Foto: Francisco Romão Pereira

A entrada em arco com o número 69 da Rua Coelho da Rocha, em Campo de Ourique, vizinha da Casa Fernando Pessoa, esconde uma vila que, contrariamente a outras que existem em Lisboa, não foi criada para habitação de operários.

O espaço foi cedido por Jaime Gonçalves, seu proprietário, que aí mandou construir estúdios e ateliers para os artistas da época, por influência do escultor Leopoldo de Almeida. Uma vez que, à data da construção deste conjunto de ateliers, não existiam espaços adequados ao exercício da profissão dos artistas plásticos, conforme referido na memória descritiva do projeto, todo o espaço foi idealizado para colmatar esta lacuna e assegurar aos artistas da época um local que reunisse todas as condições para darem asas às suas criações. 

A época era de consolidação do Estado Novo. António Ferro, jornalista e escritor, depois de bastante viajar, em entrevistas que faz a Salazar, fala-lhe da importância da arte como instrumento de divulgação e valorização de um povo, de uma nacionalidade e de um regime, e exerce influência no sentido de levar o ditador a prestar atenção à arte em todas as suas expressões. É criado o “Secretariado de Propaganda Nacional” e é definido um programa estético que tentava conciliar produção artística e ação de propaganda política. A Exposição do Mundo Português, realizada em 1940, na qual é mostrada ao mundo a cultura nacional, é exemplo disso, O Monumento aos Descobrimentos, criado para essa exposição, viria mais tarde a ser esculpido em pedra por Leopoldo de Almeida, primeiro escultor a instalar o seu atelier, em 1944, no espaço que viria a denominar-se Pátio das Três Artes.

Passou a ser dada maior importância à participação dos artistas no domínio público e foram muitas as encomendas feitas pelo Estado Novo. Não havia outra maneira de sobreviver como artista plástico que não fosse através destas encomendas. Não havia galerias nem exposições, não havia feiras de arte, não havia mercado. 

Assim nasceu o Pátio dos Artistas, também conhecido pelo Pátio das Três Artes por ter acolhido escultores, pintores e arquitetos. Por aqui passaram nomes marcantes do panorama artístico português, como Leopoldo de Almeida, Cottinelli Telmo, Manuel Lapa, Eduardo Nery ou Helena Almeida.

 José Eduardo Carvalho escreveu sobre o Pátio, em 2016, na sua obra Campo de Ourique – A Aldeia de Lisboa, Volume II – História do bairro nas histórias da gente, referindo-o como “um lugar especial dentro do Bairro”. “Foi certamente um local de tertúlias e intensa efervescência cultural, pois os ateliers funcionavam como verdadeiras escolas. O Pátio também recebeu o Clube Art e Sport, que organizava ralis e outras atividades, como a filatelia e a Associação Ex-Libris, fundada por Aulogélio Severino Godinho”, lê-se.

 Em algumas das fachadas e empenas dos vários edifícios que constituem esta vila, existem baixos-relevos alusivos às artes, com características marcadamente modernistas ou de Art Deco, que são da autoria do escultor espanhol Juan de Ávalos y Taborda, o qual, durante algum tempo, trabalhou com o escultor Leopoldo de Almeida, no seu atelier.

Hoje, ainda lá existem ateliers de grandes artistas portugueses como António Vasconcelos Lapa, Bárbara Assis Pacheco, Jorge Martins, Manuel Costa Cabral, ou mesmo, mais recentemente, a artista plástica brasileira Roberta Goldfarb, que também ali encontrou o seu espaço de trabalho. Henrique Cayatte, designer e ilustrador, também aqui teve um atelier, que vendeu, e neste momento está a ser convertido em habitação familiar.

Existem ainda ateliers que se encontram fechados ou com muito pouca utilização, à espera de melhores dias, enquanto espaço de trabalho ou de casa, como os que eram ocupados por Helena Almeida ou Eduardo Nery, entretanto falecidos.

