Nos anos 2000, João Tordo partiu de Lisboa para Nova Iorque para cumprir o seu sonho: tornar-se escritor. Ao longo dos anos que se seguiram a aprender o ofício, viria a descobrir que um romance nada mais é do que “um tipo que sai de barco de uma cidade portuária inglesa rumo aos mares do sul, mas há um erro na bússola e, em vez de chegar aos mares do sul, dá a volta à Inglaterra e regressa à sua cidade”. Era assim que o escritor britânico G. K. Chesterton via o romance e é também assim que João Tordo hoje o vê.
A história de João acaba, pois, por se cruzar com a de Natasha, a narradora do seu mais recente livro, “O nome que a cidade esqueceu”, que esteve em discussão na 8.ª sessão do Clube de Leitura de Lisboa, n’A Brasileira do Chiado – uma iniciativa mensal para juntar leitores e autores à volta de obras relacionadas com a cidade e as cidades.
Natasha chega a Nova Iorque nos anos 90, refugiada da União Soviética, e, tal como João quando aqui passou a estudar, sente-se assustada e, ao mesmo tempo, atraída pelo desconhecido daquela nova cidade.
Uma cidade que, para os dois, ficará eternamente ligada às memórias que lá criaram. É nela que Natasha conhece George, uma estranha personagem que não sai do seu apartamento nova-iorquino há oito anos, e que lhe incumbe uma tarefa insólita: ler-lhe a lista telefónica.
Desde os anos 2000 que Nova Iorque – e a memória que João tem desses tempos – mudou radicalmente. Hoje, o escritor vê a cidade que nunca dorme como “umas peúgas velhas”, que já não usa, mas da qual guarda essas recordações de um jovem, perdido como Natasha, à procura do desconhecido que lhe permita regressar a casa.



Leia ou ouça a conversa com o autor:
Vamos recuar um bocadinho no tempo, até àquele dia em que leste uma reportagem no The New York Times, que foi mote para escreveres este livro. Consegues recordar esse dia e contar-nos como é que surge a primeira ideia?
Claro. Olá, boa tarde a todos. Obrigado pelo convite. Eu não costumo ir a eventos em Lisboa, porque é a minha cidade e sinto sempre que estou em casa e e às vezes é esquisito fazer este tipo de coisas, raramente faço lançamentos em Lisboa porque esta é a minha cidade, é o meu lugar de resguardo. Sinto um bocadinho de intimidade, para ser sincero. Os lisboetas também são mais… parecem ter um olhar mais intimidante do que as pessoas no resto do país, e eu sei que também tenho esse olhar…
Em relação ao livro, eu lembro-me desse momento em 2015. Eu assino o New York Times já há muitos anos e às vezes há reportagens que me interessam, mas grande parte das vezes aquilo passa-me um bocado ao lado. Ainda por cima, nos últimos anos, o jornal está muito voltado para a política interna e externa dos Estados Unidos e aquilo interessa-me muito pouco. Mas, de vez em quando, publicam umas reportagens que são um bocadinho fora da caixa e esta foi uma delas, que eu achei que era fascinante pelo seu conteúdo, porque era uma reportagem sobre ninguém.
Chamava-se “The Lonely Death of George Bell”, ou seja, “A Morte Solitária de George Bell”. A reportagem conta a história de um homem que tinha vivido os últimos oito anos da sua vida num apartamento no Upper West Side sozinho, sem ter saído de casa. Para mim, a reportagem era interessante no sentido em que o New York Times está a dedicar páginas à história de uma pessoa que ninguém sabe quem é, e que se continua a não saber quem é.
Ora, as circunstâncias dessa história eram particulares porque ele não só tinha passado os últimos oito anos fechado em casa sem sair, como tinha sido encontrado morto pelos vizinhos. O corpo entrou em putrefação.
