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Eram três ou quatro da manhã. Luísa Gomes não sabe precisar, a esta distância dos acontecimentos, a hora certa daquela madrugada em que despertou do sono, deitada numa rua de Lisboa, com uma hemorragia que lhe escorria pernas abaixo.

Sem abrigo, sem balneários públicos abertos, correu para um chafariz da Mouraria, lavou-se e estancou temporariamente a hemorragia com “vários panos” metidos entre as pernas. “Até conseguir algo melhor para tratar da minha menstruação”, conta a mulher de 54 anos.

Há 20 que Luísa se intitula sem-abrigo. Durante duas décadas prostituiu-se, consumiu drogas e fez tudo para, mesmo sem casa, sem morada fixa, poder pagar um quarto numa pensão. Assim foi, durante estes 20 anos, a saltar de quarto em quarto.

Exceto naqueles dois meses em que viveu nas ruas do Martim Moniz, ao relento. Conheceu o marido, ele pediu-lhe que deixasse a prostituição e acabaram os dias sem dinheiro para um teto. Durante aqueles dois meses, Luísa Gomes viveu os piores episódios como mulher menstruada, sem uma casa de banho à mão.

“As campanhas nem sempre resultam. Hoje pedem e temos, amanhã pedem e já não temos. É uma questão de direitos”

AMÉRICO NAVE, DIRETOR DA CRESCER
(Da esquerda para a direita) Engrácia Santos, Luísa Gomes, Elda Coimbra, Inês Colaço (técnica da CRESCER) e Haj Somai (em baixo) estão a criar um grupo de apoio às mulheres sem-abrigo. Foto: Catarina Reis

No dia em que nos encontrámos, Luísa era outra. Agora, tem uma casa, trabalha e, uma vez por semana, reúne-se com outras mulheres, antes sem-abrigo também, para tentar “mudar um bocadinho o mundo”. É para ajudar todas as mulheres que ainda estão na rua, até no direito à higiene menstrual, que decidiram fundar a associação SOMOS, um grupo ainda sem estatuto oficial, nascido no seio da associação CRESCER.

São elas também que estão por detrás de um manifesto lançado pela CRESCER, com outras organizações, que alerta para a insuficiência de donativos de pensos higiénicos e tampões. Pede, sobretudo, uma rede mais estruturada de apoio à higiene menstrual de pessoas em situação de sem-abrigo.

Uma rede que não dependa exclusivamente da boa vontade de determinadas entidades. “As campanhas nem sempre resultam. Hoje pedem e temos, amanhã pedem e já não temos. É uma questão de direitos”, frisa Américo Nave, diretor da CRESCER.

O preço de menstruar

Luísa sempre soube o que era “precisar de um penso higiénico e não ter”. Nem penso, nem dinheiro para o adquirir. Afinal, uma única embalagem de pensos em Portugal tem um custo médio de dois euros.

Se precisava de pensos higiénicos ou tampões, sabia onde encontrá-los, é certo. “As associações [de apoio aos sem-abrigo] davam kits de higiene com giletes, pasta de dentes, escova, sabão, champô e um ou dois pensos higiénicos.” Mas era naturalmente insuficiente para alguém com o grande fluxo menstrual com que Luísa Gomes lidava todos os meses.

“Ora, uma mulher como eu que tem muitas hemorragias – até já ganhei uma anemia por causa do fluxo menstrual -, imaginem como me serviria um ou dois pensos. Dava para uma hora só. Para cada período, eu gastava dois pacotes de pensos higiénicos e dois de tampões”, lembra.

Luísa Gomes lembra a dificuldade de viver com grande fluxo menstrual e não ter pensos higiénicos. Foto: Catarina Reis

Talvez nem mesmo dar dois euros por embalagem chegasse para Luísa. Um copo menstrual, ainda que mais barato (cerca de 25 euros a unidade, por quase cinco anos de utilização), também não seria alternativa. Neste caso, não é só pelo custo, mas pela necessidade de esterilização do copo, difícil para quem nem sempre tem acesso a água corrente.

“Então e para quem começa a entrar na menopausa… Ui!”, interrompe logo Elga Coimbra, 52 anos, dez como sem-abrigo, entre a rua e os quartos de pensões. Entrou na menopausa quando ainda não tinha um teto – desde há cinco anos, também ela está ao abrigo da Housing First.

A menstruação, incerta na menopausa, fê-la mudar as paragens que fazia pela cidade. “Uma pessoa só quer estar onde há água, um chafariz, uma fonte, qualquer coisa, para nos lavarmos.”

