É uma das avenidas mais bonitas e movimentadas da nossa cidade, mas padece de um pecado original: o nome com que foi batizada. É verdade que a Avenida da Igreja começa numa igreja e tem um santo a abençoá-la pelo meio (ainda que, pela estátua, mais pareça que está a pedir duas minis); mas, que raio, termina de caras para o nosso Central Park e a primeira biblioteca do país, a nacional.

Não faria mais sentido nomeá-la homenageando um dos nossos maiores, como acontece na maioria das ruas adjacentes: Florbela Espanca, Mário de Sá Carneiro ou Fernando Pessoa? Faltaram poetas? Teria sido diferente se fosse rua e não avenida? É um facto que a da Liberdade já foi Passeio Público e a da República Ressano Garcia, antes desta ser “desterrada” para o Bairro Azul.

Enquanto profissional nas cercanias do mundo das marcas, diria que o brand storytelling está feito e repisá-lo seria uma perda de tempo. Devo, aliás, dizer – spoiler alert – que não estou a propor a mudança ou o cancelamento do seu nome, mas apenas a constatar um facto (de época?) intrigante. Afinal, esta é uma artéria que, ao contrário de uma via sacra a caminho do calvário, é um percurso de iluminação que começa numa igreja, prossegue por uma zona comercial e desemboca no convivial Campo Grande e num local carregado de história e cultura, que conserva um dos primeiros exemplares de Os Lusíadas.

Mas quero é falar de algo que me parece bastante especial, que acontece pouco por esse mundo fora, e que, felizmente, prolifera por esta cidade: os bancos… de rua ou avenida, não os outros onde se sentam os nossos créditos a juros que mais parecem pregos que não foram martelados até ao fim e que doem cada vez mais. 

Velhotas carregadas com sacos de supermercado que se sentam para descansar, jovens namorados que se beijam alheados de tudo o que se passa à sua volta, famílias que devoram gelados com nata no pino do verão, agentes imobiliários que esperam pelo cliente que vai conseguir comprar a única casa em todo o bairro com um “vende-se” a preços estratosféricos.

Tudo isto acontece nos bancos desta emblemática avenida, que, da minha varanda, mais parece uma pequena aldeia no meio de Lisboa – acima do Santo António, mais cosmopolita, e nesta zona do antigo bairro das Caixas, mais descontraída.

O conceito de “a minha rua”, com tudo o que costumamos associar à infância, os carrinhos de rolamentos, o primeiro cigarro às escondidas, nunca fez parte do meu imaginário. Pelo menos, não numa rua.

Foi sempre algo estranho e que, até certo ponto, invejava nos meus contemporâneos. Cresci a mudar de casa e de cidade e, por isso, o mais perto que estive desse sentimento foi na avenida da República, onde passei de forma intermitente a maior parte da infância e adolescência. Aí, tendo por vizinhança uma embaixada, um consultório de advogados e um outro médico e gente muito, muito mais velha (a nossa vizinha de baixo era a meia-irmã do Fernando Pessoa, nascida em 1896), o prédio contava, no final dos anos 70 e durante todos os 80, apenas com quatro crianças, depois adolescentes: eu, as minhas irmãs e a muito simpática Sara do segundo esquerdo. 

Passadas várias décadas, sinto-me verdadeiramente em casa nesta “minha (nova) avenida”, para onde mudei com a minha família há quase um ano. E, apesar de ter concordado quase toda a vida que “as melhores coisas na vida acontecem quando não temos aquilo que desejamos”, como ensaiou Montaigne, o epicurista e o cético que existem ou coexistem em mim tendem a discordar dessa máxima.

Hoje, fruto do destino ou de uma imensa sorte, tenho aquilo que desejo, acontecem as melhores coisas e espero que assim continue por muito tempo. Quem sabe, a Avenida da Igreja ainda se torna a da inspiração.


Pedro Salazar nasceu na freguesia de Arroios a quatro meses do 25 de abril, mas já viveu um pouco por toda a cidade (Avenidas Novas, Santa Catarina, Almirante Reis, Santo António, Campolide, Campo de Ourique e, desde 2010, em Alvalade). Licenciado em Economia pelo ISEG, foi produtor de espetáculos, jornalista e é, há mais de vinte anos, consultor de comunicação. Já viveu fora de Portugal, em Estocolmo e em Ljubljana, mas é em Lisboa que se sente em casa.


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