Quando os bombeiros entraram em casa de George Bell, aperceberam-se que os seus quartos estavam cheios de coisas. Ele era o que se chama um acumulador, uma pessoa que tem uma adição e vai acumulando coisas: tinha quartos cheios de cadeiras e caixas de guardanapos e escovas de dentes e sabonetes…

Aquela história fascinou-me porque desemboca numa história sobre a solidão urbana e sobre como as cidades são lugares tendencialmente solitários, o que é estranho, porque normalmente a cidade, a pólis, como chamavam os gregos, é um sítio onde as pessoas se encontram e se cria um efeito de exército… É esta ideia de tribo que é tão interessante para os seres humanos: nós queremos pertencer e devemos pertencer a uma tribo. Há um livro que se chama “Sapiens“ e que fala disso mesmo: é preciso uma tribo para tu educares um ser humano.
Mas essa educação do ser humano nas cidades acaba por ser algo que se está a separar do próprio conceito de cidade. Hoje, as pessoas vivem sozinhas ou em pequenas famílias nos seus apartamentos e a nossa ideia de tribo é ir a um concerto ou ouvir um escritor a falar, mas estamos ali uma hora ou duas e vamos embora para as nossas casas e voltamos à nossa solidão. O artigo de certa maneira toca neste ponto.
A história do livro acaba por ter duas narrativas: a do George e a de uma refugiada que chega a Nova Iorque, a Natasha. A ideia da Natasha já existia antes de descobrires o George?
A história das ideias é a mais interessante de todas porque, ao contrário do que o ser humano comumente faz na sua vida normal, que é colecionar informação, isto é, vai no carro e está em casa e está sempre a ouvir rádio, notícias, televisão, e essa coleção informativa normalmente não te permite, do ponto de vista emocional, juntar as coisas que são aparentemente desavindas, a verdade é que, quando começas a a escrever e a ganhar uma cabeça de escritor, que é uma coisa que demora algum tempo, começa a acontecer uma coisa nova na tua vida que é teres algumas ideias e juntá-las.
Eu vou dar um exemplo de uma situação que é bastante paradigmática de como estas coisas acontecem: eu há uns dez anos tive uma ideia de uma história que era bizarra, era a ideia de um rapaz que se apaixona e, da primeira vez que faz amor com a rapariga, ela morre. Esta é uma ideia mórbida e é uma coisa que ninguém quer ler, e sobretudo eu não quero escrever esta história porque é bizarro, mas às vezes acontece uma pessoa ter este tipo de ideias e pensar: “Mas por que é que isto aconteceu? Por que é que eu estou a pensar nisto?”.
Há uns dias, estava numa escola na Póvoa de Varzim e estava a contar esta história e, quando olhei para a plateia, estavam 200 miúdos de 17 anos a olhar para mim e eu tive quase que dizer: “Não se preocupem que não vão morrer! Eu já fiz algumas vezes e estou vivo!”. Eles estavam todos a perguntar: “Mas isso pode acontecer, uma pessoa fazer amor e morrer?”. E eu disse que não, mas a verdade é que pode. Essa ideia ficou comigo durante vários anos e eu fui de certa maneira tentando combatê-la porque eu sou um bom advogado da conceção das minhas próprias ideias e digo: “olha não serves”, mas as ideias que são mesmo boas são aquelas que ao fim de um ano, cinco, seis, ainda estão lá…
Eu tenho oito sobrinhos e o mais velho tem agora quinze e a que vem a seguir tem catorze, e eles os dois estão carregados daquilo que os gregos chamam “pathos”, no sentido de sofrimento. O meu sobrinho Matias, que era um miúdo normal e gostava de fazer coisas comigo, jogávamos playstation, de repente, a vida dele está toda em volta de uma rapariga chamada Mariana ou Leonor…



Acho que é Mariana, é que eu já ouvi esta história…
Pois claro, mas é verdadeira, é essa a patologia que está entranhada nele. Ele está
está nesse estado, nessa ânsia de qualquer coisa que ele não sabe exatamente o quê, mas que tem muito a ver com essa com essa noção de sofrimento e eu não posso explicar-lhe isso, não posso dizer que aquilo vai correr mal porque nenhuma paixão aos 15 anos corre bem. Quer dizer, há uma ou duas em toda a história da humanidade que corre bem. É óbvio que aquilo é uma espécie de doença do espírito em que de repente tu ficas consumido por uma ideia.
