A viagem teve início em outubro de 2022 e, por quase dois anos, a Mensagem de Lisboa percorreu as ruas do Bairro do Rego, na privilegiada companhia de quem lá vive – e lá sempre viveu -, conhecendo pessoas e lugares, a ouvir e contar histórias e a falar sobre o jornalismo, com um grupo de jovens desta comunidade das Avenidas Novas – que, mesmo no meio de Lisboa, se sentia esquecida pelos media tradicionais.
Com a Associação Passa Sabi e apoiados pela iniciativa Cidadãos Ativos das EEA Grants, gerida pela Fundação Calouste Gulbenkian e Bissaya Barreto, o projeto Correspondentes de Bairro reuniu um grupo de jovens do Bairro do Rego para uma sequência de atividades de reflexão e prática do jornalismo.

A ideia não era formar jornalistas, mas dotar um grupo de jovens de uma comunidade com ferramentas de rotinas jornalísticas úteis para produzir uma informação diferente, mais positiva.
Assim surgiram várias histórias sobre uma outra face de um bairro social, exemplos de superação, dedicação e de talento dos vizinhos desses jovens moradores, que perceberam na prática a função de um correspondente no jornalismo, aceitando o desafio proposto de perceber o Bairro do Rego não como um lugar de problemas, mas também de soluções.
A última paragem desta viagem aconteceu em março, quando o Bairro do Rego recebeu a visita de uma dezena de integrantes do Conselho de Administração da Fundação Calouste Gulbenkian, que através do programa Cidadãos Ativos financiou o trabalho com os correspondentes do bairro.
Neste dia, uma das nossas correspondentes de bairro, Inês de Sousa, coordenou uma entrevista ao presidente do Conselho de Administração da Fundação Calouste Gulbenkian, António M. Feijó, sobre o que representava esta visita.
O presidente lembra que, embora o Bairro do Rego seja vizinho à fundação, “mesmo assim para muitos de nós permanecia uma incógnita”. “Muitas vezes, o acesso a este tipo de realidade faz-se indo lá. Nós não temos, infelizmente, visitados tantas comunidades assim, mas sabe-se logo o que se está a perder, pois conhecer esses tipos de realidade tem sido extraordinário para nós.”
Sobre o projeto Correspondentes de Bairro, lembra que os pequenos gestos podem ter grandes consequências:
“Fala-se de grandes questões globais que afetam a vida de todas as pessoas e o natural tem sido tratar destes temas esquecendo-se das realidades locais, sem perceber que o modo de resolver um grande problema pode passar por tentar resolvê-lo localmente”, explicou António M. Feijó para a correspondente Inês, de microfone em punho.

A programação da visita contou com uma breve explicação realizada pela coordenadora da Passa Sabi, Joana Mouta, e pela diretora da Mensagem de Lisboa, Catarina Carvalho, sobre o trabalho da associação no Bairro do Rego e da Mensagem no jornalismo local em Lisboa e, ainda, da atuação em conjunto no Correspondentes de Bairro.
“Foi um projeto muito interessante que começou com a Passa Sabi a entrar numa matéria da Mensagem durante a pandemia. À época, em conversas, a Joana falava muito sobre o impacto negativo da desinformação no trabalho de uma associação e na perceção da realidade dos bairros sociais”, explica a diretora da Mensagem, Catarina Carvalho.
Para a coordenadora da Passa Sabi, Joana Mouta, uma perceção equivocada e construída por uma leitura igualmente equivocada da maioria dos media sobre a vida num bairro social – o que impacta a forma como os moradores desses bairros se vêem a si mesmos.
“Fomos percebendo durante os nossos trabalhos com os jovens nas escolas do bairro que uma das principais preocupações era de não serem representados nas notícias e, quando essa representação surgia, era sempre pelo lado negativo. Nunca havia uma visão positiva”, diz Joana Mouta, coordenadora da Passa Sabi.



“E quando olhamos para o que está à volta percebemos que há comunidades muito interessantes, vivas e com uma densidade cultural muito forte, mas que muitas vezes são representadas de um modo falso, à luz de preconceitos fortes, e julgamos que é melhor dar-lhes a palavra na tentativa de mudar essa perceção equivocada”, concluiu o presidente do Conselho de Administração da Fundação Calouste Gulbenkian.
Para Catarina Carvalho, o Correspondentes de Bairro serviu sobretudo para reforçar a missão da Mensagem na cobertura de um jornalismo comunitário em Lisboa e região. A experiência tem rendido outras iniciativas semelhantes, como as do Projeto Narrativas, que visa combater a “desertificação de notícias” em comunidades semelhantes às do Bairro do Rego.
“Nós na Mensagem assumimo-nos como jornalistas com presença na vida pública e com o espírito de contribuir para o bem comum. Vemos as pessoas não como vítimas das notícias que nos acontecem, mas que podem ser participantes delas, como foram tantas as personagens das matérias, num processo de jornalismo comunitário e democrático”, remata Catarina Carvalho.
*Esta entrevista foi feita em colaboração com a correspondente de bairro Inês de Sousa

Álvaro Filho
Jornalista e escritor brasileiro, 51 anos, há sete em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa. É autor de sete livros, dois deles com Lisboa como personagem, Alojamento Letal e O Mau Selvagem.
✉ alvaro@amensagem.pt

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