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A processar…
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Há muitos anos, era eu miúda, fui convidada para a festa de anos de uma colega numa moradia não muito longe do lugar onde hoje se realiza o Rock in Rio.

Nesse tempo, os aviões que aterravam no Aeroporto da Portela passavam mesmo por cima dessa casa com um ruído tão insuportável que nos obrigava a tapar os ouvidos.

Porém, quando a minha mãe me foi buscar e perguntou à mãe da minha colega como aguentavam aquele chinfrim e não se mudavam para um sítio mais sossegado, a resposta foi que, ao fim de duas ou três semanas de se terem instalado, já se tinham acostumado aos aviões e, passados tantos anos, já nem davam por eles.

Na altura em que vivi junto da linha do comboio que cruza a Avenida de Roma, as duas ou três primeiras noites foram difíceis, mais pela trepidação do que pelo barulho propriamente dito; mas também eu me habituei rapidamente à cadência simpática das carruagens chegando e partindo; e quer o assobio das rodas nos carris, quer o tremelicar dos vidros das minhas janelas, cedo deixaram de ser uma preocupação.

E, contudo, hoje multiplicam-se os protestos e as reclamações por causa dos níveis de ruído em Lisboa…

Ilustração: Deni Aléxia/Lisbon School of Design

Não estou a falar, bem entendido, das brigas ferozes de vizinhos do lado, de adolescentes que põem a música aos berros no andar de cima, de marteladas nas paredes, do arrastar de móveis ou de aspiradores trabalhando a horas tardias.

(Para nos queixarmos desses excessos, há, felizmente, uma linha telefónica da Câmara Municipal de Lisboa.)

A minha surpresa tem mais que ver com o facto de, querendo-se ou não, o barulho já fazer parte integrante do nosso quotidiano há muito tempo, mesmo em lugares onde o silêncio bem podia ser a regra.

Num consultório médico, por exemplo, em cuja sala de espera reinava antigamente o sossego e a minha mãe dizia bom dia ou boa tarde ao entrar, há agora uma televisão sempre ligada, os telemóveis tocam ou recebem notificações a toda a hora, os doentes mantêm conversas telefónicas em voz alta e às vezes até sobra um resto de jogo de vídeo dos phones de algum jovem que não demorará muito a ficar surdo (deve, aliás, estar no otorrino).

O trânsito é outra praga sonora, sobretudo à hora de ponta, já para não falar das sirenes das ambulâncias, das motos novas que precisam de ser mostradas ao mundo e dos carros que são autênticas discotecas ambulantes…

Em todo o lado, somos obrigados à música ambiente; e, no caso dos centros comerciais, ao ruído dos visitantes, que é uma espécie de burburinho de fundo, soma-se uma opção musical diferente para cada loja, isto quando não se lembram de convidar um DJ para animar a tarde de compras numa pracinha ou num corredor.

Até na estação de metro os altifalantes cospem uns acordes para não darmos pelo tempo de espera; e, se ligarmos o rádio do carro de regresso a casa para ouvir as notícias, somos bombardeados por uma publicidade cheia de toques de telefone, sininhos, campainhas e sons psicadélicos que tentam chamar desesperadamente a nossa atenção; se for preciso, até o anúncio aos vidros duplos que protegem do ruído é uma barulheira pegada…

Já há muito que compositores sérios começaram a fazer música para aeroportos, elevadores e intervalos de espectáculos, tentando pelo menos emprestar alguma qualidade ao ruído a que estamos permanentemente sujeitos; Sakamoto fez até uma playlist para um restaurante onde não o deixaram comer descansado por causa da tremenda selecção musical…

Hoje, que estou um pouco surda, vivo num prédio não muito longe do lugar onde se realiza o Rock in Rio; não consigo ouvir as canções, mas os sintetizadores vibram todo o santo dia nas janelas da minha casa…

Não me queixo dos aviões. Talvez sigam uma rota diferente…

Tanto barulho para quê?


Maria do Rosário Pedreira

Nasceu em Lisboa e nunca pensou viver noutra cidade. É editora, tendo-se especializado na descoberta de novos autores portugueses. Escreve poesia, ficção, crónica e literatura infanto-juvenil, estando traduzida em várias línguas. Tem um blogue sobre livros e edição e é letrista de fado.

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