Com o livro “Felicidade“, foi esse convívio com a a patologia nas suas várias manifestações que levou à sua escrita, e ao encontro com algumas personagens que de outro modo eu não teria usado. É que eu tinha uma outra ideia: eu vivia num bairro em Lisboa onde havia uma família com três gémeas, e foi engraçado ver aquelas miúdas chegarem ao bairro e serem de certa maneira a atração dos cafés, e os anos passaram e, de repente, elas já não tinham sete ou oito anos, já tinham dezesseis, já eram adolescentes e já tinham as três características diferentes! Foi através disso que eu, um dia, cheguei a casa e pensei: “olha aquela história que eu tinha aqui há tanto tempo do rapaz que se apaixona na adolescência, estas são as personagens certas para eu a escrever!”.
No livro, as gémeas chamam-se Felicidade, Esperança e Angélica, e a narrativa segue um rapaz de dezassete anos que se apaixona por uma delas, a Felicidade. A primeira vez que fazem amor dentro de um carro, ela morre nos braços dele. Morre feliz mas morre. É uma história mórbida e, ao mesmo tempo, uma tragédia, porque, depois desta morte, o protagonista não só fica traumatizado como se casa com a irmã dela, o que é uma excelente ideia.
Acho que, com “O Nome que a Cidade Esqueceu”, aconteceu um bocado a mesma coisa. Tive uma ideia bizarra em 2017, 2018 e comecei a alimentar essa ideia literária que era: “nunca ninguém lê uma lista telefónica”. É uma coisa estranha, nós antes tínhamos listas telefónicas, tínhamos as páginas amarelas, tínhamos as páginas brancas, e hoje em dia vai-se à Internet e escrevemos Ana da Cunha e aparece logo tudo. Pensei que seria mais interessante se eu pudesse pagar a alguém para ler a lista telefónica, o que é também uma ideia bizarra, e a ideia foi ficando…
Quando encontrei esta história do George, pensei que era giro se eu conseguisse juntar as duas ideias, e também tinha esta personagem, a Natasha. Eu gostava que o livro se passasse no princípio dos anos 90 porque foi a primeira vez que eu fui a Nova Iorque,
e encontrei uma cidade muito parecida com Lisboa, não em termos físicos, nem em termos geográficos, nem em número de habitantes nem nada, mas em atmosfera. Eram cidades muito “gritty”, cinzentas. Tu ias a Nova Iorque em 92 e estava cheia de personagens, em cada esquina havia uma pessoa diferente, um rosto estranho… agora, as pessoas parecem-se todas as mesmas e tudo se massificou, e isso tem um lado bom e mau…
Nova Iorque ea uma cidade melancólica, com algum peso e alguma tristeza… Eu tinha memórias desse tempo em Nova Iorque e, portanto, a história do livro recuou até 92, também porque a Natasha veio de um país muito grande, um país da União Soviética, e atravessa a fronteira como refugiada e, coitada, o trabalho que lhe aparece é ler a lista telefónica para este George, este homem que não sai do apartamento há oito anos.
Há aqui uma certa coincidência: tu escreveste o teu primeiro livro em Nova Iorque, tu foste essa primeira vez a Nova Iorque com 17 anos e, em 2015, vês este artigo no New York Times. Já estavas a pensar em escrever mais um livro passado em Nova Iorque?
Eu estive em Nova Iorque há 22 anos. Na altura, eu não tinha escrito nada, ainda estava a escrever um primeiro romance, a cidade serviu de ambiente. Embora o meu primeiro livro não se passe completamente em Nova Iorque, havia todo um ambiente à volta que tinha a ver muito com a minha perspectiva do que podia ser um escritor…
E eu estava completamente enganado. Ser escritor não tinha nada a ver com aquilo que eu achava… Vim a descobrir que ser um escritor profissional é ter uma parte de inspiração mas também uma parte que tem muito a ver com canalizações e com arquitetura e com construções de legos, construções de fósforos. É mais ou menos assim que eu penso todos os dias: eu vou para a secretária tentar encaixar os legos e fazer construções… e ter muito tédio, aborrecer-me! Eu gosto muito daquilo que faço e dá-me muita seca, eu acho uma seca escrever, uma seca do caraças! E, no entanto, é a minha vida.
