Não vou usar eufemismos nem passar a mão no pêlo aos vizinhos: viver em Vizela é mais fácil do que viver aqui. Quando eu era pequena, tudo o que era problema tinha a cura do mesmo homem. Fosse uma janela partida ou uma torneira enguiçada, bastava bater à porta do senhor Alfredo, que a magia acontecia. No final, ninguém tinha de se preparar para a luta, porque toda a gente sabia que ele não ia apresentar uma conta mais cara do que um rim.

Os anos passaram, o senhor Alfredo talvez tenha morrido, sei lá, e eu vim morar para Lisboa. Sempre que a persiana encrava, é um problema. Se é preciso pintar uma parede, sei lá o que pode acontecer. Se há que telefonar a um carpinteiro para me embutir prateleiras, já sei que vai ser como estar no ringue ou como jogar ao totoloto. Os orçamentos variam entre os cinquenta e os cinco mil euros, nunca há tempo para relações de bricolage duradouras, é difícil saber em quem se pode confiar. Prova disto foi o tormento por que passei este mês.

Desde que comprei esta casa que a casa-de-banho se safava, mas não me enchia as medidas. Foi desta que resolvi avançar para a remoção de azulejos e subsequente construção de nuvem de poeira. Ninguém conhecia ninguém decente – em Lisboa, é sempre assim – e dei por mim na Internet a ver o que pescava. Os orçamentos eram lindos: incluíam até coisas que eu não queria, torneiras de 300 euros (talvez forradas a pele de Ronaldo), uma puxada de tomada eléctrica de um metro por quase mil (talvez iluminasse os corações humanos). Dava ideia de que aquilo era atirar para o ar a ver se alguém pegava, se eu por acaso era um reformado inglês que ainda não sabia bem o que era a vida em Portugal. Dei por mim a lembrar-me do senhor Alfredo. Com ele, a minha mãe perguntava o preço e ele dava o preço. Nunca havia o medo de um momento constrangedor, da tentativa de um engano. E ele nunca se virava para trás depois para dizer: “Olhe, e faltam 36 euros porque tive de comprar um parafuso. Não tenho talão porque o comprei sem IVA, para a senhora não ter de pagar 84.”

Lá arranjei uns tipos. O orçamento era um absurdo, mas os outros orçamentos mais absurdos eram. E não incluía cola nem silicone nem não sei que mais. Viriam do Seixal todos os dias, mas eu que não me preocupasse, porque o valor da portagem e do gasóleo já estava incluído na louca factura final. Lá se acertou com eles a data, depois foi o demónio de conjugar vinílico com azulejos, medir banheiras, planear encaixes para a máquina de lavar roupa. Quase parecíamos estar na Antiguidade Clássica: a pensar ângulos, a mudar dogmas, a querer saber o que há dentro de um átomo. Aquilo metia números e desenhos e, sinceramente, já tive internamentos hospitalares mais agradáveis.

Tudo comprado, foi só instalar o pandemónio em casa. Eu com pó lido mal, mas lido. Com a ratice é que é mais complicado. No primeiro dia, os gajos da empresa (que eram um casal) vieram connosco à Brico Depôt. No dia seguinte, passaram a levantar um móvel que eu tinha encomendado, não sem nos terem acordado com a campainha uma hora e meia antes do combinado, com um ajudante que trouxe azulejos cá para cima – e que chegou cá acima morto. A partir daqui, começou o descalabro gato e rato.

O gajo foi almoçar e mandou-me um áudio pelo WhatsApp a dizer que tinha falado com o aterro e que deixar o entulho lá custava 180 euros. Do outro lado, a minha voz escandalizada: “O quê? 180 euros?!” Eu posso roubar corações a muita gente, mas não roubo carteiras nem platina. Ainda me foi garantido que me tinham sido poupados 30 euros ao bolso: “Ele pediu 210, mas eu disse que não. Então na semana passada eram 180 e agora eram 210? Nem pensar.” Achei aquilo muito estranho, até porque eu sabia que a Câmara de Lisboa tinha aterros e que ninguém precisava de pagar para lá deixar despojos de casas-de-banho mal planeadas. Além disso, de todos os livros que li, nenhum mencionava a existência de aterros privados em pleno centro da cidade.

Lá liguei para a Câmara, foi-me indicado um aterro. O entulho podia ser lá deixado sem custo nenhum, no horário tal e tal, e nem era preciso avisar antes. Maravilha, eram 180 euros no bolso. Fui dizer ao gajo. Meio naquela, lá me disse que tudo bem, mas que aí cobrava 30 euros pelo gasóleo. Eu não quis fazer grande guerra com alguém que tinha a chave da minha casa, mas que mistério era aquele? Para o privado não pagava combustível e para o público tinha de o pagar? Ainda por cima, o aterro era a sete quilómetros da minha casa, e literalmente ficava a caminho da dele. E, ainda por cima outra vez, o orçamento incluía “transporte para o vazadouro”, que o gajo depois argumentou que era o que ficava à porta de casa. Refilei um bocado e etc., decidida a não ser usurpada outra vez – eu, que até tenho tradição. Liguei de novo para a Câmara, que ficou de me indicar a hora de recolha à porta de casa. Até lá, azulejos, um lavatório e uma banheira teriam de jazer em sacos pelo corredor. Como fiz o jogo dele, o gajo nem pôde reclamar. Nessa altura, o problema era só dele, uma vez que não íamos ser nós a estar aqui. Sem outro remédio, lá se pôs a inventar noutras coisas.

