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Aquele dia não podia ser mais de espanto para Ândria. “Foi marcante quando me deram o copo menstrual.” Aquele objeto estranho, redondo e flexível, que lhe diziam ajudar a segurar o sangramento da menstruação e salvar o planeta. “Não sabia para que é que funcionava, nem que o penso higiénico poluía tanto”, admitiu. Aos 14 anos, o mundo dela abriu-se naquela sala da Escola Básica do Alto do Lumiar, numa aula de Ciências fora do habitual.

Ao lado, Hélder, de 16, descobria que ser mulher passa por menstruar, que o período não é só sangue e, por isso, há de “entender melhor” o sexo feminino “quando tiver uma filha ou uma mulher”.

Até àquele dia, pedir um tampão ou um penso na escola era feito em sussurro. Como se de algo ilegal se tratasse, esta condição biológica de cada mulher, que vive em média 450 ciclos menstruais durante toda a vida. Três mil dias, oito anos e meio de período menstrual falados fora da lei.

Um silêncio que criou terreno fértil para preconceitos e que nos alheou da pobreza menstrual existente, da falta de recursos de muitas famílias na cidade para comprar pensos ou tampões.

Mas que também deixou Ândria sem saber que há outras opções além das descartáveis, como os copos menstruais e os pensos reutilizáveis.

Foi a pensar no ambiente e nas necessidades das famílias que a Assembleia Municipal de Lisboa aprovou, em fevereiro de 2022, a distribuição de produtos menstruais reutilizáveis nas escolas públicas do município, por recomendação do PS. Depois, do outro lado do rio, o Montijo seguiu as pisadas e começou a consolidar o que parece ser um movimento nacional.

Mas, passados dez meses, há em Lisboa apenas um projeto-piloto ativo. Esteve nesta escola do Lumiar, no ano passado, começou com a ajuda do atual deputado Ricardo Moreira (BE) e sob a coordenação de um grupo de atrizes, entre as quais Joana Seixas, em colaboração com a associação Corações com Coroa.

Sabia que…
O PAN viu esta segunda-feira aprovada, no Orçamento do Estado para 2023, a implementação de um plano de combate à pobreza menstrual que prevê a distribuição gratuita de produtos a estudantes de acção social escolar, utentes do SNS com insuficiência económica, reclusas e sem-abrigo.

Um projeto piloto nesta escola do Lumiar está a mudar mentalidades sobre a menstruação. Foto: Inês Leote

“A Menarca vai à escola” é uma ode à primeira menstruação (chamada menarca) e ao conhecimento necessário sobre esta fase da vida das pequenas mulheres. Mas não é só para elas, é para eles também, aqueles como Hélder. Porque “conhecer o outro é o melhor método para o respeito”, lembra a diretora do agrupamento Maria José Caldeira.

Em onze sessões, dirigidas a 80 jovens do 8º ano de escolaridade, no âmbito de aulas de Ciências, as atrizes juntaram-se a uma médica para informar mais e melhor sobre a higiene menstrual e distribuir produtos reutilizáveis.

Qual o preço de uma adolescente menstruar?

Não só nestes territórios “socialmente desfavorecidos”, uma escola que recebe crianças e jovens dos vários bairros sociais que a rodeiam, “mas como noutros, às vezes os pais ou as mães não têm uma abordagem tão aberta e informada para com as filhas e filhos sobre a questão da menstruação.” A diretora Maria José Caldeira reconhece a falha.

Maria José Caldeira, diretora do Agrupamento de Escolas do Alto do Lumiar. Foto: DR

Mas o que a deixa mais alerta “é a questão económica”. “Acabamos por ser nós a fornecer os pensos higiénicos e tampões a muitas das miúdas. Algumas porque têm o período pela primeira vez e precisam. Outras porque são pequeninas e distraem-se. Mas umas também na tentativa de conseguir o que a família não dá.”

E não é assunto circunscrito a esta escola. Um estudo de 2020, apresentado na Universidade do Minho, mostra que 16,6% das 445 mulheres portuguesas inquiridas, entre os 25 e os 44 anos, têm dificuldades económicas para a aquisição de produtos de higiene menstrual. A maioria delas licenciadas e residentes na zona de Lisboa, mostrou a apresentação “Conceções de Mulheres Portuguesas Sobre a Menstruação, Higiene Menstrual e Constrangimentos no Espaço Público”, da autoria de Vânia Beliz e Zélia Anastácio.

Também em 2019, os eurodeputados Marisa Matias e Ernest Urtasun apresentaram um relatório no Parlamento Europeu que alertava para o facto de haver uma em cada dez raparigas incapaz de adquirir estes produtos menstruais. Um alerta suportado por dados apresentados no Plan International UK que mostravam que esta condição tinha impacto direto na participação escolar destas jovens.

