António Pedro esteve na Web Summit, em novembro, onde o encontrámos, como um dos fundadores da WindCredible – uma empresa que quer colocar turbinas eólicas acessíveis em todas as casas. “É energia gratuita”, resume.
Antes de se aventurar com a empresa WindCredible, António nasceu na Cova da Moura e foi polícia durante 20 anos. “Eu era mais um diplomata do que um executor”, diz. “As pessoas pensam que os polícias só passam multas de estacionamento, mas ajudamos muita gente. Isso é o principal daquilo que fazíamos.”
Agora, está rodeado de turbinas eólicas de todos os tamanhos e formas. Parecem grandes liquidificadores de alimentos. António e sua equipa do WindCredible têm sede na freguesia das Águas Livres (na Damaia), junto do lugar que o viu crescer, este bairro. “Deram um novo nome à freguesia há 4 anos. Era necessário para desmistificar. Está a florescer agora.”
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O grupo da WindCredible vivia um dia empolgante, quando o encontrámos: acabavam de garantir investimento da Portugal Ventures, entre outros. Levantar investimento é, para qualquer startup, um marco significativo. E, por isso, há um burburinho no ar enquanto nos convidam para celebrar com eles, levando-nos para almoçar no lugar favorito da equipa: a Casa Nova. “Sempre almoçamos aqui. A comida é sempre incrível.”
António conta que cresceu naquela zona, apontando para uma escola próxima que frequentou. “Vamos lá, deixem-me mostrar mais.” De repente, estamos no carro dele, navegando por estradas sinuosas, num ambiente cada vez mais colorido. Vemos muita arte urbana – um sonho para qualquer documentarista ou fotógrafo, como nós. Há uma vitalidade na decadência física de um espaço – algo que nos escapou, mesmo estando em Portugal há vários anos (e mesmo trabalhando com a Mensagem que já fez várias reportagens sobre este lugar).
É aqui a Cova da Moura, como informa António a sair do carro. “Estamos na área mais gentrificada de Lisboa.” Ri-se quando percebe o erro. Correção: “A área menos gentrificada de Lisboa.”

António mostra a rua onde nasceu e foi criado, e leva-nos para conhecer a sua mãe. Ela está a ver TV e de bom humor, apesar de ter sofrido um derrame debilitante há 20 anos, aos 45. Está entusiasmada e quer mostrar fotos de família nas paredes.
“Sou o mais novo de quatro”, diz António. “Os meus pais vieram para Portugal em 1975, vindos de Cabo Verde. O meu pai era carteiro e a minha mãe era empregada das limpezas.”
Somos esses repórteres ingénuos que assimilam a narrativa geral lentamente. A ideia é que a Cova da Moura era uma área especialmente difícil para se crescer. Provavelmente ainda é. Construída principalmente por angolanos, cabo-verdianos, moçambicanos e de várias outras colónias portuguesas, pela determinação dos que tinham pouco. Casas construídas à mão, por aqueles que passaram a viver nelas.


“Não… Foi divertido crescer aqui, foi culturalmente muito rico”, diz António. “Aprendemos cedo a lutar e a valorizar as pequenas coisas da vida. Jogávamos futebol na rua, jogávamos ao berlinde, às escondidas, tínhamos lutas de brinquedo com armas e espadas. Deixávamos a nossa imaginação correr solta.”
Qual era o principal problema na zona? “As drogas”, diz-nos sem rodeios. “As drogas destroem a sociedade. A coisa engraçada é que, um dia, eu estava a contar aos meus pais tudo sobre drogas. Eles perguntavam como é que eu sabia tanto. Eu disse: nasci e fui criado aqui, e agora sou polícia. Tenho que saber!”
Perguntámos, então, como ter vindo daqui impactou a carreira dele enquanto polícia. “Sim, mas não da maneira em que estás a pensar. Todos os meus amigos estavam muito orgulhosos de mim. Não havia ódio como se vê nos media.”

Leva-nos a um café. Vemos uma imagem a preto e branco de Eusébio na parede. António parece conhecer literalmente todos, nas ruas, no bar. Cumprimenta todas as senhoras idosas que encontra e conhece a senhora na cozinha. “São todas minhas tias”, diz docemente. Quando era miúdo havia algumas desvantagens em ter tantas tias: “Se eu saísse da linha, a minha mãe sabia o que eu fazia e dizia ‘contou-me um passarinho’. Malditos passarinhos, diria eu.”
António diz piadas e sorri regularmente. Conta que uma vez fez stand-up comedy. “Eu ia de bar em bar em Lisboa, até perceber que precisava arranjar um emprego real para sustentar a família. É algo que as pessoas não sabem sobre mim.”
Seguimo-lo por aquilo que ele descreve como a viela mais estreita da cidade. “É apenas um beco”, continua a dizer. “É apenas uma viela. Nada estranho a acontecer. É apenas uma viela.”
Encontra alguns amigos antigos. Fala-lhes sobre a sua nova empresa, que tem apenas um ano. “Todos querem um emprego. Mas, falando a sério, é ótimo contar-lhes o que estou a fazer agora e ter o apoio deles.”



Ao virar a esquina, estão cerca de 4 ou 5 carros de patrulha.
Seja lá o que estavam a investigar, já terminou, e os polícias estão com pressa para voltar para os carros. O que os terá trazido aqui? Todos são brancos. “Quando eu era polícia era um ótimo mediador, porque sou negro, claro. Precisamos ter pessoas com quem as pessoas se identifiquem.”
António tem um certo ar de político quando anda pelas ruas, apertando as mãos das pessoas. Já pensou nisso?, perguntamos. “Sim, pensei nisso, mas depois fui ao cinema”, diz com seriedade. Rimos. “Há muito mais na vida além da política. A política é o estreitamento da capacidade de alguém.”


Perguntamos-lhe porque deixou a polícia. “Eu queria ver do que serei eu mais capaz. O Filipe, o meu cofundador, era o meu comandante na polícia. Disse que o mundo estava a mudar e tínhamos que fazer algo. Tínhamos acesso a todos esses ferros-velhos, e foi assim que construímos o nosso primeiro aerogerador. Tínhamos o espaço e as ferramentas para fazer isso. Então, é o que estamos a fazer.”
Depois de admirar algumas das obras de arte de rua com heróis populares, entramos no carro e voltamos para a sede da WindCredibles para ver mais turbinas giratórias. “Portugal foi um dos primeiros países a espalhar-se pelo mundo. Vamos seguir esse exemplo e mostrar ao mundo a nossa nova tecnologia. O impossível não foi feito… ainda.”
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Onde posso ver que modelos tem e potências
PARABÉNS ao António e a vocês!!!
Para quem fez os pedidos de orçamento: podem consultar o site da empresa em Windcredible.com