Quando era pequena, Ana Isabel Veiga fazia natação na piscina dos Olivais, um espaço que então lhe parecia imenso. “Nós quando somos mais pequeninos temos uma noção completamente diferente das dimensões. Aquilo era tudo muito grande.”
E, de facto, era. A piscina dos Olivais, uma piscina que recorda com os seus “relvados enormes e as famílias que lá se reuniam para fazer piqueniques”. Um espaço que não se repetiu em Lisboa.

Talvez por isso, Ana Isabel se tenha interessado especialmente pela piscina, quando ela e o colega Luís Maçarico apresentaram um conjunto de propostas de estudo de equipamentos municipais desportivos.
Ana Isabel e Luís são antropólogos de formação e integravam o Departamento da Atividade Física e do Desporto da Câmara Municipal de Lisboa (entretanto, Luís reformou-se).
Também o executivo se interessou pela ideia de um trabalho sobre esta piscina, que encerrara em 2005, e por isso planeou-se o lançamento de um livro para celebrar os 40 anos do espaço. Porém, devido a “vicissitudes”, como Ana Isabel e Luís lhe chamam, “História da Piscina dos Olivais” só foi lançado a 5 de outubro deste ano, no 56º aniversário do equipamento que em 2015 passava a fazer parte do centro “Go Fit Olivais”.
É o resultado de um longo trabalho de pesquisa e de investigação, que passou pela recolha de memórias junto dos atletas que nadaram nesta piscina, mas também junto dos lisboetas, sobretudo daqueles que cresceram e viveram nos Olivais, a freguesia onde, durante anos, ficava a “praia de Lisboa”.

Uma piscina numa “cidade-jardim”
A 25 de julho de 1967, inaugurava-se na freguesia dos Olivais um novo equipamento: uma piscina projetada pelos arquitetos Aníbal Barros da Fonseca e Eduardo Paiva Lopes, também conhecidos por obras como o Hotel Lutécia, o Cinema Vox e o Teatro Maria Matos.
Se as primeiras piscinas surgiram em Portugal depois do atleta e dirigente do Sport Algés e Dafundo, Bessone Basto, ter visitado a Piscina Municipal de Paris, inspiração que impulsionou o nascimento do Estádio Náutico de Algés, a história dos Olivais é outra.

Afinal, falamos de um território que foi durante décadas uma zona de quintas, como aliás aponta a toponímia, diz Luís Maçarico.
“Há uma fotografia do Arquivo Fotográfico Municipal em que se vê uma paisagem de oliveiras. Oliveiras, muitas oliveiras. É uma coisa absolutamente maravilhosa.”
Luís Maçarico
Mas os Olivais ver-se-iam transformados segundo um novo conceito de arquitetura.
Em meados da década de 1950 iniciava-se a Urbanização dos Olivais, dividida em duas partes – Olivais Norte e Olivais Sul -, seguindo os princípios da Carta de Atenas e do arquiteto suíço Le Corbusier. “É um conceito da arquitetura moderna que previa o espaço de trabalho, o espaço de habitação e a proximidade aos equipamentos”, explica Ana Isabel.
A piscina surge ligada a esta filosofia arquitetónica, assegura a investigadora. “A piscina prevê o lazer, e era diferenciadora pelo espaço verde, pelo local…”.
O complexo incluía uma piscina de competições e recreio com medidas olímpicas (50 metros de comprimento!), uma piscina de saltos, uma piscina infantil, um solário, salas de ginástica e de judo, sauna e dois campos polivalentes. Todo o espaço era ainda complementado pelos painéis de Vítor Belém e uma escultura de Manuela Madureira, o “Jogo entre Sereias e Peixes”.

Os grandes atletas da Piscina dos Olivais
Três dias depois da inauguração da Piscina Municipal dos Olivais, ali se disputou o “Torneio das Seis Nações.”
E, ao longo dos anos, passaram pela piscina algumas das mais conhecidas figuras do mundo da natação: Mário Simas (que aliás terá aconselhado os arquitetos em relação à projeção da piscina), Dulce Gouveia, Víctor Cerqueira, Liliana Santos, Nuno Laurentino…
Todos eles guardam muitas memórias deste lugar.

Dulce Gouveia, que viria a ser distinguida com o Prémio de Imprensa de 1967 na categoria de Melhor Atleta do Ano, marcou presença no Torneio das Seis Nações, e nos Jogos Luso-brasileiros que aconteceram também nesta piscina. A nadadora moçambicana recorda como o público “enchia as bancadas”.
E conta: “A partir de 1967, os campeonatos nacionais eram no verão, em piscinas de 50 metros. Vínhamos fazer habituação nos Olivais, treinávamos lá.”
Víctor Cerqueira, que se apelida um “euro-africano com muita honra”, lembra-se bem dos Jogos Luso-Brasileiros em que participou em 1969: “Ficámos lá quase um mês, foi uma viagem memorável. Veio de lá tudo apaixonado, a choramingar no avião.”
E continua ainda: “[A Piscina dos Olivais] passou a ser a nossa piscina de treinos, era a única de cinquenta metros. Fazíamos treino e competição e acabávamos por fluir por ali depois das provas. Quando passo pelos Olivais penso: há aqui qualquer coisa de meu, do meu suor, da minha participação!”.

