“Silêncio que se vai cantar o fado”. Para Cláudia Dias e Carlos Gonçalves, a expressão não é uma questão. São surdos, estão mais do que habituados ao silêncio. Mas isso não os impede de desfrutarem e participarem deste momento musical: estamos no Museu do Fado, em Alfama, num chuvoso mês de outubro, num dia em que será registado para a eternidade um fado em língua gestual portuguesa.

Trata-se de uma produção do museu lisboeta em parceria com o coro Mãos que Cantam, composto por pessoas surdas e dirigido pelo maestro Sérgio Peixoto, numa iniciativa facilitada pela empresa Access Lab, que tem vindo a contribuir para as acessibilidades no setor cultural.

Chama-se “Gesto do Fado” e é apresentado oficialmente no Museu do Fado no dia 12 de dezembro.

O coro com o fadista Ricardo Ribeiro. Foto: Facebook Mãos Que Cantam

Como os surdos sentem o fado

Cláudia Dias e Carlos Gonçalves nunca ouviram. Não conhecem a voz de Amália Rodrigues ou de Carlos do Carmo, os seus ouvidos nunca foram apresentados aos agudos únicos da guitarra portuguesa. Mas conhecem o sentimento do fado, têm plena consciência da sua importância na cultura portuguesa, e chegam até ele através do texto.

No Museu do Fado, não estão apenas a traduzir os versos poéticos para língua gestual portuguesa. Estão a utilizar a língua de forma artística, empregando expressividade nos seus gestos físicos, tal e qual como as pessoas ouvintes mudam a entoação quando passam da fala para o canto.

Carlos Gonçalves e Cláudia Dias, do coro. Foto: Ana Ladislau

Esta é a primeira de três sessões do projeto Gesto do Fado. O coro Mãos que Cantam está a interpretar “Porta do Coração” com o seu autor, o fadista Ricardo Ribeiro, acompanhados por dois guitarristas. O momento fica registado em vídeo e áudio para se tornar parte do arquivo do Museu do Fado, e a ideia é que seja disponibilizado online em breve.

“Com Que Voz”, de Amália Rodrigues; e “Conto de Fadas”, de Aldina Duarte, são os outros fados que serão gravados e interpretados em língua gestual portuguesa no âmbito deste projeto.

O plano é que o arquivo possa continuar a crescer.

“Obviamente que temos alguns nervos quando estamos aqui perante toda a gente e as câmaras, mas passa rápido”, conta-nos Cláudia Dias depois da gravação. “Vemos toda a dinâmica à nossa volta, os guitarristas, há todo um movimento em que temos de nos concentrar. Para nós isto não é silêncio, há movimento à nossa volta”, acrescenta Carlos Gonçalves.

E, graças à proximidade dos músicos, conseguem sentir a vibração das guitarras através do chão de madeira.

O processo começou quando receberam o poema. Leram-no e estudaram-no, em conjunto com o maestro Sérgio Peixoto, e a partir daí desenvolveram a sua prática artística — que agora fica documentada.

“O fado tem muito a ver com a perspetiva de cada um, vamos sempre procurar os significados, poderá haver alguma palavra que não conheçamos, por exemplo, porque, como sabemos, o português escrito é totalmente diferente da língua gestual portuguesa. Por isso, entre nós, vamos partilhando e descobrindo qual é o sentido mais próximo, mais certo, entre aquele gesto e aquela palavra. É o que acontece com as pessoas ouvintes quando cantam, porque o falar e o cantar são completamente diferentes, há toda uma entoação distinta”, afirma Cláudia Dias.

O fadista Ricardo Ribeiro tem ajudado neste projeto. Foto: Ana Ladislau

Para Ricardo Ribeiro, foi com “um entusiasmo imenso” que fez esta gravação.

O fadista tem uma pessoa surda no seu núcleo próximo, a filha da madrinha do seu filho, o que o deixou mais sensível para esta realidade.

“Causa-me muita emoção saber que eles poderão desfrutar da poesia cantada tal como nós. Fiquei completamente arrepiado quando os vi ensaiar, até ficamos com uma visão diferente da música.”

O coro que traz música a quem não ouve

Cláudia Dias e Carlos Gonçalves são ambos professores de língua gestual portuguesa — ele há mais de 30 anos; ela, que foi aluna dele, já celebrou o 25.º aniversário como docente. Estudavam na Universidade Católica quando se formou o coro Mãos que Cantam, em 2010. Sérgio Peixoto já dirigia o coro da instituição e recebeu a sugestão de integrar estes alunos nas atividades.

“Não tinha amigos surdos, não tinha família surda, não tinha qualquer conhecimento sobre a comunidade nem nenhuma ligação. Mas foi um desafio que aceitei. Na altura, eles também acharam interessante a ideia e foi assim que nasceu”, explica o maestro.

Foi, para todos, uma experiência iniciada “do zero”.

Não havia, na Europa, outros coros de pessoas surdas, que usassem as suas línguas gestuais nacionais como forma de expressão artística. O único exemplo que conheciam era no Brasil. Para Sérgio Peixoto, o desafio foi pensar como fazer música com pessoas que não ouvem.

“Toda a gente tem a ideia de que eles sentem a vibração, mas a vibração não transporta emoção, não transporta arte. E como todos são professores de língua gestual portuguesa, a ideia surgiu através do desenvolvimento artístico da língua, à procura de algo que não havia.”

O maestro Sérgio Peixoto. Foto: Ana Ladislau

Tem sido um processo de descoberta contínua, que criou uma prática que se tem desdobrado por diversas iniciativas ao longo dos anos. Neste caso, a ideia é “encontrar o sentimento do fado com o gesto”.