Não há nada na vida que seja bom que não tenha esse lado profundamente entediante. Não sei quantos de vocês aqui são casados ou têm relações amorosas, mas as relações têm esse tédio, têm um lado fascinante mas grande parte daquilo também é tédio. Acordas e é a mesma pessoa outra vez e continua a ser a mesma ao fim de 10 anos! E esse tédio transforma-se lentamente numa espécie de amor, eu sinto isso em relação à escrita: é uma coisa que me dá seca, custa-me todos os dias ir para a secretária, às vezes não me apetece nada… Tenho entusiasmo no princípio, mas esse entusiasmo cedo começa a declinar …
Eu falava dos meus sobrinhos precisamente por causa disso, porque o estado patológico em que está a minha sobrinha Mercedes por causa do Ricardo ou do Gonçalo ou não sei quem… Quando és adolescente aquilo pode durar um ano, mas, conforme tu vais crescendo, conforme vais percebendo que não há ninguém com 50, 60, 70 anos que possa estar apaixonado como estão os miúdos de 14, vais ganhando essa experiência. E a experiência da escrita tem muito a ver com isto: com essa vontade de te submeter àquele sofrimento.
A minha maneira de estar na vida é todos os dias sentar-me e continuar a desenvolver personagens, a desenvolver uma história… Tanto que às tantas desisto, e eu já desisti muitas vezes, cheguei a alturas em que disse: “Epá chega, estou farto desta merda, vou antes fazer natação”, mas acabas sempre por voltar, é um bocado como as relações tóxicas, as pessoas voltam sempre ao sítio…

Mas aqui há uma diferença em relação às relações. Cada livro é um livro novo, não é?
Mas um livro é uma relação. Eu acho que é isso que é difícil compreender quando não se escreve: um livro é uma relação.
Mas cada livro é uma relação nova. E a obsessão vai mudando…
Sim, é mais saudável do ponto de vista em que tu vais mudando. Mas também não é saudável se eu disser às pessoas que fui casado 20 vezes, as pessoas não acham que isso é saudável, mas os livros têm esse carácter de relação. São objetos de paixão, que depois se transformam lentamente em formas de amor, com tudo aquilo de positivo e de negativo que tem o amor. E, portanto, é uma entrega muito grande e é uma entrega muito difícil.
Eu quando tinha 30 anos pensava: “eu vou escrever para o resto da vida. Eu vou chegar aos 88 anos e vou estar ali a pôr as minhas últimas palavras na página.” Hoje em dia, não. Eu quero reformar-me. Eu quero reformar-me da vida de escrita. Quero chegar aos 67 e dizer: “chega”. Não faz sentido nenhum uma pessoa estar a fazer isto durante 60 anos, é um exercício de masoquismo. Portanto, eu, como toda a gente, mereço a reforma. Eu mereço ter uma vida também normal, porque a vida da escrita não é uma vida normal, no sentido em que não há uma vida com muito espaço. A minha vida divide-se entre escrever,
e depois viagens, encontros, conferências. Mais viagens, mais encontros, mais conferências.
Vamos recentrar um bocadinho a questão. Então, Nova Iorque. Tu já pensavas escrever um livro passado em Nova Iorque há algum tempo?
Eu, na verdade, já tinha escrito um livro passado em Nova Iorque há muitos anos, que se chama “Hotel Memória”. Nova Iorque acabou também por ser a situação geográfica de um outro livro, que se chama “As Três Vidas”. Quando é que eu tornei a visitar a cidade? Acho que nos últimos anos não voltei lá…
Este foi um regresso a um sítio que me é querido, mas também que me é distante. Hoje em dia tenho uma relação com Nova Iorque como tenho com umas peúgas velhas, que já não uso, já não tenho particular vontade em ir lá. Da última vez que lá fui, não foi uma experiência particularmente enriquecedora. Pensei: “isto é igual a Paris, que é igual a Budapeste, que é igual a Lisboa.” Essa relação com as cidades está a tornar-se muito idêntica, sobretudo as cidades que são muito frequentadas.
