Emilio Moret, “el guapo del son”, o cubano que toda a vida fez música, sempre ligado aos agrupamentos de sonero cubano, escolheu Lisboa para viver depois dos 70 anos e aqui gravar seu primeiro disco a solo.
Uma obra que representa um marco por estas geografias, ao cruzar duas tradições: o fado e a morna. Ele, um homem nascido em Encrucijada, Cuba, em 1948, agora rendido à Mouraria.
No tema que deu título ao álbum, “Por la felicidad”, o artista cruzou sonoridades cubanas com a “morabeza” de Cabo Verde na voz de Lucibella e o fado na voz aveludada de Fábia Rebordão. Foi mesmo na Mouraria, num dos corações do fado, ao lado do monumento que homenageia esta tradição tão portuguesa, e em frente a casa Museu de Fernando Maurício, onde o encontrámos para conversar, num dia ensolarado de setembro.
Acompanhado do seu “trés”, a guitarra cubana, Emílio tocou, cantou e a atmosfera mudou.
Como é que a música entrou na tua vida?
Desde pequeno, na minha povoação Encrucijada, reuníamo-nos e tocávamos com o que tínhamos à mão… latas, caixas, assim nos divertíamos. E aí mesmo formamos uma compassa , agrupação de baile. Quando fui para Havana, aos 10 anos, na escola, sempre a música esteve presente. Fui viver com a minha mãe para S. Miguel del Padron onde havia uma convivência muito forte em atividades nos clubes, teatros, sociedades, tocavam grupos aficionados como Los Invasores, los Melódicos, Conjunto Havana, El Grupo de Eduardo el Policia, e outros. E aí comecei a cantar com esses mesmos grupos
Qual era o teu maior sonho como músico quando descobriste o teu dom para cantar?
Sempre gostei de cantar, compor, tocar. Depois de ter escutado Benny More «, Abelardo Barroso, Miguelito Cuni, Fernando Alvares e outros que me impressionaram, muito pela sua forma de interpretar a música cubana, “la cubania”, aumentaram em mim o desejo de poder cantar em grupos profissionais. Ou vir a fazer emocionar outros como eles me emocionaram a mim.

Então, e qual é o teu maior sonho como músico hoje?
Continuar a respirar música a compor, e poder partilhar a alegria e a emoção da minha música com todos. Levar a felicidade aos lugares possíveis no mundo.
Gravaste na PMRecord , estúdio do Pablo Milanês. Que valor tem isso para ti uma vez, já que o mesmo já não se encontra aqui?
Foi com Arturo Cruz, de acordo com a editora Lusafrica, que foi escolhido gravar na PMRecord. Pablo Milanêz não se encontrava em Cuba, só a sua equipa e a sua filha. Mas, claro, foi uma honra ter gravado naquele ambiente fantástico.
A música cubana é muito respeitada e largamente apreciada em todo o mundo. Como vês tudo isso e qual é o teu papel desde o passado até aqui na música do teu povo?
Desde que comecei na música estive em grupos característicos da essência da música cubana, particularmente ”el son” [“son cubano”, um género de música e dança cubano]. Quanto às minhas composições, trato-as com a originalidade que me surge, uma identidade que não se distancie das minhas raízes.
Como compositor, o que ainda queres fazer?
Quero que as minhas criações possam agradar a todos que as escutem e deixem mensagens que sirvam para dar alegria e alento em qualquer momento.
Como vês o futuro da música tradicional cubana?
É uma preocupação ver que a nossa música tradicional se escuta pouco nas rádios e televisão em Cuba. As nossas raízes só perduram se forem dadas a conhecer às novas gerações. Lamento que se note em muitos grupos de artistas um afastamento das nossas raízes.

