Gosto de fazer as coisas com tempo. Ninguém me poderá acusar nunca de não planear a vida, de me pôr em situações em que eu e o desespero andamos de mãos dadas. Antes de dar o primeiro passo, já sei como vou dar o vigésimo – assim é viver bem, e saber que não chegarei aos 50 sem ter ido ao Japão nem aos 35 sem ter ido a Porto Santo.
Nos últimos anos, a minha vida tem sido planear os anos seguintes. Nos últimos meses, tem sido planear os meses seguintes. A vida é uma coisa a preto e branco: se um teste de gravidez dá positivo, no mesmo dia vê-se Harry Potter e a Pedra Filosofal para os meninos não nascerem Muggles. Umas semanas depois, remodela-se a casa-de-banho para ser mais fácil dar banho aos cachopos e depois limpa-se o pó. O primeiro trimestre de gravidez vai em pleno voo e já eu peço orçamentos para fazer um armário no quarto dos bebés.
Foi o que aconteceu há meses e é aqui que entra o carpinteiro. Há uns tempos, reclamei da vida em Lisboa, precisamente por causa do caos em que qualquer obra se torna. Ora, depois desse caos, era só carpintaria. Que poderia correr mal? Nada para além da vida em geral. Lá contactei o Luís, carpinteiro de Fernão Ferro. Já tinha feito um armário cá em casa, e a coisa até tinha corrido mais ou menos: só demorou a finalizar o serviço e a vir cá meter as portas; como a coisa já estava paga, ele não meteu gás nos sapatos.
Combinámos no fim de Agosto. Ele veio fazer medidas no início de Setembro. No dia 4, transferi-lhe 60% do valor final para adjudicação do serviço. Ficou combinado que montaria tudo na primeira semana de Outubro.
Lá chegámos à primeira semana de Outubro. Perguntei-lhe em que dia viria, não sabia. Chegou a quinta-feira, só restava a sexta. Nada. Não ia acontecer naquela semana. Talvez na próxima. Nada. Talvez na seguinte? Nada. A desculpa era sempre a mesma: os fornecedores, as orlas. As semanas foram passando, a minha paciência esgotou-se. Falei com outro carpinteiro, que lá me disse que achava estranho: não só tinha orlas, como tinha a certeza de que os fornecedores dele também tinham. Mas o Luís não devia ser gajo para me enrolar assim. Parecia tão honesto, tão mavioso, tão normal. Algures pelo meio do caminho, lá me desfez as ilusões e disse que, se não conseguisse as orlas até ao dia tal, me devolveria ao dinheiro. Pelo meio, eu enviava mensagens e telefonava, mas o tipo tinha desaparecido como quem foge da ligação a um cadáver.
Liguei, liguei, nada. As mensagens caíam em saco roto. Uma amiga veio visitar-me, telefonei do telefone dela. Magia, atendeu logo. Há momentos de sorte, parece que os astros se alinham pelo céu. Ao ouvir o meu nome do outro lado, o gajo fez aquela voz de quem é apanhado com a pata na poça – enterrada até ao pescoço. Perguntou se estava tudo bem e tudo. Há gente filha da mãe, mas sempre muito simpática. A minha amiga de Braga estava escandalizada, tal como o namorado. Incautos, não só se fascinam com eléctricos no Martim Moniz, parando para os ver passar, como se escandalizam com a distinta lata de quem não tem gente em comum a quem se possa dizer mal. Que faria eu à reputação de um bacano armado em artista e que vivia em Fernão Ferro?
Ao telefone, irritei-me a sério. Como é, o gajo vinha montar o armário? Ele disse – como se a frase tivesse conteúdo – que tinha tido um imprevisto. Eu também, já que tinha previsto ter armários em casa contavam-se já umas sete semanas. Pedi data, exigi data. Ele só dizia “Ouça, eu estou a dizer-lhe que tive um imprevisto”, como se isso servisse para justificar. O ónus ficava em qualquer lado, menos nele. Ele era o desgraçado, a vítima, o desassossegado; o mundo de bandalhos é que estava contra ele, a extirpá-lo, a estripá-lo, a condená-lo. Lá lhe perguntei: “Mas o problema são as orlas?” E ele: “Sim, sim, o problema são as orlas.” “Então não se preocupe, que eu arranjo-lhe as orlas.” O outro carpinteiro haveria de achar caminho. De repente, a versão foi outra: “Olhe, eu tive um imprevisto, prefiro devolver-lhe o dinheiro.” E eu: “Pois, eu também estou a ter este imprevisto, prefiro que cumpra o serviço para o qual foi contratado.” Nada. Sem a possibilidade de lhe partir os dentes todos, lá ficou combinado que o gajo me devolveria o dinheiro. Enviei-lhe o NIB. Que simpático, respondeu logo: “Combinado.”
No dia seguinte, nada. No outro a seguir, népia. Veio mais um e rien de rien. Eu mandava mensagens, era como se não as tivesse mandado. Volta e meia, de longe a longe, o gajo lá respondia: “Estou a tentar! Ainda não consegui fazer a transferência! Quero resolver!”. Então que resolvesse, mas não estava inclinado. Seria só ir ao multibanco fazer uma transferência, mas sei lá em que raio é que o gajo estava metido. Eu só sabia que nada tinha que ver com os malabarismos de um aldrabão, de um caloteiro. Os nervos já me estavam à flor da pele, eu tão zangada com ele quanto com esta cidade em que é tão difícil exigir satisfações, tão fácil desaparecer, tão desavergonhadamente comum não dar cavaco a ninguém. Os armários, que eram para os meus filhos bebés, continuavam sem estar feitos; os bebés cresciam na barriga, e de lá já falavam francês e tudo; os sacos amontoavam-se pela casa; eu continuava sem poder fazer as contas aos bodies e aos babygrows que a Bia e o Jorge me tinham emprestado; o filho da mãe continuava-me com a massa; eu tinha de arranjar outro carpinteiro, a quem também teria de pagar – menos dinheiro na conta, menos tempo disponível.
Meteu-se a advogada ao barulho. Ela ligou ao bandalho, o bandalho não atendeu. Mandou mensagem, sem assinar, e o canalha lá disse que ligaria em breve. Fantástico, e eu com semanas de ghosting. O homem julgava mesmo que não tinha de dar cavaco a ninguém. Andámos nisto uns tempos, ela também sem conseguir falar com ele. Um dia, o banana lá atendeu. A advogada disse, sempre simpática, airosa, como só ela – dócil antes de se tornar num tubarão que leva tudo à frente: “Olá. Eu sou a Coiso e Tal, advogada de…”.
Advogada de quem? O homem não chegou a saber. Nem ouviu. Desligou-lhe na cara e mandou-lhe uma mensagem a dizer que estava a ficar sem bateria e que depois ligava. Escusado será dizer que nunca mais lhe atendeu o telemóvel. E escusado será também dizer que quem tem tão pouca bateria que não aguenta dez segundos não atende um número desconhecido. A advogada ficou possessa, eu fiquei com vontade de arrancar a língua ao gajo à chapada.
Lisboa dá muita luta, viver aqui é levar porrada dia e noite. Lá se vai ver se com comunicações e acções judiciais se dá conta do recado ou se tenho de ligar a alguém do Minho para pedir ajuda a uns capangas. Na zona de onde eu venho, estas coisas são resolvidas mais depressa. De dia para dia, o diagnóstico a esta coisa encastrada entre Odivelas e o Tejo torna-se mais claro: começa mesmo a dar-me cabo da cabeça.
*A autora escreve com o antigo Acordo Ortográfico