É de Elda Coimbra a ideia de criar a associação SOMOS. Foto: Catarina Reis

Foi nas ruas e quartos de pensões em que dormiu que Elda começou a idealizar a associação SOMOS, um espaço dedicado às mulheres. “Ninguém cuidava de nós, ninguém pensava a sério em nós”, até este grupo ter chegado, diz.

E os riscos?

A melhor solução, para elas, foi sempre remediar. “Arranjamos panos, camisolas, meias, papel higiénico”, lembra a colega Haj Somai, de 49 anos. Ela, uma mistura belga, argelina e francesa, como diz, chegada a Lisboa como turista, de mão dada com o namorado, e por ele abandonada. Ficou, e não disse nada à família, por vergonha.

Daí, somaram-se sete anos na rua – há dois que vive numa casa ao abrigo do programa Housing First. Não imaginou que seria sem-abrigo, não imaginou que o seria durante sete anos e nunca pensou como a simples experiência de uma menstruação fosse algo “tão horrível” nestas condições.

Recorreu a tudo, sem saber os riscos a que estava a sujeitar-se. Lembra a associação CRESCER que a falta de higiene íntima levanta o “risco de desenvolvimento de infeções, nomeadamente infeções urinárias, infeções fúngicas, dermatite vaginal e outras complicações de saúde”.

Haj Somai quer ajudar outras mulheres sem-abrigo a mudar de vida e reconhecer os seus direitos, Foto: Catarina Reis

Uma realidade que bate várias vezes à porta dos hospitais. Diz a mesma associação que esta é “a população que acede mais vezes a unidades de saúde de urgência devido a problemas ginecológicos, que na maioria das vezes estão relacionados com as dificuldades vividas no período de menstruação”.

Pode não ser assunto tabu para estas três mulheres, mas garantem que ainda o é para muitas outras que hoje ainda vivem na rua. “Têm vergonha”, diz Luísa.

Uma vergonha que já levou pessoas menstruadas às urgências de um hospital, como ela testemunhou. “Quando eu estive a fazer prostituição, há 15 anos, para não perderem dinheiro naquilo, havia mulheres que tinham relações mesmo com o período. Punham esponjas das almofadas. Uma destas pessoas foi parar ao hospital, há dez anos, uma miúda com idade para ser minha filha, com uma infeção porque a esponja ficou presa. Mas ela não falava, tinha vergonha. E as pessoas afastavam-se dela, porque já emanava um cheiro a podre. Eu não aguentei, pus-me no lugar dela, e disse-lhe.”

Com um aviso, salvou-a.

“Perdida por 100, perdida por mil? Não pode ser”

Luísa, Elda, Somai querem repetir a ajuda, agora unidas numa associação, para que a ação de salvamento ganhe mais força. O objetivo é organizar uma rede de mulheres que apoiem outras que ainda estão na rua e para quem a palavra de quem passou pelo mesmo pode ser determinante para a mudança.

Elda Coimbra tem uma lição para levar para a rua: “Eu já estive ali, muito mal, e consegui sair. Se eu consigo, vocês também conseguem”. Há dez anos, quando se tornou sem-abrigo, tinha o álcool e as drogas como prioridade. Pela droga, acabou detida na Bolívia.

Depois, na rua, viu a prostituição como sobrevivência. Um mundo do qual traz mazelas físicas. “Somos esfaqueadas, mal tratadas, para que devolvamos o dinheiro no final”, desliza os braços pelo corpo para assinalar marcas. À frente dela, a amiga Somai chora. “Duro”, caracteriza esses tempos pelos quais também ela passou. Tempos em que se sentiram “um objeto e não uma mulher”.

“Gostava de ajudar outras mulheres, dizer que nós somos como elas. Não é querer tirá-las a todas da rua, mas fazer o bem. As nossas irmãs estão a sofrer muito nas ruas.”

HAJ SOMAI, 49 anos

Elda não esquece as violações e a indiferença dos que se aperceberam e nada fizeram, nas pensões por onde passou.

Por isso também, ainda hoje tem medo da noite. “Não saio, não saio.”

Sentem-se inseguras nas noites de Lisboa e concordam que ser sem-abrigo sendo mulher é mais difícil. Mas Elda nunca achou que houvesse respostas suficientes para apoiar as mulheres nestas condições. Foi assim que, ainda na rua, começou a traçar os primeiros passos da associação SOMOS. Depois de ter ganho uma casa pela Housing First, há cinco anos, pôs o plano em marcha.

