Samim Seerat
Samim Seerat com Bruno Maçães, que ajudou a sua família a fugir do Afeganistão.

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Há vinte anos, após o fim da guerra, quando o Afeganistão mudou para um novo caminho, ano após ano, as pessoas sentiram que estavam progredindo. Apesar da insegurança em algumas províncias, da crise económica e outros problemas, as pessoas esperavam que um dia tudo isso pudesse ser resolvido no Afeganistão.

Nos últimos 20 anos, o povo do Afeganistão nunca imaginou que um dia os Talibãs retornariam país e que conquistariam tudo. No entanto, eles vieram e assumiram o governo novamente. No dia em que os Talibãs entraram em Cabul, o Afeganistão foi manchete em todos os países do mundo. Mas o mundo só ouviu que os Talibãs assumiram o governo: ninguém fora do país conseguia entender completament o sentimento do povo afegão.

Naquela noite, eu e a minha família estávamos em casa e sentíamos que não teríamos mais aquela calma que tínhamos, e não teríamos mais alegria. Sempre que a nossa filha Sama, de 5 anos, via as fotos do Talibã na TV, dizia apenas uma frase: “Os Talibãs vão-nos matar?” Claro que ela estava assustada e preocupada.

Eu e Roya davamos-lhe uma resposta vaga, mas de tudo o que conhecíamos dos Talibãs, a imagem nas nossas mentes eram exatamente essas: a de que eles apenas matavam e torturavam pessoas. Por isso não lhe dizíamos nada, mas sempre que ouvíamos a palavra (Talibã) também sentíamos medo.

Uma noite, estávamos muito cansados devido a um dia muito mau e queríamos só descansar, mas era impossível: Roya e Sama estavam com medo porque os tiros ouviam-se por toda Cabul. Era tarde na noite e eu estava a ver as redes sociais no meu celular. Passava por todas as opiniões das pessoas, todas preocupadas e não se sentiam nada bem.

Vi que qualquer pessoa que tivesse trabalhado com ONGs dos EUA no Afeganistão teria a oportunidade de ser evacuada pelo aeroporto de Cabul, por militares americanos. Mas não fiquei muito esclarecido se era verdade ou não.

Todos os dias, era levantar sem dormir. A sensação que tínhamos no início de cada dia era muito perturbadora: não sabíamos o que fazer, nem se podia voltar a trabalhar ou não. Trabalhava na Tolo News – canal independente.

Na TV e redes sociais havia notícias estranhas: imgens do aeroporto de Cabul que mostravam centenas de pessoas correndo para o aeroporto de Cabul, mas o motivo não estava claro.

Recebi telefonemas dos meus amigos que me diziam: “Falas inglês, deves ir ao aeroporto de Cabul e falar com os militares americanos que estão lá, eles podem tirar-te do Afeganistão”. Achei estranho que todas as pessoas que estavam se movendo em direção ao aeroporto já soubessem disso antes. Falei disso com Roya, e ela ficou surpresa e disse: “Será que é verdade?”

Era: aquelas pessoas que trabalharam com ONGs americanas e em bases militares e tinham documentos poderiam estar envolvidas no processo de evacuação do Afeganistão. E os voos de evacuação começaram a partir do aeroporto de Cabul. Quando tomamos conhecimento desta realidade, pensamos que se pudéssemos ir ao aeroporto e conversar com os militares americanos com alguns dos documentos que eu tinha, talvez eles pudessem nos ajudar.

Mas eu estava preocupado, como poderíamos entrar no aeroporto naquela situação, quando todas as pessoas estavam tentando entrar no aeroporto? Mais importante ainda, Roya não estava em condições de correr esse risco e ir para o aeroporto, porque estava grávida de 5 meses e Sama era muito pequena.

Decidimos esperar: talvez houvesse outra maneira fácil de sair dali.

