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Em cima da placa onde se inscreve o nº55 na rua das Taipas, ainda é legível, escrito a caneta, um nome curioso: “Vila Martel”. Aquele é um edifício pequeno pintado de cor-de-rosa pálido, com dois andares e águas furtadas.

Passaria despercebido, não fossem as histórias do seu passado: para lá daquela porta, assente na encosta que desce para o jardim de São Pedro de Alcântara e da rua D. Pedro V para a Avenida da Liberdade, instalaram-se os primeiros ateliers conjuntos de artistas de Lisboa. O Pátio Martel que deu origem à Vila Martel – uma vila operária como tantas outras de quando o republicanismo tomou a capital, mas esta dedicada aos artistas.

O nº55 da rua das Taipas foi em tempos a Vila Martel, uma vila de artistas – ainda se vê a placa foreira do que teria sido o edifício anterior. Foto: Inês Leote

Toca-se à porta do nº55. Alguém responde, dizendo que vai descer. Segundos depois, ouvem-se os passos de um morador. É o som que evoca uma descrição de 1944 do jornalista Rocha Martins no Diário de Notícias:

“Sobe-se ao encontro da Glória por aqueles cinquenta degraus, íngremes e difíceis. Os degraus onde moram as recordações de grandes mortos, da sua obra e dos ainda vivos que ali lidaram, sofreram, sonharam e realizaram parte dos sonhos”.  

Rocha Martins, DN – 1944

Aqui habitam as recordações de artistas tão importantes na cidade de Lisboa como Columbano Bordalo Pinheiro (e até mesmo da sua irmã Maria Augusta, que ali abriu uma escola de rendas), José Malhoa, Carlos Reis, Eduardo Viana, Francisco Franco, Jorge Colaço…

E de Nikias Skapinakis, que manteve o seu atelier até 2015.

O quadro de Nikias Skapinakis que descreve a vista da Vila Martel, em 1956. Foto: DR

Foi o primeiro atelier de artistas que houve em Lisboa, onde Rafael Bordalo Pinheiro cozeu as suas primeiras tentativas de cerâmica, D. Maria Augusta Bordalo Pinheiro montou a sua oficina escola de rendas artísticas, e Columbano, amigo íntimo de meu Tio, expôs, aos lisboetas, o seu primeiro quadro premiado em Paris no Salon, o Concerto de Amadores (…)”.

Maria Madalena de Martel Patrício na obra Quando eu era pequenina

O portão verde abre lentamente.

Ali está João Borges, um morador que diz viver ali desde 1978. Ou melhor, desde que se lembra. Ele sabe que aquele edifício, com um pátio nas traseiras, se chama “Vila Martel”. Mas quando lhe perguntam se conhece o seu passado, João abana a cabeça. Não sabe de nada.

É com espanto que João descobre que, ali mesmo, no lugar onde sempre morou, em tempos havia uma vila de artistas.

O chão que ele pisa todos os dias foi onde se pintaram grandes obras, como o retrato de Antero de Quental por Columbano Bordalo Pinheiro.

O retrato de Antero de Quental por Columbano Bordalo Pinheiro. Foto: MNACC

«Pátio do Martel. Um cantinho com uma figueira e malvaíscos. Uma fiada de casas e no extremo o atelier de Columbano. Por trás a quinta. O mestre, pobre e obstinado, fez ali os seus melhores retractos. (…) Por ali passaram também os maiores homens de Portugal, de quem Columbano às vezes fala (…).
Um dia o Columbano ouviu bater à porta, e entrou-lhe no atelier um homem já cansado, de grossos sapatões, apegado a uma bengala, que parecia um bordão de pedinte: ‘- Disseram-me que gostava de fazer o meu retracto e aqui estou.Era o Antero. Parecia um cavador, de meias grossas de lã azul – mas quando falava!… Nunca olhou para o retracto.
– Está pronto?
Foi-se embora como viera…»

Raúl Brandão, in Memórias, 1919. 

Esta é uma história esquecida não só por João Borges, como por aqueles que caminham pelas imediações. “Artistas na Vila Martel? Nunca ouvi nada disso. Aqui mora é gente”, diz um vizinho.