Ana Bárbara Pedrosa
Veio para Lisboa estudar Literatura em 2012. Daqui só saiu para o Brasil, onde, à portuguesa, teve saudades dia e noite. Regressada, escreveu Lisboa, chão sagrado e a cidade foi a diva onde se perderam personagens. Anos depois, numa casa em Benfica, foi ao Médio Oriente e escreveu Palavra do Senhor. No mesmo sítio, meteu a cabeça em Vizela e escreveu Amor estragado. Para os de cá, tem sotaque minhoto; para os de lá, engravatado.

O jornalismo que a Mensagem de Lisboa faz une comunidades,
conta histórias que ninguém conta e muda vidas.
Dantes pagava-se com publicidade,
mas isso agora é terreno das grandes plataformas.
Se gosta do que fazemos e acha que é importante,
se quer fazer parte desta comunidade cada vez maior,
apoie-nos com a sua contribuição:

Peço desculpa por contactá-la por aqui mas não sei outro endereço onde fazê-lo. É que eu tenho o mesmo problema com um carpinteiro Luís de Fernão Ferro. Não sei o apelido, só tenho o nr. de telemóvel. Tenho algo mais que a senhora: a identidade do titular da conta para onde transferi o dinheiro e as mensagens trocadas porque a partir de determinada altura passei a falar com ele em mensagem . Mas o resto é em tudo semelhante ao que descreveu. Conseguiu resolver o seu problema? Se sim como? Agradecia-lhe o contacto.
Grata por tudo
Ana Mota