Para Cláudia Dias e Carlos Gonçalves, o mais importante é que possam mostrar ao mundo — e às outras pessoas surdas — que também podem cantar ou ter uma participação musical, mesmo que se expressem de uma forma diferente, usando as mãos em vez das cordas vocais.

“É importante mostrar às crianças e aos jovens surdos que estamos aqui e que somos também um modelo para eles, porque às vezes pensam que a música é só para pessoas ouvintes e não é nada disso, a música dá para todos”, diz Carlos Gonçalves.

Cláudia Dias aponta a falta de “sensibilização”, sobretudo na educação, pois estes modelos e práticas não estão disseminados como deveriam, e que também faz falta chegar aos pais dos miúdos surdos, muitos dos quais são ouvintes e se encontram menos informados.

“Como é que se transmite este sentimento que todos nós ouvintes conhecemos em língua gestual portuguesa? Esta sensação da saudade, da paixão, do amor. É muito mais do que o texto, é a expressividade. É a procura do gesto estético, da arte do gesto, e tentar aliar isso à expressividade do cantor e à dinâmica musical”, resume Sérgio Peixoto. “Mesmo nós, ouvintes, não temos uma gaveta emocional onde colocar isto, é uma novidade. Muitas vezes as pessoas pensam: o que estou a ver? O que estou eu a sentir? E isso é muito bom, é sensibilizar e descobrir uma nova maneira de estar na arte.”

Há progresso, mas falta uma maior consciencialização

Todos sentem que tem havido um progresso em relação ao acesso à cultura das pessoas surdas. Não só na música, salientam, mas também no teatro ou nos museus.

Neste momento, uma criança surda que queira ter uma experiência musical pode embarcar num projeto da Orquestra Metropolitana onde há aulas de música para surdos — seja de percussão ou do desenvolvimento musical da língua gestual portuguesa.

Porém, Cláudia Dias e Carlos Gonçalves sublinham que ainda há um longo caminho a percorrer para que haja uma maior consciencialização em torno das suas necessidades e características.

No dia a dia, dizem, ainda se deparam com diversas dificuldades. Ambos dão o exemplo do aeroporto, onde, cada vez que abordam algum profissional para fazerem algum pedido, os funcionários vão buscar uma cadeira de rodas. “Ou seja, as pessoas veem que eu sou surda, olham para mim e vão buscar uma cadeira de rodas. Isso não faz sentido nenhum. Não significa ser sensível ou estar consciente”, lamenta Cláudia Dias. “Rotulam-se as pessoas com deficiência com uma cadeira de rodas… E isso não é acessibilidade. Tem que ser equitativa, diferente consoante a pessoa”, acrescenta Carlos Gonçalves.

Foto: Ana Ladislau

Quando engravidou, Cláudia Dias também teve que lidar com uma médica que não a queria atender sozinha por pensar que a comunicação seria impossível. “Queria que eu tivesse um acompanhante nas consultas. E eu disse: ‘estou grávida, sou surda, mas podemos escrever e falar. Não estou doente, não me sinto uma pessoa com deficiência, pretendo ter esta consult.” Só depois de muita insistência, e de a médica deitar “as mãos à cabeça” por perceber que o pai também era surdo, é que fez o esforço para dialogar com Cláudia.

“Sou um ser humano, quero que me tratem naquilo que preciso. Isto irrita. Acabou por correr tudo bem, mas quantas vezes isto não acontece?”. Para a professora, as pessoas ouvintes têm ainda muita dificuldade em lidar com surdos, até por terem “vergonha ou medo de fazer mímica”. 

Por uma cultura cada vez mais acessível

No caso do fado, a Access Lab, empresa de Tiago Fortuna e Jwana Godinho que promoveu esta iniciativa, começou por ter intérpretes de língua gestual portuguesa no festival Santa Casa Alfama ou no ciclo Há Fado no Cais, que acontece no CCB em parceria com o Museu do Fado.

É uma componente essencial por permitir o acesso de pessoas surdas aos concertos, mas é uma experiência que se fica por ali. Com o Gesto do Fado, pensaram na importância de preservar um legado, de construir um arquivo em língua gestual portuguesa que possa ter longevidade.

Jwana Godinho, da Access Lab. Foto: Ana Ladislau

“Estamos a falar de dois patrimónios, já que o fado nos representa tanto e isto é uma língua portuguesa. Era um casamento bastante simbólico”, diz Jwana Godinho. “É perceber que o museu deve ser para todos, mesmo para aqueles que, nós, como ouvintes, achamos que não consomem música, e que é todo um conceito que já percebemos que está muito longe de ser real.” 

Em parceria com as promotoras e as salas de espetáculo, a Access Lab tem insistido para que haja cada vez mais concertos com intérpretes de língua gestual portuguesa, para que se criem hábitos culturais junto das pessoas surdas.

Também já começaram a testar o uso de coletes sensoriais, que transmitem uma vibração enaltecida para aqueles que não ouvem, e estão a acompanhar outras possíveis tecnologias, como os implantes cocleares ou os anéis magnéticos.

Jwana Godinho argumenta que o setor cultural “não deixou de estar aberto” às acessibilidades, só que “não sabia como fazer” e existe um “medo de fazer mal” e alguma “falta de informação”.

Cláudia Dias frisa que seria importante que outras iniciativas semelhantes pudessem acontecer com outros géneros de música portuguesa. Ainda que seja sempre necessário um investimento financeiro e de tempo, Jwana Godinho salienta que também gostariam de explorar o rap, a música de intervenção e tudo aquilo em que a palavra é preponderante. “Sonhos não nos faltam.”


Ricardo Farinha

Nasceu em Lisboa e sempre viveu nos arredores da capital, periferias que lhe interessam particularmente. Conta histórias em modo freelance, sobretudo ligadas à área da cultura. More by Ricardo Farinha


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