Entre a luz e a sombra

Assim que entrámos, do lado esquerdo, num pequeno beco com muitas plantas, incluindo uma frondosa monstera, encontrámos Luís Aragão. Tem 73 anos e é o morador mais antigo do pátio. Veio viver para aqui com 13 anos, com os seus pais, embora nenhum deles fosse artista. “Ainda sou do tempo do escultor Leopoldo de Almeida”, diz. “Na altura, isto era tudo só de um dono e pagavam-lhe as rendas. O dono depois vendeu tudo e comprou quem quis comprar”.

Luís Aragão, 73 anos, é o morador mais antigo do Pátio dos Artistas e é ele que nos guia pelo espaço e conta a sua história. Foto: Francisco Romão Pereira

Luís é uma das pessoas que mais tem acompanhado a evolução do pátio. Recorda-se de coisas que talvez poucos ainda guardem na memória. “Havia um estúdio de gravação de som, o Musicord; ali ao fundo era uma serralharia, trabalhavam lá cerca de trinta funcionários; aqui à direita era a fábrica de rebuçados peitorais Anilusa; temos ainda ali o Clube Arte e Sport, fundado pelo mestre Leopoldo de Almeida, que juntou arte e desporto, mas que agora não funciona”, descreve.

Junto à sua casa, com a porta de entrada mesmo em frente à porta do atelier onde trabalhava Eduardo Nery, conta que, por vezes, quando já era mais tarde e o sentia mais embrenhado no trabalho, ia lá bater à porta para confirmar se estava tudo bem e se já havia jantado.

Começamos então uma visita guiada pelo Pátio dos Artistas, conduzidos pelo prestável Luís. O atelier de António Vasconcelos Lapa tem sempre porta aberta e é um espaço onde coabitam luz e sombra. A luz dá destaque ao que está a germinar. A sombra leva a descobrir o que já nasceu. Aqui, as mãos do artista transformam materiais inertes em seres fantásticos que nos interpelam. É aqui que o artista de cerâmica escultórica cria todas as suas obras de arte, acompanhado pelo seu produtor e “braço direito”, Francisco Janeiro. Estão juntos desde 1983, ano em que se conheceram quando eram os dois professores na mesma escola. O atelier pertenceu ao pai de António, o pintor Manuel Lapa, e neste momento está entregue ao artista e aos seus dois irmãos.

O escultor António Vasconcelos Lapa ocupa o atelier que era do seu pai, o pintor Manuel Lapa, que foi uma importante influência no seu percurso como artista plástico. Foto: Francisco Romão Pereira

António tem uma forte ligação ao espaço, que sempre frequentou na companhia do seu pai. “Quando era miúdo e entrava no atelier do meu pai, ficava fascinado. Os cheiros das tintas, os materiais… Tudo aquilo me fascinava. A minha mãe era escultora, o meu pai pintor, de maneira que este mundo era muito interessante para mim.” Sempre gostou de usar as mãos para criar. Desde miúdo encantava-o pegar num canivete e esculpir pequenos troncos de madeira.

“Isto era mesmo pátio dos artistas, só havia aqui artistas a trabalhar.” Guarda memórias do escultor Leopoldo de Almeida e da sua filha, Helena Almeida, cujo atelier era ao lado do seu. Também se recorda da animação que muitos outros trouxeram a este espaço, como Rafael Calado, que também trabalhou com o seu pai, e outros alunos de Belas Artes, como Manuel Costa Cabral, Eduardo Nery e Flávia Monsaraz, que fazia tapeçaria. Conta que, a determinada altura, o Pátio começou a esvaziar-se e alguns ateliers começaram a ser vendidos, dando lugar a casas de habitação. “Está a perder rapidamente as características que inicialmente tinha.”

