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Ouça aqui a conversa, na rua de Catarina Furtado:

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Na Rua da Junqueira, em Belém, com Catarina Furtado

Duas chávenas de chá de gengibre e mel arrefecem na mesa onde já está o gravador ligado. A tarde é fria, os telemóveis dão sinais de mensagem porque a vida lá fora não para e há outras conversas na esplanada a cruzar esta. É neste cenário que nos sentamos com Catarina Furtado, 49 anos, apresentadora de televisão e ativista, para lhe descobrirmos o amor que confessa pela cidade onde nasceu: Lisboa.

Convidámo-la para a rubrica A Minha Rua e Catarina escolheu o lugar “onde os sonhos nascem” e são depois celebrados ali também – a Rua da Junqueira, em Belém, sede da associação humanitária que criou, a Corações com Coroa.

Lisboa é, para si, uma história de amor que começou no gelado de banana e leite que saboreava no Jardim da Parada, em Campo de Ourique, em criança. “Era das coisas mais maravilhosas, a moedinha que os meus pais me davam para ir comprar um gelado, sempre o mesmo”, conta.

Esta é precisamente a primeira memória que tem da cidade: um doce de banana a gelar os lábios e uns olhos atentos à solidão dos mais velhos que passeavam ou paravam pelo jardim. “Reparava sempre neles, no tempo que tinham. E como pareciam sós.” Não será de estranhar, numa cidade ainda tão envelhecida, que os mais idosos façam parte de qualquer cenário de Lisboa.

A vida não tardou muito em Campo de Ourique. Aos nove anos, Catarina já vivia no Bairro Alto, bem diferente do de hoje, aos seus olhos. “Mais multicultural na sua essência”, diz. Pelo menos, na sua perceção, acautela: “É como quando vais a uma casa onde viveste na infância e ela te parece muito mais pequena do que parecia na altura.”

Aquele era o bairro de todos, até “dos que chegavam com um chapéu diferente, um vestido diferente”. Lembra uma “certa excentricidade” que ali existia, nas ruas que viviam ao som das rotativas dos jornais, o lugar de onde saíam as notícias.

Catarina era curiosa pelos jornais, por ouvir as histórias do pai jornalista, mas nunca fez caso da profissão. Nem da da mãe: professora de crianças com necessidades especiais.

Quando lá vivia, estudava no Conservatório de Dança, onde sonhou ser coreógrafa e fez amigas para a vida. Grande parte delas a viver na outra margem do rio. Quando viajavam para o lado de cá, a apresentadora sentia-se “uma espécie de anfitriã” da cidade. E do Bairro Alto, onde tudo parecia acontecer, visto da rua onde brincava ou daquele primeiro andar onde morava.

Catarina viveu na “rua da esquadra da Polícia”, onde viu “o melhor e pior” da sua infância. As prostitutas que ali via serem presas fê-la pensar nos valores pelos quais hoje luta.

Era a mesma rua onde morava um padre que mais tarde veio a casá-la e a batizar os seus filhos. Era “a rua da esquadra da Polícia”, onde assistiu “ao melhor e pior” da sua infância. Contra as memórias bonitas a correr os paralelos da estrada para cima e para baixo, batalhavam as memórias das noites em que prostitutas eram arrastadas por agentes da PSP até à esquadra. “Lembro-me de pensar que não fazia sentido elas estarem a ser levadas e até agredidas por serem prostitutas”, confessa. Aqui, nascia a consciência de uma criança para o direito sobre o corpo.

O Bairro Alto em que cresceu, lembra, parecia-lhe “mais multicultural na sua essência”, mais aberto à diferença. Foto: Rita Ansone

Daquele primeiro andar, muitas vezes ouviu a mãe a chamar o seu nome. Os dias eram passados na rua, onde Catarina perdia a noção das horas, por entre os jogos de futebol improvisados e as corridas de caricas. “Era maria-rapaz”, ri.

A oportunidade de “contactar com a diferença”, criar “essa relação física” (e não digital) com as pessoas do seu bairro foi o que promoveu a inteligência emocional e a capacidade de olhar para o outro que tem hoje, diz. Mas “foi um privilégio” ter uma rua para brincar, numa cidade onde hoje todas elas são tomadas de assalto por carros, noite e dia – embora haja quem tente mudar.