“As pessoas nesta situação pensam: ‘perdida por 100, perdida por mil’. Não, não pode ser”, Luísa bate na mesa. E Somai ajuda à lição: “Gostava de ajudar outras mulheres, dizer que nós somos como elas. Não é querer tirá-las a todas da rua, mas fazer o bem. As nossas irmãs estão a sofrer muito nas ruas.”

Lembra a associação CRESCER que a falta de higiene íntima levanta o “risco de desenvolvimento de infeções, nomeadamente infeções urinárias, infeções fúngicas, dermatite vaginal e outras complicações de saúde”. Foto: Catarina Reis

No que toca à pobreza menstrual, querem o mesmo caminho que a associação CRESCER promoveu em manifesto. Além do acesso gratuito e disponibilização efetiva de pensos higiénicos e tampões, pedem o acesso a balneários públicos 24 horas por dia.

Mas alertam: nem só os horários são uma preocupação. “Um dos principais obstáculos apontados é o facto de na sua grande maioria, o funcionário responsável pela abertura e gestão (entrega de produtos) dos balneários ser do sexo masculino, existindo uma maior exposição, desconforto e sentimento de insegurança por parte das pessoas que menstruam quando os utilizam.”

Um alerta sublinhado por Elda, que reclama já ter visto “alguém a espreitar por cima da porta” quando utiliza os balneários.

E a higiene não se extingue no respeito, nos acessos e no recursos a pensos e tampões, acrescenta a CRESCER. Além disto, falta garantir “a medicação para controlo da dor e roupa interior”. Apesar de haver lavandarias comunitárias e de acesso gratuito em Lisboa, “a sua utilização implica uma inscrição na Junta de Freguesia (da qual a lavandaria faz parte), sendo um dos requisitos para essa inscrição a existência de uma morada no documento de identificação”.

Algo impossível para alguém em situação de sem-abrigo.

Nem todos os que menstruam são mulheres e nem todas as mulheres menstruam
A CRESCER lembra que, quando o assunto é menstruação, importa lembrar que “existem pessoas com uma multiplicidade de corpos e identidades de género que menstruam e que vão sendo esquecidas e excluídas deste universo”. “Vários estudos internacionais mostram que as pessoas trans, não-binárias, de género fluído e de género não-conformante, entre outras identidades de género, têm uma maior probabilidade de ficarem em situação de sem abrigo por comparação a pessoas cisgénero”.

Portugal começa o caminho, mas lá fora já há higiene gratuita

Todos os recursos de higiene menstrual que chegavam a Luísa, a Somai e a Elda, quando ainda eram sem-abrigo, vinha da solidariedade de entidades doadoras de bens a organizações que trabalham com pessoas em situações vulneráveis. “Mas não chega e chegamos a um ponto em que temos de discutir uma solução eficaz, organizada”, diz Américo Nave, diretor da CRESCER.

No passado dia 8 de março, a Assembleia Municipal de Lisboa aprovou a recomendação da distribuição de produtos menstruais reutilizáveis nas escolas, tendo em vista a extinção da pobreza menstrual na cidade.

Ainda pouco, comparativamente ao que se faz lá fora. E nada para uma das populações mais vulneráveis: os sem-abrigo.

A associação CRESCER lembra como “vários países têm contribuído de forma muito positiva para este combate”. Dão o exemplo da Escócia, que em 2018 aprovou a disponibilização gratuita de produtos de higiene íntima nas escolas e universidades. A política foi seguida pelos EUA, Austrália, Nova Zelândia e Reino Unido. Já em 2020, a Escócia foi mais longe: “alargou a disponibilização gratuita de produtos de higiene íntima a toda a população, sendo pioneira a nível mundial”.

Luísa Gomes não trava o desabafo. “Era tão bom” – leva os olhos ao teto – poder ter sempre um penso à mão ou um balneário aberto. Afinal, “não é por vivermos na rua que temos de sangrar”.


Catarina Reis

Nascida no Porto há 26 anos, foi adotada por Lisboa para estagiar no jornal Público. Um ano depois, entrou na redação do Diário de Notícias, onde aprendeu quase tudo o que sabe hoje sobre este trabalho de trincheira e o país que a levou à batalha. Lá, escreveu sobretudo na área da Educação, na qual encheu o papel e o site de notícias todos os dias. No DN, investigou sobre o antigo Casal Ventoso e valeu-lhe o Prémio Direitos Humanos & Integração da UNESCO, em 2020.

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