Daí que eu centro os meus livros noutro tempo qualquer: este livro passa-se em 1992, o “Felicidade” passa-se em 1973, por exemplo. Há todo este recuar no tempo para um tempo em que ainda havia tempo, não sei explicar…Em que as coisas tinham outro andamento.
Eu gosto desse revisitar, não foi propositado, até porque eu queria ser fidedigno à história que apareceu no New York Times. E o facto é que o George é uma personagem nova-iorquina por excelência: aquela solidão e aquela clausura é muito mais plausível numa cidade como Nova Iorque do que em Torres Vedras. Em Torres Vedras, se o George não saísse de casa há uma semana, iam lá bater à porta. Até aqui no meu prédio, em Lisboa. Eu acho que se eu não sair de casa durante seis meses ninguém repara, mas, ao fim de seis meses, o Antonino, que é o meu vizinho de baixo, que é um tipo simpático, ia acabar por se questionar. E eu tenho na cabeça que ele poderia fazer isso, ir lá a casa ver se eu estou vivo, porque se há criatura que é provável morrer sozinha… é um escritor!
Aliás, há um livro engraçado que eu tenho estado a reler, que se chama “O Perigo de Estar no Meu Perfeito Juízo”, da Rosa Montero. O livro é muito engraçado porque fala desta coisa da escrita e desta relação que os escritores têm não só com o seu próprio trabalho, mas também com a própria realidade. E ela fala disso, fala de todas as profissões criativas, e a escrita é a mais aborrecida de todas… é muito mais aborrecida do que pintar, do que tocar música, do que bailar, etc. É mais aborrecido porque é mais parado, porque implica uma imobilidade física que não é normal também, aquela pessoa está ali no mesmo sítio durante horas e horas… os escritores também são aqueles que mais enlouquecem e que têm mais patologias do que os bailarinos, muito mais do que os músicos! A escrita usa as palavras, que é o modo que nós temos de nos entendermos a nós próprios, e acaba por ser uma grande contradição nos seus próprios termos: eu escrevo porque não entendo, e vou, através das palavras, que é o meu modo de entender, tentar perceber. Mas as palavras são línguas, portanto, levam ao desentendimento… A música recorre a doze notas musicais. Ouves Brahms e aquilo é de uma harmonia espetacular, depois ouves os Beatles e aquilo é tão diferente, ouves Bach e aquilo é de uma complexidade enorme. São doze notas apenas! Aí está a grande bênção e o grande malefício da escrita.
Estavas a falar da questão de como Nova Iorque agora é parecida com qualquer outra cidade. O livro passa-se nos anos 90, que foi quando foste lá pela primeira vez. Fala-nos um bocadinho mais dessa memória que recuperas no livro.
Eu fui estudar para Nova Iorque no final de 2001. Entrei na faculdade no semestre de primavera, em fevereiro de 2002, e já tinha visitado a cidade duas vezes antes. Senti um fascínio por aquilo que depois rapidamente se desfez…Mas eu não me lembro tão bem da cidade quanto me lembro da pessoa que eu era quando lá estava, e eu acho que isso é indissociável. Eu era um jovem, aspirante a escritor, tinha passado a minha vida toda a escrever com fracos resultados, e estava a aprender.
Eu estudei Filosofia na faculdade, que é um curso excelente para quem quer conduzir Ubers, ou fazer pão, ou trabalhar como florista ou astronauta. Dá para tudo, é muito eclético. Depois, achei que precisava de fazer alguma coisa da vida, então fui estudar jornalismo, mas os anos em que trabalhei como jornalista foram os anos mais infelizes da minha existência, não me lembro de ser tão infeliz, eu não tinha jeito nenhum para aquilo, eu não tinha agenda, estava sempre a esquecer-me de tudo… A coisa que eu mais odiava era ter de telefonar às pessoas… Tu és de outra geração, que usa as redes sociais e manda uma mensagem, só que, no meu tempo, tinhas de telefonar às pessoas, tinhas de estar constantemente a ligar às pessoas, e era horrível. Fui um jornalista medíocre. Não tenho nenhum orgulho nisso, mas foi uma passagem necessária para eu perceber que não era aquilo que eu queria fazer, o que eu queria fazer era que eu fazia desde a infância: escrever histórias, inventar personagens, e entrar neste mundo estranho e obsessivo da ficção, que é muito particular.
