Toda vez que ouço “imigrante” e “grande substituição” na mesma frase penso num jogador brasileiro que sai do banco de suplentes para fazer o golo da vitória de uma equipa portuguesa.

Grande substituição realizada pelo mister, diria o comentador após a bola rematada pelo avançado imigrante estufar a malha.

Não sei quanto aos leitores dessas crónicas, mas nunca ouvi da bancada um “volta para a tua terra!” dirigido ao artilheiro da equipe. E olhe que se há um campo onde a paranoia infundada de uma grande substituição poderia vestir a camisola é o da bola. 

O futebol que serve como metáfora para tudo não é escalado para reforçar a convivência pacífica entre o português e o imigrante. Foto: Líbia Florentino.

Também nunca vi um candidato oportunista a bufar contra a grande substituição da mão de obra portuguesa nas equipas lusas, onde os jogadores estrangeiros normalmente ganham salários astronómicos e indecorosos para o padrão do trabalhador português. 

Muito menos um paladino patriota preocupado com a desenfreada “saída dos nossos jovens do país”, talentos da bola que seguem para o estrangeiro muitas vezes sem nunca ter pisado numa relva nacional.

O futebol que serve como metáfora para tudo não é escalado para reforçar a convivência pacífica entre os portugueses e os imigrantes, para ressaltar o trabalho coletivo em nome da felicidade geral da nação, como ocorre nos estádios, quando os principais goleadores da liga são estrangeiros.

Golos com sotaques brasileiro, sueco, congolês, espanhol ou argentino. O apetite dos adeptos portugueses saciado pelas forças das pernas estrangeiras, como as pernas dos imigrantes que pedalam as bicicletas com as bolsas térmicas às costas para matar outros tipos de fome, porém sem gozar do mesmo prestígio e carinho. 

Na seleção nunca foi muito diferente e para não ir muito longe basta lembrar que os dois maiores nomes da história do futebol português tiveram cada um do seu jeito de cruzar o Atlântico como tantos imigrantes o fizeram e ainda fazem.

Nas Quinas, como nas esquinas, o hino também se canta “contra os canhões, migrar, migrar“.

Eu sei, eu sei, meu caro colega de equipa imigrante, que o placar não está a favor do nosso time e não é justo levar a culpa por todos os maus resultados do país, pela crise na habitação, nos hospitais e nas escolas, pelos baixos salários, pelo aumento da violência, pelo empobrecimento de uma nação que só foi rica quando usufruiu das riquezas dos outros.

Sei que não é justo levar a culpa por todos os males quando são os imigrantes que dormem nas ruas, não são integrados nas escolas, são explorados – quando não escravizados – no trabalho por patrões inescrupulosos e os seus salários de miséria, enganados e roubados por burlas quando buscam tão somente serem cidadãos no seu novo país.

Sei ainda como incomoda os olhares de soslaio vindos das bancadas das ruas, os dedos apontados, as palavras amargas e os piores pensamentos e desejos não revelados.

A exposição e humilhação das palavras de quem pretende governar esse país.

Mas sei também que o imigrante é antes de tudo um forte, o sobrevivente de uma tragédia, uma alma sem passado, presente e futuro, que desembarca despido numa nova pele.

Que rasga as vestes de rei, doutor, pai e filho para renascer apenas imigrante, sem cara, sem nome, descendência, patente e diploma na parede. Nada nas mãos, apenas a fé no coração. Pois imigrar é um ato de fé de nessa nova terra encontrar a paz que não encontrou na terra que deixou para trás.

O imigrante não quer guerra, mas retribuir com o suor do rosto a sua acolhida calorosa, e com os calos nos dedos, a sua mão estendida. Não espera, nunca, pelo rechaço e a sensação de ser bem-vindo.

Enquanto for connosco, menos mal, podem chutar a canela que não se perde a bola. Dói, fere, mas fecha-se os olhos e os ouvidos e segue-se driblando os adversários. Pior é quando são com os nossos, com a divisão de base, pois os meninos não têm pátria, não têm terra para voltar, têm tão somente a terra da infância, onde devem ser protegidos e felizes.

É pelos meninos que vestimos a camisola de imigrante e, enquanto o juiz não trinar o último apito, a partida continua e não adianta ameaçar com o risco de expulsão que o imigrante não abandona o relvado dos sonhos no meio da partida.

O mais estranho é ouvir esse malcriado convite para voltar à terra justamente da boca de uma nação cujo desporto-rei não tem sido o futebol mas o lançamento dos filhos da pátria ao mundo, para povoarem a Terra.

A terra dos outros.

O placar não está a favor da equipe dos imigrantes e não é justo levar a culpa pelos maus resultados do país. Foto: Denniz Futalan on www.pexels.com

O paralelo entre a política e o desporto é bastante didático em um país onde parte dos media escolheu o modelo desportivo como parâmetro para a cobertura dos eventos políticos na campanha da eleição que pode mudar o rumo do jogo democrático em Portugal.

Na televisão, os debates tiveram ares de derby, com árbitro, tempo cronometrado no ecrã, comentador e notas de atuação, o poligrafia do VAR, replay, melhores momentos e as sondagens como a nova tabela de classificação, a separar os vencedores dos derrotados.

Não se admira, portanto, de o eleitor se comportar como claque, tentando alterar o resultado da partida no grito, com palavras de ordem e insultos, elegendo o imigrante como o adversário a ser derrotado para o bem do país. Uma ruído que só beneficia os partidos vestidos com a camisola da xenofobia, cuja estratégia é o cartão vermelho na democracia.

A nossa liberdade e segurança como imigrante na marca da grande penalidade.

Eis porque não podemos nos dar ao luxo de sermos parte do debate político e dos programas políticos, mas seguirmos de costas viradas para a política.

Aos imigrantes que leem essas mal-tecladas linhas, a lembrança de que o nosso campeonato é no campo democrático, é nas urnas, é no voto. É votar na sua nova terra para não ser obrigado a voltar para a sua antiga terra.

A quem o voto for possível agora não deixe de fazê-lo, por você e por aquele imigrante a quem as idiossincrasias da burocracia e da diplomacia e a crueldade do sistema ainda não lhe permite.

Aos que têm o direito de votar e por algum motivo não se atentou para isso, calce as chuteiras o quanto antes, pois sempre haverá uma nova oportunidade de ser convocado para entrar no relvado do jogo político.

Vota na tua terra, imigrante!

Pois só assim o placar pode começar a virar a nosso favor.

*O autor escreve na variante Português do Brasil


Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 51 anos, há sete em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa. É autor de sete livros, dois deles com Lisboa como personagem, Alojamento Letal e O Mau Selvagem.

alvaro@amensagem.pt


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