Samim Seerat
Photo: D.R.

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Durante os 4 meses que passámos no Centro Português para os Refugiados (CPR), uma das funcionárias do centro, Alana Moreira, que sabia como tínhamos conseguido chegar a Portugal e sobre o meu trabalho em Cabul [na área da comunicação social], pediu-me para me encontrar com Catarina Carvalho e disse que eu deveria contar-lhe sobre a minha viagem de Cabul a Lisboa.

Catarina Carvalho é a fundadora do jornal digital lisboeta A Mensagem. Quando conheci a Catarina e lhe contei toda a história da minha chegada, ela ficou muito interessada e pediu-me para escrever todas as histórias e aventuras da minha viagem para publicar no jornal. Aceitei a oferta dela e comecei a escrever sobre a minha viagem neste período de um ano, com a cooperação da equipa deles.

Gostaria de agradecer a Alana por me ter apresentado a Catarina, e também gostaria de agradecer à Catarina por me ter dado a oportunidade de escrever sobre a minha viagem do Afeganistão até Portugal.

É importante mencionar que a Catarina nos apoiou muito durante este ano, especialmente durante o nascimento do nosso filho Ahmad Zaeim – que acaba de completar o seu primeiro aniversário. Apreciamos muito a sua gentileza e apoio, e agradeço também à equipa da Mensagem.

No tempo que passámos no CPR tentámos habituar-nos ao novo país, cultura, ambiente, e língua.

O CPR proporcionou alguns programas e actividades de entretenimento para os imigrantes que acolhia, tais como levar-nos a conhecer as praias e locais históricos ou programas musicais que foram preparados por outras instituições.

Uma vez fomos também convidados para um programa musical e todos nós participámos, com a equipa do CPR. Gostámos muito de todas as actuações dessa noite e especialmente de uma actuação que foi preparada especialmente para os imigrantes.

Os dias e as noites passavam, e estávamos a habituar-nos a viver no centro e também com os outros imigrantes. A nossa intimidade e amizade com os outros imigrantes aumentava a cada dia que passava e a cada noite todos os imigrantes jantavam juntos na mesma sala.

Tornei-me amigo de um imigrante chamado Atiq Kakar. Ele é um imigrante afegão que conseguiu emigrar do Afeganistão para Portugal sozinho.

Samim e Roya Seerat com os filhos e o amigo Atiq Kakar, que se tornou família.

Atiq e eu costumávamos ir às compras juntos durante o dia e à noite cozinhávamos todos juntos e comíamos todos à volta da mesma mesa e devo dizer que Atiq tornou-se como um membro da família para nós. Ajudou-nos muito quando o nosso filho nasceu e não nos deixou sozinhos em tempos difíceis. Estar-lhe-emos sempre gratos.

É espantosa a rapidez com que o tempo passa. Lembro-me de quando estávamos no Afeganistão, e nunca pensámos que um dia tivéssemos de deixar o nosso país e nos tornaríamos imigrantes ou que passaríamos algum tempo num dos centros de imigrantes debaixo do mesmo tecto com pessoas diferentes e não sabíamos como o destino nos levaria a lugares onde nunca imaginámos estar e o CPR era o local exacto onde o nosso destino nos trazia. Um lugar onde chorámos e sentimos saudades pela nossa família, pátria e amigos e também um lugar onde nos rimos.

O tempo passava dia após dia, e num dos últimos dias do ano 2021, o CPR organizou uma festa de Natal para as crianças e um dos funcionários do CPR fez de Pai Natal. Todas as crianças e a Sama ficaram muito felizes por ver o Pai Natal, decoraram a árvore de Natal e outros preparativos natalícios. A Sama sempre tinha visto o Pai Natal e a árvore na televisão (desenhos animados), mas não na vida real.

Quando a Sama viu estas surpresas, ficou muito feliz e foi tudo muito interessante para ela.  Naquele momento, vi sorrisos nos rostos de todas as crianças e lembrei-me das crianças do Afeganistão que estão privadas de todas estas alegrias e desejei que um dia pudéssemos ver todas as crianças do meu país com paz e tão alegres no Afeganistão.

Roya e eu ficámos felizes por todas as crianças de lá, que puderam refugiar-se num lugar mais seguro. Lembro-me de cada imigrante que estava naquele centro, especialmente os afegãos, que tinham histórias amargas sobre os seus últimos dias em Cabul. Tal como eu e Roya, os pais e mães que tinham salvo o futuro dos seus filhos podiam finalmente respirar de alívio.