Eu digo que a ficção, ou ser escritor ou escritora, não é para toda a gente, e não é por ser uma coisa que nem todas as pessoas conseguem fazer, porque escrever é uma coisa que toda a gente faz. 97% do nosso país é alfabetizado, muitas pessoas sabem escrever, mas escrever narrativa é um exercício completamente diferente, que tem harmonia… e ritmos e uma melodia muito específica que tem que ser encontrada. Eu diria que escrever whatsapps ou mensagens de texto ou e-mails é o correspondente musical a um caixote do lixo a ser atirado pela janela fora, está mais ou menos no mesmo som. Nós podemos encontrar melodia nisso, eu posso escrever melodicamente qual é o som no caixote de lixo a cair, tem ali alguma harmonia e tem alguma informação musical, mas não é muito interessante.
A escrita narrativa ganha-se com uma aprendizagem muito longa e muitas vezes frustrante, porque há uma figura mistério no meio disto tudo que se chama melodia e que, na narrativa da ficção, se chama voz. Voz ou uma espécie de coisa que a pessoa não sabe dizer o que é mas que depois acaba por ser absolutamente relevante. Por exemplo, se tu fores ali à Bertrand e abrires um livro do Saramago sem ver o título de nenhum autor, nós sabemos que é o Saramago, porque ele tem essa voz. Se abres um livro do Dostoyevsky, sabes que é ele. Se abres um livro da Virginia Woolf, ela tem aquela voz dela. E essa voz, que é a figura mistério, pode aparecer em alguns casos, mas em grande parte dos casos não aparece.
Tu podes passar anos e anos e décadas a estudar a escrita, e depois essa voz não aparece, e, de repente entras ali num movimento de quase oclusão em que desaparece sempre o escritor. E por isso é que não é para toda a gente, como não é para toda a gente ser advogado, não é para toda a gente ser bombeiro, não é para toda a gente ser qualquer coisa. É preciso uma função muito específica do teu lado emocional em que aprendes aquelas coisas e depois consegues de alguma maneira que essa voz venha ter contigo. O que não tem a ver com nada do que tu me perguntaste, estou a desviar-me das perguntas todas. Tu queres falar de cidades e eu hoje estou obcecado com isto. Desculpa.
Não tem mal, aliás, esta é uma coisa que é importante para esta discussão, que é a questão de Nova Iorque. A pessoa que tu eras quando foste para Nova Iorque.
Ah, era isso, sim, sim.
E isso faz-me lembrar também a própria Natasha. Eu gostava de te perguntar o que é que tu partilhas com a Natasha, porque acho que há aqui alguns pontos em comum. Ela chega mais ou menos com a tua idade a Nova Iorque pela primeira vez, ela própria também frequenta um curso de escrita…
Aquela questão de a cidade ser muito mais uma espécie de memória de quem eu era, que era um jovem com essas aspirações todas, que depois veio a descobrir, de facto, o que é que é a escrita e onde é que isso me podia levar e onde é que não me podia levar…
A Natasha partilha diversas coisas comigo. Ela no livro é gaga, eu sou gago, embora hoje em dia disfarce mais ou menos bem, mas gosto de ser gago, acho que é uma característica engraçada, e é uma coisa que eu faço bem. Eu não faço muitas coisas bem, mas gaguejar é uma coisa que eu faço particularmente bem. Se houvesse uma competição de gagos, eu ganhava uma medalha. Hoje em dia, se calhar já não, mas quando era miúdo, gaguejava muito melhor. E ela tem aquela coisa também muito engraçada que eu também tinha naquela idade: eu tinha muito medo de tudo o que era desconhecido, mas era também atraído por esse desconhecido, e essa é uma característica de que o escritor britânico Chesterton muito fala. Para ele, o romance é um tipo que sai de uma cidade portuária inglesa num barco que vai para os mares do sul, e há um erro na bússola! Em vez de chegar aos mares do sul, que hoje em dia nós chamamos Polinésia, dá a volta à Inglaterra e volta à sua cidade…E ele diz que um romance é basicamente isso: uma pessoa achar que vai para o desconhecido cheio de medo e depois perceber que, afinal, chegou à sua terra natal, e sentir aquela alegria enorme de ter voltado a casa…
Isto para mim foi muito importante quando comecei a escrever, porque eu sei que, por um lado, enquanto escritor e enquanto leitor, eu gosto de ser levado para o desconhecido. Por outro, eu gosto de estar num terreno que me é familiar. Como é que tu fazes as duas coisas ao mesmo tempo? Esse é o segredo. Como é que eu entro nesse território e, ao mesmo tempo, mantenho uma familiaridade com aquilo que estou a fazer e com aquilo que estou a transmitir?