Viveste a vida inteira em Cuba. Já pensavas em sair para explorar outros mundos?
Sempre vivi em Cuba, mas a música levou-me a vários sítios do mundo em tourné, com os grupos por onde passei.
Tens um disco novo gravado em Lisboa, inclusive, e editado pela conceituada Lusafrica. Como te sentes?
A Lusafrica já tinha editado temas meus em dois dos discos do Septeto Habanero, no final dos anos 90 e início de 2000. Ter este disco em nome próprio para esta editora é, para mim, um enorme orgulho, admiro muito o seu trabalho. Durante um largo período trabalharam música cubana com excelentes resultados de divulgação para fora de Cuba. É com muita honra que vejo “Por la Felicidad” nas mãos da Lusafrica. Sinto-me muito grato.
O que esperas do teu disco?
Espero que as mensagens contidas nos vários temas cheguem ao mundo através da música. Quando existe amor no que fazes, a felicidade, a alegria e a esperança de um mundo melhor são possíveis, não só em sonhos. “Por La Felicidad” se luta todos os dias e aqui deixo alguns dos ingredientes.
Este é teu primeiro disco a solo? Por que razão agora?
Sempre estive a trabalhar em grupos , desde a Orquesta Cuba, passando por tantos outros grandes grupos de música tradicional cubana, ao longo dos anos. Acabei por ficar 22 anos no Septeto Habanero. Agora, já reformado, foi a vida e as suas leis que trouxeram o momento de registar em disco próprio algumas das minhas composições. O disco é a minha expressão e interpretação da música cubana.
Porquê “Por La Felicidad”?
A palavra felicidade, em si, já encerra o anseio de a ter. Ao longo do disco, ela surge em vários temas que criei no decorrer dos anos: “Sonei com el cielo” é bem antigo e, contudo, atual, porque a felicidade é intemporal. No tema que dá nome ao disco, eu tive a felicidade de me cruzar com pessoas e ritmos que me trouxeram sensações e inspiração de plena felicidade. “Felicidad” é também ver realizado o sonho de editar este disco a solo.
Cantou com Fábia Rebordão e Lucibella. Como foi cantar com duas jovens que fazem música tradicional dos seus países, em Lisboa?
Sempre me encantou a forma de cantar de Cesária Évora e, em finais 2021, no ambiente de homenagem a ela em Lisboa, visitei o Bairro Alto, e daí nasceu a inspiração dessa junção, dois géneros muito parecidos no sentimento que transmitem [fado e morna]. Foi um grande prazer e mais um motivo de felicidade ter estas duas maravilhosas cantoras e tão representativas de cada estilo, no tema “Por la Felicidad”.
O que achas do fado? Foi o fado que te inspirou a fazer essa fusão?
Despertou-me à atenção pelo seu género sentimental, a presença da guitarra portuguesa, tal como na morna há um sentimento entre as cordas do cavaquinho.
E a morna?
A morna eu vejo como a expressão de um povo. Já conhecia pela voz de Cesária Évora e que tive o prazer de conhecer em Mindelo e de respirar essa essência. Encanta-me o seu sentimento, as interpretações de tanta entrega como se vê em Cesaria e em Lucibela.
Lisboa tem isso tudo. Mas foi só um acaso?
Vim com o convite de integrar a Homenagem a Cesária Évora em 2021. Mais tarde, com a gravação do disco, tenho-me deslocado entre Havana e Lisboa mediante os compromissos em ambos os países. Sinto-me muito bem aqui. A convivência com amigos que aqui revi, os lugares onde há mais de 20 anos atuei, os músicos cubanos que aqui acabei por conhecer, e que fazem parte do meu espectáculo, como Victor Zamora, da mesma provincia que eu, todo o ambiente que me é proporcionado é uma alegria, uma benção pela qual me sinto muito grato.

Fizeste uma digressão europeia que passou por França, Bélgica e Polónia…
Sinto-me muito contente por isso, claro. Em França foi a promoção do disco, na Bélgica realizei cinco concertos no início de Julho no Zomer Van Antwerpen, e em várias cidades: Krugerplein, Zillebekelaan, Bist, Stuivenbergplein, Elegastplein. Na Polónia, a 17 de setembro, cantei para o encerramento do Cross Culture. Agora, sigo para a minha Cuba para rever os familiares e, claro, voltar para este país onde escolhi viver.
Como vês o panorama musical português e da lusofonia? Que conselhos darias aos jovens artistas da lusofonia?
Conheço alguns trabalhos e pessoalmente alguns artistas lusófonos, todos com imensa qualidade: Bonga, Lura, Elida Almeida, Lucibela, Ceuzany, Vitorino, Fábia Rebordão, Nancy Vieira, Karyna Gomes, Camané, Luís Represas, Jorge Fernando. Alguns músicos portugueses, de Cabo Verde, Angola, Guiné… excelentes, que tive o prazer de escutar também. E, aos que vão surgindo, têm com certeza o caminho assegurado, pois existem muitas escolas onde podem solidificar as suas carreiras.

Karyna Gomes
É a jornalista responsável pelo projeto de jornalismo crioulo na Mensagem, no âmbito do projeto Newspectrum – em parceria com o site Lisboa Criola de Dino D’Santiago. Além de jornalista é cantora, guineense de mãe cabo-verdiana, e escolheu Lisboa para viver desde 2011. Estudou jornalismo no Brasil, e trabalhou na RTP, rádios locais na Guiné-Bissau, foi correspondente de do Jornal “A Semana” de Cabo verde e Associated Press, e trabalhou no mundo das ONG na Unicef e SNV.

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