Ainda assim, esta cidadã agora adulta arranja sempre espaço em Lisboa para andar de bicicleta – o seu objeto favorito, a par dos óculos. Desde pequena que o faz, sem medo das quedas, e até partiu dentes nas viagens sobre duas rodas. Admite “ter uma atração pelo perigo” e, por isso, bungee jumping é o seu desporto favorito.

Hoje, no entanto, andar de bicicleta é quase terapêutico – e menos radical. “Todos deveriam andar, ter esse prazer. É como meditar. E permite-nos mais contacto com as pessoas e a cidade, sair daquela caixa que é o carro. Eu gosto disso.”

Apesar de gravar a infância no centro de Lisboa, é em Belém que encontra a sua rua, a Rua da Junqueira. Foi aqui que fundou, em 2012, a casa da sua associação, que tem dado bolsas a jovens que de outra forma não teriam continuado os estudos, além de promover debates sobre direitos humanos. A Rua da Junqueira materializa, por isso, tudo aquilo em que acredita e o papel transformador que quer ter nos outros.

Mas é especial, diz, porque não é uma rua escondida do olhar dos outros. “A minha rua tem que ser sempre uma rua que dá para outras ruas. Tal como o meu mundo não tem fronteiras. Por mais especial que tivesse sido a rua onde cresci, que lá tivesse brincado, dado o primeiro beijo na boca, até o beco onde me apaixonei, esta é a minha rua.” Com vista para outras de Belém, mas também com vista para a margem Sul.

Por cima do café criado pela associação, o CCC Café, vê-se a margem sul do rio. “A minha rua tem que ser uma rua que dá para outras ruas.” Foto: Rita Ansone

Aqui, solidificou um título ganho no ano 2000, quando foi convidada para embaixadora da Boa Vontade das Nações Unidas. Era já apresentadora de televisão em Portugal, contra todos os sonhos de criança. Uma lesão atirou-a da dança clássica para o jornalismo e, por acaso, para a televisão.

Como ativista, Catarina viajou para dezenas de países em desenvolvimento. Viu fome, muita fome; mulheres sem o direito de o serem; crianças a dias da morte; cidades destruídas à procura de se reerguerem. Muito disto retratado na série “Príncipes do Nada”, atualmente em exibição na RTP.

Vais buscar este mundo todo e depois, como olhas para a tua cidade?

“Como amante”, responde. “Eu amo a minha cidade. E, quando chego, percebo que temos que a valorizar. Temos que valorizar a sua luz, que nenhuma outra tem, mas também o facto de ser uma cidade que acolhe – independentemente do racismo e da xenofobia que ainda existem”, diz.

Mas o amor não a cega para as urgências de Lisboa, uma cidade “que está a asfixiar e não está a dar oportunidades a todas as pessoas de aqui viverem”, sobretudo os jovens, que “não têm meios para arrendar uma casa. Isso entristece-me. Os jovens deveriam ter a oportunidade de viver na cidade em que escolhem viver.”

Catarina quer uma cidade mais segura para as mulheres. Foto: Rita Ansone

Tem como ideal uma Lisboa “mais para as mulheres”, que “ainda não o é”. Há “perigos que continuam a atravessar-se a uma mulher” nas ruas da cidade – o assédio, a insegurança – e resolvê-los “não depende apenas de políticas”, acredita, mas de toda a comunidade, que desde cedo deve ser educada para o respeito pelo outro. “As políticas têm que fazer raccord – em linguagem televisiva -, ser compatíveis com esta ideia”.


Catarina Reis

Nascida no Porto há 26 anos, foi adotada por Lisboa para estagiar no jornal Público. Um ano depois, entrou na redação do Diário de Notícias, onde aprendeu quase tudo o que sabe hoje sobre este trabalho de trincheira e o país que a levou à batalha. Lá, escreveu sobretudo na área da Educação, na qual encheu o papel e o site de notícias todos os dias. No DN, investigou sobre o antigo Casal Ventoso e valeu-lhe o Prémio Direitos Humanos & Integração da UNESCO, em 2020.

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