Eu acho que a Natasha partilha essa característica, e as personagens que para mim são interessantes têm essas características: vão para o desconhecido e, ao mesmo tempo, aquilo é familiar. Ela e o George, por exemplo, identificam-se muito. E ela percebe que o George é alguém que precisa dela e ela precisa dele. Às vezes, isso não acontece pela afinidade, que comumente se chama empatia, mas empatia no sentido grego, que é o sentido que eu vejo nas palavras, é a possibilidade de uma pessoa estar perante as coisas que lhe causam aversão sem querer fugir e sem querer escapar…
É fácil nós sermos empáticos com pessoas de quem gostamos. Mas tenta fazer o exercício perante uma coisa que te causa aversão, já é mais difícil. E o romance ou a narrativa, desde sempre, foi sobre aquilo que causa aversão. Desde o Dom Quixote. Há pouca gente que lê o Dom Quixote, eu confesso que só li por questões profissionais. Mas, quando li, percebi porque é que aquele homem é tão falado, e porque é que desde 1600 que se fala do Dom Quixote. É um livro sobre um homem que está a enlouquecer e, passo a passo, nós vamos assistindo progressivamente à sua loucura, aos disparates enormes que ele faz, que causam uma enorme aversão….
Na transição da primeira para a segunda parte, o Cervantes faz a primeira habilidade literária conhecida, ele diz: “Olhem, não fui eu que escrevi este livro.” Esqueçam, isto foi escrito por um tipo, eu não tenho nada a ver com isto. Eu acho que isso é tão interessante do ponto de vista literário, sabes? Um autor que diz: “ok, mas não sou eu que estou aqui.” Esta voz que vocês estão a ouvir não é a minha. Já está a enganar-me, está a manipular. Claro que os livros têm todos essa característica de manipulação. Se vocês querem conhecer um bom manipulador, conheçam um escritor, são as pessoas mais manipuladoras que existem, porque fazem isto todos os dias, e sabem exatamente como é que se chega a certo sítio, por portas e travessas…

A propósito desta conversa, eu queria perguntar-te se achas que todos os grandes livros têm a mesma fórmula. Há uma fórmula?
Não, não acho nada. Acho que não há fórmulas. O que eu acho que há é um beabá e acho que esse beabá é importante para um escritor aprender. E como é que se aprende? Aprende-se lendo de uma perspetiva que seja menos de prazer e mais de trabalho, encaras a leitura também como uma profissão. Isso vai-te retirando algum do prazer da leitura, mas vai-te dando instrumentos para que tu percebas como é que isto é feito…
E é importante saber uma fórmula, mas a fórmula é interessante porque eu não acho que exista nenhuma fórmula. Acho que os grandes escritores, que não é o meu caso, quebram regras e fazem tudo ao contrário, mas eles conhecem profundamente as regras. Acho que isso é muito importante porque os grandes escritores são incapazes de lançar uma ideia sem a explicarem, acho que isso é tão importante na escrita, como é na música, como é no bailado, como é nas artes visuais, etc. Se eu lanço uma ideia, é quase uma questão de consideração humana eu explicar essa ideia. Muitas vezes a escrita perde-se no exercício de tentar ser o mais inteligente possível ou o mais obscura possível, e é aí que se percebe que aquela pessoa não tem escola.