As picardias entre a rapaziada dos Olivais Norte e Sul
Mas as memórias são tanto dos grandes atletas como dos miúdos que por ali aprenderam a dar as primeiras braçadas. “É um equipamento de que toda a gente se lembra. Meia Lisboa aprendeu ali nadar”, diz Ana Isabel.

Luís Jorge, ex-vogal do Desporto da Junta de Freguesia de Santa Maria dos Olivais, recorda como a “rapaziada dos Olivais” se encontrava toda ali, tantas vezes gerando-se picardias entre aqueles que vinham da Encarnação, dos Olivais Sul ou dos Olivais Norte.
“O facto de termos a piscina e de toda a gente se concentrar ali, partilhando o mesmo espaço, acabou com a barreira que existia, acabou com o muro de Berlim, como era chamada a Avenida de Berlim, que dividia os Olivais Norte dos Olivais Sul.”
Para ele, a piscina é mote para relembrar os “saltos enrolados”, em que “o joelho ia à testa e lá vinha o sangue ao sobrolho.”
Arlindo Freire, antigo funcionário das piscinas, lembra-se dos grandes campeonatos que lá se disputavam, e das famílias que, em vez de irem para as praias da Costa ou de Carcavelos, iam para a piscina dos Olivais, levando “a geleira” para fazer piqueniques.
Foi ali que tantas vezes se criaram grupos informais, como os “Marretas”, uma equipa de futebol de salão, ou os “Santar Futebol Clube”, um grupo de futebol com gente de “Santar”, perto de Viseu.
Nos anos 1990, também se realizaram iniciativas como o “Teatro dos Sonhos”, um espaço aberto para todos os que desejassem partilhar histórias, e a “Festa das Coletividades”, um evento com teatro, animação, fado, desporto…
Uma nova vida para a piscina dos Olivais
Com o passar dos anos, a prática de se ir à piscina por lazer acabou por desaparecer, à mesma velocidade que a piscina se degradava. Uma degradação à qual a atleta angolana Liliana Santos assistiu.
Ela, que foi considerada pelo Diário de Notícias “a melhor nadadora completa de Portugal de meados de Portugal de meados de 70 e 81, a campeã e recordista em todos os estilos”, nadou pela primeira vez na piscina dos Olivais quando tinha onze anos.
Na altura em que foi entrevistada, contou: “Temos muita saudade daquela piscina, aquele património a degradar-se. Eu cada vez que entrava na piscina, olhava e pensava: como é possível estar assim?”.
Em 2000, ainda se construiu ali uma piscina de 25 metros, mas, cinco anos mais tarde, punha-se fim ao rol de memórias. A piscina dos Olivais fechava portas e a comunicação social falava mesmo na sua demolição.
Acabaria por surgir uma proposta de intervenção, resultado de um concurso internacional que atribuía a gestão do complexo desportivo à empresa Go Fit. Em 2015, seria inaugurado o Centro Desportivo “Go Fit Olivais”, gerido pelo grupo espanhol Ingesport.
Lá, é possível encontrar uma sala de fitness, salas de aulas de grupo, uma sala de formação e eventos, uma piscina e SPA, três campos de padel, um campo polivalente, um circuito olímpico e uma ludoteca.
No livro de Ana Isabel Veiga e Luís Maçarico, o arquiteto do novo complexo Jorge Barata Martinez explica como “sobre o antigo” se criaram “salas de atividade dirigidas” e como os balneários foram renovados “com respeito pela sua construção original.”

Quanto a esta nova vida, Luís Maçarico desabafa: “Fiquei contente por a piscina não ter sido destruída, como se tinha discutido.” Ele que, antes da transformação, tinha visitado a piscina, surpreendendo-se com o seu estado: “Aquilo estava ao abandono. Por isso, esta transformação veio trazer um conceito novo.”
Muito embora se tenha perdido aquela função de recreio e de lazer da antiga piscina, com este novo centro a dirigir-se mais para o treino, os investigadores aplaudem a reabertura do espaço. “Houve, de facto, uma espécie de devolução do espaço à população, se bem que em modos completamente diferentes, mas isso é normal, tem que ver com a mudança dos tempos”, diz Ana Isabel.
Os tempos mudaram, sim, mas os dois reconhecem que houve algum cuidado na preservação de certos elementos do espaço original. Por agora, restam as memórias desse outro lugar que marcou gerações, e que Ana Isabel e Luís procuraram registar neste trabalho, numa tentativa de não deixar a sua história morrer.


Ana da Cunha
Nasceu no Porto, há 28 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.
✉ ana.cunha@amensagem.pt

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