Aquilo que nem moradores nem vizinhos parecem esquecer são os eventos mais recentes: há seis anos, anunciou-se um projeto de demolição desta vila para a construção de um parque de estacionamento do hotel Memmo na rua D. Pedro V, um hotel já de si polémico, por estar semi-encravado numa encosta e ter dois acessos sem ligação entre eles.

O projeto previa 12 pisos de estacionamento, mais dois que se ligariam ao hotel. Da vila, os únicos espaços a preservar seriam precisamente os ateliers.

Os moradores receberam cartas com ordens para sair – ainda o prédio está escorado por uns andaimes por onde abriram um buraco entre dois prédios. Mas entretanto o projeto foi chumbado, tendo em conta “a excessiva volumetria proposta para o novo corpo de unidades de alojamento e estacionamento do hotel”, conforme afirmou Paula Silva, então diretora-geral do Património Cultural, exigindo-se assim a sua revisão.

Porta fechada, e os ateliers inacessíveis. À Mensagem, a Câmara Municipal de Lisboa diz que “deste esta data [2016] não deu entrada na Câmara Municipal de Lisboa qualquer processo referente à área da Vila Martel”.

Vila Martel, uma comunidade de artistas?

A história deste lugar tem como protagonista “uma “figura pequena (…), com a inteligência refugiada no olhar vivíssimo dos seus olhos azuis de míope, que chispavam centelhas por detraz dos vidros das lunetas, que, segundo a elegância do tempo, (…) usava presas por uma elegante fitinha de seda preta, porque o meu tio, era um elegante”.

José Trigueiros Martel por Rafael Bordalo Pinheiro. Fonte: Pontos nos is, Rafael Bordalo Pinheiro

É uma descrição do republicano José Campelo Trigueiros de Martel feita pela sua sobrinha, a escritora Maria Madalena de Martel Patrício, na sua obra Quando eu era pequenina, e que a historiadora de arte Margarida Elias recorda num trabalho sobre o Pátio do Martel.

Foi graças a Trigueiros de Martel, “homem de iniciativa, vindo do estrangeiro com ideias largas”, um dos fundadores do jornal O Século, que, para “refúgio e mansões de trabalho de pintores e escultores”, nasceu o Pátio do Martel, nos terrenos traseiros da casa dos Condes de Castelo Branco, título que fora pela primeira vez concedido a Joaquim Trigueiros de Martel.

Mas como terá surgido a ideia de uma vila de artistas?

A resposta está no Café Bas-Rhin, na boulevard St. Michel, em Paris, onde Trigueiros de Martel passou a sua juventude, rodeado de artistas – e onde acabou por casar com uma francesa, que trouxe para Portugal no regresso.

Nas suas Memórias, Raul Brandão conta que foi em Paris e graças a Martel que nasceu o quadro Um concerto de amadores de Columbano.

Quando o pintor Artur Loureiro sugeriu a Columbano Bordalo Pinheiro que pintasse um quadro para expor no Salon, Columbano respondeu: “Nem dinheiro tenho para a tela”. Foi então que Loureiro pediu quatro libras a Martel e assim nasceu o famoso Concerto. Para o compensar, Artur Loureiro ofereceu-lhe o seu quadro Na Floresta de Fontainebleau.

Martel trouxe a inspiração de Paris para a Lisboa. Ali, na encosta da Glória, criou-se um esconderijo de artistas, um pátio com habitações e ateliers, que remetia para a ideia de uma “vila operária”, “relacionando a atividade artística com a indústria, ou seja, com as artes e os ofícios”, como explica Margarida Elias.

Uma Montmartre secreta, na colina da Glória.

“O nosso jardim unia-se ao grande quintal do meu avô, que ia até à rua das Taipas, onde o meu Tio José Trigueiros de Martel mandou fazer a sua ‘Vila Martel’ com atelier de pintura e escultura onde os mais célebres artistas desse tempo trabalharam (…)”.

Maria Madalena de Martel Patrício na obra Quando eu era pequenina
Carlos Reis no seu atelier na Vila do Martel. Foto: Arquivo Municipal de Lisboa

Em 1900, o Pátio do Martel mudou de designação. Nessa altura, o proprietário do recinto, Simão Trigueiros Martel, ampliou a vila, chamando-lhe isso mesmo: “Vila Martel”.