Na verdade, todas as pessoas tinham apenas uma coisa em mente: como chegar ao aeroporto e como estar no processo de saída, para salvar as suas vidas. Ficou claro desde que os Talibã assumiram completamente o controle do governo do Afeganistão de que não havia outra solução. Estar no Afeganistão era como brincar com a morte e colocar nossas vidas em perigo.

Fizemos contatos com os nossos parentes e amigos próximos e perguntamos sobre as suas situações e também ideias, eles também estavam pensando no aeroporto mas não sabiam o que fazer. Conversei com os meus pais, na Califórnia-EUA, e contei sobre a situação de Cabul. Eles disseram que deveríamos decidir deixar o Afeganistão de qualquer maneira possível.

Mas esta decisão foi muito difícil para mim, Sama e Roya.

Destruir documentos e fotos

No dia seguinte eu queria ir para o trabalho, mas não podia ousar sair de casa, porque senti que os Talibãs poderia prender-me – nosso canal de TV era totalmente independente e totalmente contra o regime Taliban.

Então decidi ficar em casa e destruir todos os documentos e ferramentas que nos causariam problemas se os Talibãs entrassem em nossa casa. Queimei todos os meus documentos de experiência de trabalho e queria fazer o mesmo a todas as fotos e vídeos que tinha no telefone.

Entre as fotos, deparei-me com uma foto do Bruno Maçães. Era um político português, consultor e ex-secretário de Estado dos Assuntos Europeus em Portugal que chegara a Cabul exatamente uma semana antes de o Talibã ganhar terreno. Ele visitou Cabul por alguns dias, e um amigo comum pediu-me para ajudá-lo.

Antes de apagar a foto que tirei com ele, mandei-lha, enviei a foto para o número do WhatsApp dele. Depois de alguns momentos, recebi uma mensagem: “Estás vivo e em Cabul”? Respondi: “Sim, estou vivo e estou em Cabul com minha família”. Então ele perguntou: “Queres quer deixar o Afeganistão com família”? Eu respondi: “Sim, eu quero se for possível!” Ele escreveu: “Vou tentar tirar-te e à tua família do Afeganistão e farei o meu melhor”.

Fiquei surpreso e compartilhei isso com a Roya. Foi um raio de esperança e ficamos muito felizes que meu amigo estava pronto para ajudar-nos. Era mesmo a única esperança, na situação em que estávamos. Vou escrever mais sobre o que o Bruno Maçães fez por nós no próximo capítulo.


*Samim Seerat é refugiado afegão em Lisboa, onde chegou em novembro de 2021 com a mulher e a filha. Foi pai, novamente, no dia 7 de janeiro. Em Cabul trabalhava como executivo de media no grupo MOBY detentor da Tolo News.  É também fundador de uma start up chamada Paiwast Health Services. Escreve na Mensagem sobre a sua experiência em Portugal todos os meses.

“Do you want to go to Portugal?” – the message that saved us from Afghanistan

Twenty years ago, after the end of war, when Afghanistan moved to a new way, year by year, people felt that they were progressing. Despite the insecurity in some provinces, economic crisis and other problems, people hoped that one day all this might be solved in Afghanistan and one day they might be able to make good progress compared to other countries.

For the past 20 years, people of Afghanistan have never imagined that one day the Taliban would return to Afghanistan and Afghanistan would fall to them again.

However, they came and took over the government of Afghanistan again. On the day that the Taliban entered Kabul and announced their success, Afghanistan made the headline news of all the countries in the world. But the world only heard that the Taliban had taken over the government of Afghanistan again: no one outside Afghanistan could understand the feeling of the Afghan people.

That night when we were at home and we felt that we would no longer have that calmness that we had, and we would no longer have joy.

After the images of the Taliban were published on TV, showing they had entered the presidency, me and Roya… well, we had never thought about what we should do if this happened one day. We were all upset and worried.

Whenever Sama saw the pictures of the Taliban on TV, she used to say only one sentence: “Will the Taliban kill us?” Of course she was feeling scared and worried.

