidade com menos Alma.

  2. Nestes … Comércios com história(s), o final da história tem outra moral!

  3. Mais uma loja que “beneficiou de uma renda baixa até aqui” segundo o proprietário, mas toda a narrativa é construída como se alguém muito maléfico está a expulsar estas lojas da avenida. Mas o senhorio que suporta esta “simpatia para com o cliente” a bifana baratinha e atender o cliente com “um bom dia”, este senhorio é um malandro que deve ser expoliado do seu património em nome da haver lojas com história na av. Tenham paciência.

  4. Tudo começou com lei cristas. Em vez de atualizarem rendas 10 ou 20 ao ano, não o objetivo era despejar para entregar aos fundos. Conseguiram. No meu caso fomos 7 para o desemprego.Q

  5. A Avenida da Liberdade, não foi assim chamada como diz o artigo devido “à liberdade de abril”.

    A liberdade é muito mais do que isso e abrange essa também, é um facto.

  6. Toda a razão, corrigido. Era na verdade uma ideia que não correu bem – porque a referência era à Manfestação do 25 de abril. Mas é melhor evitar mal entendidos.

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