A vila foi recebendo mais e mais artistas, como Nikias Skanipakis, que não só retratou Almada Negreiros ali, como pintou o quadro Quintais de Lisboa inspirado pela própria Vila Martel.

Ou como o escultor Martins Correia, cujo atelier recebia visitas das mais célebres personalidades: Jaime Cortesão, Sophia de Mello Breyner, Natália Correia.

Não foi só um lugar de arte, mas também de revolução. Nos anos 1950, a vila recebeu as primeiras reuniões da Junta Patriótica da Salvação Nacional (um organismo clandestino que reunia representantes das correntes oposicionistas).

Nuno Rodrigues dos Santos, Mário Soares, Francisco Salgado Zenha e, claro, o próprio Skapinakis (que chegou a ser perseguido e preso pelo regime) fizeram da vila um lugar de intervenção política.

Atelier de Columbano Bordalo Pinheiro. Fonte: O Pátio do Martel, Margarida Elias

Em 1901, o jornalista Teixeira de Carvalho descrevia no DN o Pátio do Martel como uma “enfiada de casas brancas, repousando sossegadamente entre o jardim de S. Pedro de Alcântara (…) e a Avenida. Um local sossegado como uma aldeia onde as casas são pequeninas, enfiadas umas às outras como as contas dum rosário”.

Tudo isso hoje se mantém: transpondo-se o portão verde e subindo as escadas de um túnel, surge uma bifurcação com duas escadarias que dão acesso a nove casinhas pintadas do mesmo rosa pálido do exterior.

É numa delas que mora João Borges, desde sempre.

Mas o estado de degradação também se anuncia: à frente das casas, talhões de terreno com galhos de árvores emaranhados, algum lixo e três gatos que passeiam pelo espaço como sendo deles, abanando as suas caudas.

“Isto já esteve mais cuidado, sim”, admite João.

O cenário da Via Martel, já sem telhados. Foto: Inês Leote

Hotel vs. Vila Martel

Em 2016, foram muitos aqueles que se preocuparam com a Vila Martel. Arquitetos e historiadores de arte insurgiram-se contra o projeto de demolição, defendendo esta vila inscrita na Carta Municipal do Património e classificada como Bem de Valor Patrimonial.

“Não só os ateliers, mas todo o conjunto guarda uma parte da história cultural e artística lisboeta (…) Quase como uma aldeia dentro da cidade, a sua localização, arquitetura e história são únicas e não têm paralelo em qualquer outro lugar da capital”, escrevia Margarida Elias no Público.

Seis anos depois, o esquecimento regressou à Vila Martel. A Câmara Municipal de Lisboa explica que, por se tratar de uma área privada, “qualquer intervenção ou reabilitação da mesma é responsabilidade dos proprietários”. Margarida Elias crê que os proprietários de 2016 se mantêm – a família Trigueiros Martel, incontactável.

Este é, portanto, um cantinho da cidade votado ao esquecimento, sim. Onde as ervas crescem e o lixo se vai acumulando. E onde apenas restam as recordações, para lá da degradação.

Ao fundo do pátio, estão as duas casinhas que eram os ateliers dos maiores artistas de Lisboa: maiores, com dois pisos e janelas.

Raul Brandão recorda:

“Pátio do Martel, um cantinho com uma figueira e malvaíscos. Uma fiada de casas e no extremo o atelier de Columbano (…)”.

Raul Brandão, Memórias

De repente, é como se o presente abrisse caminho para o passado.

Ali, numa dessas casinhas secretas, esteve em tempos o atelier de Columbano Bordalo Pinheiro “cheio de objetos antigos (…) esboços e quadros por toda a parte”, segundo Teixeira de Carvalho.

O que vive hoje dentro das paredes onde Columbano deu vida às imagens? João Borges não sabe. Por vezes vê lá pessoas, mas não tem contacto com elas.

Para ele, o futuro é uma incógnita. Mas algo mudou. Pela primeira vez, João conhece um pouco do passado do pátio onde cresceu. “Eu gosto de saber a História dos sítios”, diz. “Sempre quis saber a História deste”.


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Ana da Cunha

Nasceu no Porto, há 26 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.

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