A primeira foi o sinal do pagamento. Que tinha muita pressa, que eu tinha de fazer a transferência naquele momento exacto (estávamos com menos de 24 horas de obra), que “eles” já andavam em cima dele. Ora, “eles” eram ele e a esposa, que no segundo dia nem sequer tinha aparecido. Achei aquilo desligado, mas custa-me desconfiar e depois não ter motivos. Por isso, googlei para ter os motivos todos: realmente, a empresa era unipessoal, e algo me diz – talvez a prática – que o dono era ele mesmo. Perguntei-lhe se o NIB para a transferência tinha o nome da empresa. Garantiu-me que sim. Pouco depois, já disse que havia duas contas: uma com IVA e outra sem IVA. E eu disse-lhe: “Ou seja, a conta que me deu não é da empresa, é de uma pessoa, é isso?” Respondeu-me que era “da sócia-gerente”. Nem chegou a haver pausa para o constrangimento. Perguntei logo: “Aquela senhora de ontem?” Que é como quem diz: “A tua mulher, pá?” Ele disse que sim com um ar muito profissional. Tudo isto – o empolamento em série – serviu para criar uma atmosfera de engodo, que fazia tanta comichão na garganta quanto o pó.

Ora, eu detesto que me enganem. E, sobretudo, detesto o aproveitamento, daí ser alérgica ao André Ventura. Ofereço confiança e espero confiança. Uns acham que isto é ingenuidade, outros estupidez, eu acho que é viver com calma dentro. A carga emocional da desconfiança é tanta que mais vale o optimismo e depois a desilusão. Com isto, tenho, ao longo da vida, coleccionado desilusões, é bem verdade. A última até foi há menos de um mês – a minha bicicleta ficava guardada na arrecadação, e a porta ficava sempre aberta para arejar. Éramos todos vizinhos, éramos todos boa gente, ninguém no prédio se ia pôr a gamar coisas. Um dia, lá houve uns bacanos de outro prédio que confiaram nas boas intenções de quem abre a porta à toa por não ter intercomunicador. A minha bicicleta passou a contar com os glúteos de um gatuno qualquer – e eu fiquei com a sensação de que a traição é coisa que magoa.

A meio da obra, o gajo ainda conseguiu pôr o entulho todo na rua, e isto depois de eu lhe ter dito que não podia fazê-lo e que ainda não tinha resposta da Câmara. Desceu os três andares, pôs os sacos no passeio – nenhum aviso, nenhum telefonema. Uma vizinha lá me disse o que o tipo tinha acabado de fazer. Como quem mete um penso numa ferida, lá fui eu ligar para a Câmara de novo, dizendo que aquilo tinha sido feito à minha revelia. Perante a ameaça de multa, o culpado recusava-se a pagar: ele precisava mesmo de espaço no corredor; se aquilo era ilegal, paciência. Que os outros se amanhassem.

Estive quase duas semanas a jogar ao toca-e-foge. O gajo tocava e eu fugia. E a ginástica mental do eu-sei-que-tu-me-enganas-e-quero-que-saibas-que-sei-e-que-só-estou-a-fingir-que-não cansava-me mais do que preparar o Natal para dez. A casa agora está toda bonita, mas meio mês foi transformador, plantou dentro de mim uma mágoa que eu não tinha. Hoje, já mais adulta, sinto que não aproveitei o senhor Alfredo como devia, sonho com um mundo de senhores Alfredos, quero ser um senhor Alfredo a vida toda e tenho a esperança de nunca deixar de achar que em cada desconhecido há um senhor Alfredo. Ainda assim, caso alguém me peça recomendações para obras em Lisboa, acho que digo antes: “Fica com o que tens. Ninguém morre por olhar para azulejos amarelos enquanto lava os dentes.”

*A autora escreve com o antigo Acordo Ortográfico


Ana Bárbara Pedrosa

Veio para Lisboa estudar Literatura em 2012. Daqui só saiu para o Brasil, onde, à portuguesa, teve saudades dia e noite. Regressada, escreveu Lisboa, chão sagrado e a cidade foi a diva onde se perderam personagens. Anos depois, numa casa em Benfica, foi ao Médio Oriente e escreveu Palavra do Senhor. No mesmo sítio, meteu a cabeça em Vizela e escreveu Amor estragado. Para os de cá, tem sotaque minhoto; para os de lá, engravatado.


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2 Comentários

  1. Bravo ! Belíssima prosa que corresponde bem a muitas situações que se vivem no quotidiano …E que maneira tão decomplexada de o dizer …Gosto muito das suas crónicas …Sempre na expectativa da próxima…

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