Num outro canto do mundo, na Nova Zelândia, a primeira-ministra Jacinda Ardern tem vindo a mostrar preocupação com esta relação direta entre a escola e a pobreza menstrual: publicamente, disse que uma em cada doze alunas no país não vai à escola por ter dificuldades de acesso a produtos de higiene feminina.

Sabia que…?
A Escócia foi o primeiro país a disponibilizar de forma gratuita produtos de higiene íntima em escolas e universidades.

E, fazendo as contas, não é difícil compreender do que nos falam: é que, numa vida fértil de 37 anos, desde a primeira menstruação até à menopausa, uma mulher deverá recorrer, em média, a 20 absorventes por ciclo – o que perfaz nove mil absorventes. Se o custo de cada um dos absorventes for dez cêntimos, vai gastar 900 euros.

E já falámos sobre como isso afeta a vida das mulheres sem-abrigo, para quem uma fonte numa praça urbana é a única solução.

A falar, a falar… destroem-se os mitos

Não podem amassar pão ou lavar o cabelo. E há até quem diga que algumas tarefas na cozinha devem estar fora de questão: uma mulher menstruada que bata claras em castelo nunca irá conseguir a densidade necessária das claras, para que não caiam da taça.

São mitos populares que há anos circulam entre nós. E que são quase inquestionáveis em determinadas comunidades, como a cigana.

Tendo isto como premissa, a escola decidiu, além das 11 sessões com os alunos, chamar as mães de etnia cigana, para conversar sobre menstruação. “Uma comunidade para a qual este tema é um tabu e está cheio de preconceitos, como o facto de as mulheres terem de ficar isoladas enquanto estão menstruadas”, conta a diretora da escola. Maria José lembra o espanto gerado de parte a parte. “Abrimos aqui um universo que desconheciam”.

Elas que tomavam como certo que “não podiam tomar banho, que não podiam cozinhar, que estavam num estado impuro. Tudo aquilo que ouvíamos há 100 anos perpetuou. E passou para as filhas.”

Sabia que…?
No anterior Orçamento de Estado, o Estado português baixou a taxa de IVA de todos os produtos de higiene menstrual – os descartáveis e os reutilizáveis – para 6%, tornando-os mais baratos e acessíveis.

Em determinados países, como o Nepal, os mitos deram origem a práticas castradoras como aquela a que chamam “chaupadi”. Este exercício hindu consiste em obrigar as mulheres a viver na rua ou até mesmo em abrigos destinados a animais, enquanto durar o período menstrual, para que a pureza do lar seja preservada.

Por isso, “se é preciso começar por combater mitos, que seja nas escolas”, no início da vida dos filhos e delas, como mães, remata a professora. Para que se quebre o avanço de preconceitos de gerações para gerações e as mulheres possam viver a menstruação com conforto e segurança.

Mas porque “não é só assunto de mulheres”, a escola decidiu juntar rapazes às sessões, para que possam ter mais conhecimento e ganhar empatia perante esta fase da vida das raparigas com quem convivem.

Só numa segunda fase do projeto, dedicada à explicação da utilização dos materiais, ficaram de fora. Cada uma levou para casa um kit, com copos e cuecas menstruais recicláveis. “Se elas todas vão usar copos menstruais?” Maria José Caldeira não está certa. “Mas ficou uma semente, sabem que existe, que pode ser uma solução futura.”

Começar o conhecimento sobre estas matérias pelas escolas deve ser o passo a dar a nível nacional, diz a diretora do Agrupamento de Escolas do Alto do Lumiar. Foto: Inês Leote

A semente já foi plantada nesta escola do Lumiar, que prevê continuar com o projeto este ano letivo. Sobre o futuro da iniciativa, a Câmara Municipal de Lisboa diz que “foi submetida e aprovada, uma candidatura ao Programa Recuperação e Resiliência que irá ter início em breve”, quer para a continuação quer para o alargamento a nível do concelho.


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Catarina Reis

Nascida no Porto há 26 anos, foi adotada por Lisboa para estagiar no jornal Público. Um ano depois, entrou na redação do Diário de Notícias, onde aprendeu quase tudo o que sabe hoje sobre este trabalho de trincheira e o país que a levou à batalha. Lá, escreveu sobretudo na área da Educação, na qual encheu o papel e o site de notícias todos os dias. No DN, investigou sobre o antigo Casal Ventoso e valeu-lhe o Prémio Direitos Humanos & Integração da UNESCO, em 2020.

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2 Comentários

  1. “chamar as mães de etnia cigana, para conversar sobre menstruação. “Uma comunidade para a qual este tema é um tabu e está cheio de preconceitos, algumas ideias quase medievais,” A comunidade cigana está cheia de preconceitos medievais?! Que informação racista da Mensagem!

  2. Olá Mário. A opinião é da diretora da escola, mas retirámos o adjetivo. Fica mais claro a que se refere, assim.

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