Já se passaram muitos anos desde que comecei a escrever e desde que comecei a publicar e agora consigo fazer uma coisa que não conseguia: chegar à página em branco e pura e simplesmente estar, e já não estou a pensar nem na técnica, nem na harmonia, nem no ritmo. Já não estou. Eu já faço isso, já estive lá tantas vezes, que é intuitivo. Isso é um bom sítio para se estar enquanto escritor. Não significa que o desafio não seja enorme e que a melodia às vezes não… Começa bem e depois… E desata-se, não é? E isso acontece, continua a acontecer… Mas eu acho que essa escola dispensa a fórmula. Se tu tiveres uma boa escola, que pode ser a tua própria escola, podes ser uma pessoa que só lê policiais, mas se a tua escola de policiais for boa, tu vais, tendencialmente, fazer aquilo bem. Se não tiveres escola, a coisa não vai correr bem, porque ninguém nasce ensinado.
Já escreveste o livro há algum tempo. Como foi o processo de escrita? Já te conseguiste deixar levar?
Eu diria que esse processo de simplesmente estar começou com “A Mulher que Correu Atrás do Vento”. Foi mais ou menos nessa altura que eu senti que já estava muito mais à vontade, que já não estava amarrado a nada, que estava… Enfim, continua a ser difícil, continua a ser um processo chato e secante às vezes, mas a verdade é que eu já não me questiono muito. Ou seja, já não me questiono muito em termos de técnica de escrita.
Este livro, escrevi-o em 2019, porque já tinha essa ideia guardada desde 2015 e ela não se ia embora, eu continuava lá com aquele artigo guardado. Em 2019, pensei: “ok, vou começar a escrever”, até porque vi na televisão uma senhora astróloga que dizia que 2020 ia ser um ano fantástico e pensei: “pá, que bom, vou começar a escrever e 2020 vai correr-me bem”. E depois correu bem, como toda a gente viu…
Eu às vezes vejo televisão à noite, é um mau hábito. No outro dia tive um sonho estranhíssimo, vou só confessar porque é tão estranho que eu tenho que tirar de mim para ver se não volto a sonhar com isto: sonhei com aquele senhor que na CMTV faz um programa chamado “Noite das Estrelas”, com a Maya do lado esquerdo e um senhor do lado direito, e eu sonhei que tinha sido raptado pela Maya e pelo senhor, que eles me metiam dentro da mala do carro. Eu não sei porque sonhei isto, mas sei que acordei aterrorizado. Se algum de vocês quiser escrever, vejam a CMTV à noite, é muito bom. É muito bom porque as ideias são livros de terror, policiais, está lá tudo.
2020 foi um ano incrível. Eu quando estava na página cem do livro, já estava com uma máscara na cara, e acabei de escrever em maio de 2020 uma primeira versão, mas
ficou na gaveta durante três anos, e eu não conseguia pegar nele porque era um livro difícil de reescrever. Era muito grande e eu queria cortá-lo. Tinha para aí 600 páginas numa primeira versão, e tinha muita palha, muita coisa que não interessava nada, e eu queria cortá-lo, reduzi-lo, torná-lo o mais conciso possível. Não foi um livro consensual para mim. Não foi um daqueles livros que eu tivesse escrito e tivesse achado que estava pronto. Não, foi muito difícil chegar a uma versão final.
Começas a escrever em 2019 e vem a pandemia. E o George não sai de casa há sete, oito anos.
Sim, e eu também já não saía!
É engraçado isso, não é? Que tenha coincidido…
Sim, quer dizer, não é engraçado porque não teve graça nenhuma mesmo. Mas foi… foi quase estranho. A vantagem é que, quando a pandemia aconteceu, eu já estava num processo muito largo de escrita e quase nem associei as duas coisas. Nós nem sabíamos bem o que estava a acontecer. Quando acabei o livro em maio, já estávamos em confinamento e eu não sabia o que é que ia acontecer a seguir. Em janeiro do ano seguinte tivemos o novo confinamento, e aí foi a segunda vez na vida em que eu tive uma paragem criativa. De facto, parei um ano inteiro. Não conseguia escrever, estava completamente desamparado.
Sim, precisavas que alguém te lesse a lista telefónica...
Precisava que me lessem a lista telefónica!

Ana da Cunha
Nasceu no Porto, há 28 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.
✉ ana.cunha@amensagem.pt

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