Me and Roya were giving her an unknown answer, because of the facts about Taliban that we knew. The image on our minds about the Taliban was just killing and torturing the people. That’s why whenever we heard the word (Taliban) we were also feeling fear.

One night, we were just very tired due to having a very bad day and we wanted to rest. But Roya and Sama were scared because gunfire was heard all over Kabul. It was late night and I was checking social media in my mobile, I was reading people’s opinions, it was looking that all people were worried and did not feel well at all.

It was reported on some social media that anyone who had worked with US NGOs in Afghanistan was being evacuated from Kabul airport by American militaries, but it was not cleared whether it was true or not.

It was getting up in the morning without any sleep. The feeling we had at the beginning of every day was very upsetting: we did not know what to do, I did not even know if I could go back to work or not. I worked at Tolo News.

Every time we watched TV and social media, we came across some strange news. This time some pictures had been published from Kabul airport that showed hundreds of people rushing to Kabul airport, but the reason was not clear.

I received calls from my friends and they said to me: “You can speak English, you should go to the Kabul Airport and talk to the Americans militaries that are there, they might evacuate you from Afghanistan”. It thought it was weird that all the people who were moving towards the airport were aware of this before. I shared this issue with Roya, and she became surprised and she said: “Might it be true?”

Then we understood that the fact was those people who had worked with American NGOs and on military bases and had documents could be involved in the evacuation process from Afghanistan. And evacuation flights had started from Kabul airport.

When we became aware of the reality of this issue, we thought that if we could go to the airport and talk to the Americans military with some of the documents that I had, it might be possible they could help us.

But I was thinking a lot about how we could get into the airport in that situation, when all the people were trying to enter the airport. Most importantly, Roya was not in a situation to take that risk and go to airport, because she was 5 months pregnant and Sama was very small.

We decided to wait and follow the process of evacuation, and we thought maybe there would be another easy way for the evacuation, and whether they were really evacuating everyone who had worked with Americans or not.

All the people had only one thing in their minds: how to reach the airport and how to be on the process of evacuation to save their lives. It was cleared that the Taliban completely took the control of the Afghanistan government and that there wasn’t any other solution.

Being in Afghanistan was like playing with death and putting our lives in danger.

We made contacts to our close relatives and friends and asked them about their situations and also ideas, they were also thinking about the airport but they did not know to what to do. I talked to my parents, in California-USA, and I told them about the Kabul situation.

They became very surprised and upset, and they advised me that we should decide to leave Afghanistan in any possible way. But this decision was very difficult for Me, Sama and Roya.

The next day I wanted to go to office, but I couldn’t dare to leave the house, because I felt that the Taliban might arrest me – our TV channel was totally independent and totally against the Taiban regime. So I decided to stay at home and destroy all the documents and tools that would cause problems for us if the Taliban entered our house. I burnt all my work experience documents and wanted to delete all the photos and videos that I had on my cell phone.

Among the photos that I wanted to delete, I came across a photo of my friend Bruno Maçães. He was a Portuguese politician, consultant and former Secretary of State for European Affairs in Portugal. Bruno had come to Kabul exactly one week before the Taliban gained ground. He visited Kabul for a few days, and a common friend asked me to help him.

Before deleting the photo that I took with him on my mobile, I wanted to share the photo with him, I sent the photo to his WhatsApp number. After a few moments, I received a message from him: “Are you alive and are you in Kabul”? I replied to him: “Yes, I am alive and I am in Kabul with my family.”

Then he asked “Do you want to leave Afghanistan with your family”? I replied “Yes, I want if it’s possible!” Then he wrote, “I will try to get you and your family out of Afghanistan and I will do my best”.

I was surprised and shared this with Roya. Then we felt hopeful and we were very happy that my friend was ready to help us, because we had no hope anymore on the situation that we were in I will write more about us and what Bruno Macaes did for us in next chapter.

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