Temos boas memórias de todos os imigrantes durante os quatro meses em que estivemos naquele centro e gostaria de agradecer à equipa do CPR pela sua cooperação durante esse tempo.

Após 4 meses, era o momento de mudarmos para a casa que nos estava destinada.  Não sabíamos onde seria, apenas nos disseram que era na zona de Torres Vedras, e concordámos em mudar de casa. Fiquei preocupado com a nova vida nesse lugar novo para nós, mas disseram-me que o governo português nos apoiaria onde quer que estivéssemos durante mais de um ano, após o qual, todo o apoio do governo seria interrompido e toda a responsabilidade passaria a ser nossa.

Finalmente, chegou a data da nossa chegada à nova casa. A 7 de Março de 2022, mudámo-nos para a nossa nova casa em Torres Vedras com a nossa pequena família. Um abrigo onde íamos construir uma nova vida e teríamos do zero, longe da nossa querida família e amigos.

Sentimo-nos bem e felizes quando chegámos à nossa nova casa e tivemos a sorte de o Alto Comissariado para as Migrações e a Câmara Municipal de Torres Vedras nos terem fornecido uma casa para recomeçarmos. Era realmente uma casa bonita e bem mobilada, com todo o equipamento.

Da mesma forma, com o passar do tempo, habituámo-nos lentamente à nova casa e à nova zona e ambiente. É importante dizer que a região de Torres Vedras tem um clima excelente e as pessoas são amáveis e de bom coração.

Sama, flha de Samim e Roya, na nova escola em Torres Vedras.

Após algum tempo a nossa filha Sama entrou num infantário com a cooperação do Município de Torres Vedras, e como não conhecemos bem a língua portuguesa, esforcei-me muito para encontrar aulas de línguas e também para encontrar um emprego, no entanto ainda não consegui encontrar emprego.

Hoje vivemos em Portugal há um ano e por vezes enfrentamos problemas ou dificuldades de adaptação a um novo país… e ao mesmo tempo, outros problemas como o desemprego, uma grande preocupação pois preciso de um emprego permanente porque, nos próximos meses, deixaremos de ter apoio governamental.

Já passaram vários meses e a Sama entrou na escola este ano e eu iniciei um curso de língua portuguesa quase ao fim de um ano, e fazemos o nosso melhor para, com o passar do tempo, nos habituarmos gradualmente a viver neste país e ultrapassarmos os problemas.

Descrevo a minha migração como “amarga e inesquecível”. Ser imigrante é realmente muito difícil.

A história da minha viagem de Cabul a Lisboa terminou aqui, mas a história do Afeganistão, a sua guerra, pobreza e fanatismo não terminou aqui. As nossas famílias e amigos ainda estão presos sob a opressão dos Talibãs e são vítimas destes. Cabul e outras províncias continuam a testemunhar diariamente explosões e ataques terroristas e todos os dias são mortas pessoas. As raparigas são privadas de educação e as mulheres são privadas dos seus direitos. 

O Afeganistão tornou-se um abrigo seguro para os terroristas e o mundo tem permanecido em silêncio sobre o assunto. Como imigrante e afegão, peço também que o mundo não esqueça o Afeganistão.

Estamos gratos a Alá por nos ter dado a oportunidade de viver num lugar pacífico e eu e também em nome da minha família, gostaríamos de agradecer ao Bruno Maçães, à Catarina Carvalho, à Alana Moreira, aos membros da equipa da ACM e à Câmara Municipal de Torres Vedras, especialmente à Inês, à Cláudia e à Rita que ajudaram e cooperaram connosco durante este tempo e também ao meu amigo brasileiro, o Ivan César Leite que nos apoiou durante um ano.

Ao mesmo tempo, estamos satisfeitos e agradecemos o apoio do governo português e apreciamos todos os seus esforços.

Desejo a todos os queridos leitores desta história sucesso e felicidade nas suas vidas.

No final, desejamos à nossa pátria que estes dias sombrios passem em breve e que a verdadeira paz volte ao Afeganistão.

Obrigado Portugal e obrigado A Mensagem!

Os nossos melhores votos,

Ahmad Samim Seerat

Email: samimseerat@gmail.com


* Samim Seerat é refugiado afegão em Lisboa, onde chegou em novembro de 2021 com a mulher e a filha. Foi pai, novamente, no dia 7 de janeiro. Em Cabul trabalhava como executivo de media no grupo MOBY detentor da Tolo News. É também fundador de uma start up chamada Paiwast Health Services. Escreve na Mensagem sobre a sua experiência em Portugal todos os meses.

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