Foi aqui que António, a pedido do pai, começou a produzir os seus primeiros trabalhos. “Fazia trabalhos que o meu pai me pedia, trabalhei para coisas muito interessantes, ainda muito, muito novo, muito miúdo, e ele confiava em mim.” Recorda ainda um dos seus primeiros trabalhos, uma escultura em pedra com ação de ácidos, e de todo o processo, no exterior do seu atelier.

“Inspira-me tudo o que vejo, mas principalmente a natureza. Trabalho com as minhas memórias e inspirado no que vi e vou vendo nas viagens”, diz António Lapa, que também tem como fonte de inspiração o neto Vicente. Foi por causa dele que começou a criar seres mitológicos, a partir dos dinossauros e dragões que o miúdo adorava. “Com o meu neto comecei a sair daquela dimensão mais pequena e passei a fazer coisas muito grandes.”

Nas cores também se deu “uma explosão muito grande”. “Estava numa zona mais artesanal. A cor, para mim, funciona como vida, alegria e traduz mais emoções. Vou fazer agora uns troncos com picos e vão ser dourados. Dourado é o esplendor, as coroas dos reis…” As mudanças foram inspiradas pelo neto Vicente, com quem, por vezes, fez mesmo trabalho de equipa.

Neste momento, está a preparar uma exposição que irá realizar-se no próximo ano no Museu Nacional do Azulejo, com obras inspiradas em viagens que fez ao Vietname, Camboja e Sri Lanka.

Francisco Janeiro trabalha desde os anos 1980 com António Vasconcelos Lapa e mantém o otimismo sobre o futuro do Pátio dos Artistas. Foto: Francisco Romão Pereira

A seguir a conversa, está o companheiro de trabalho Francisco Janeiro, que volta atrás para mostrar esperança quanto ao futuro deste pátio. “Não vejo que o pátio morra enquanto Pátio dos Artistas. Novos artistas chegarão para ter aqui os seus espaços de trabalho”.

António não é tão otimista, mas corrobora que este é o espaço ideal para um atelier artístico. “Tem este pé direito enorme, dá para fazer escultura, dá para fazer pintura em grande escala, trabalhos grandes, nasceu com essa intenção. A claraboia também é essencial para dar luz, que é essencial para o nosso trabalho.”

De São Paulo para Campo de Ourique

Continuamos a visita, ao ritmo do passo calmo de Luís Aragão, que assinala ali ao lado o atelier onde o escultor Leopoldo de Almeida trabalhava, e mais tarde, a sua filha, Helena Almeida, uma das mais importantes artistas plásticas portuguesas.

Seguimos e, circundando um pequeno quarteirão de ateliers e habitações, encontramos o atelier de Roberta Goldfarb, artista plástica brasileira que trocou São Paulo por Lisboa, há dois anos, em busca de uma melhor qualidade de vida, para si e para a sua família.

Descobriu o Pátio dos Artistas no seu primeiro mês em Portugal, quando foi ao espaço do Clube Arte e Sport, para uma aula de yoga. Caiu de amores pelo pátio e quando um dos imóveis foi posto à venda agarrou de imediato a oportunidade.

“As características iam mesmo ao encontro do que eu procurava enquanto atelier, o espaço era perfeito. É um lugar muito especial, no meio da cidade, no meio de Lisboa. É uma preciosidade. O ambiente é especial, tem o silêncio, e permite-me trabalhar de portas abertas, o que, para mim, vinda de uma cidade como São Paulo, que é uma loucura, em que não se pode deixar nem uma porta aberta, já é só por si uma inspiração”, diz, revelando o projeto especial que tem em mãos: “É uma instalação com flores que tenho recebido dos meus filhos ao longo dos anos. Vão ficar em tamanho gigante. Vou montar uma floresta.”

Um pátio dos artistas que pode deixar de o ser

Mais à frente, no nº 5, é o atelier de Manuel Costa Cabral, pintor e professor, um dos fundadores do Ar.Co, Centro de Arte e Comunicação Visual, que foi também diretor do Serviço de Belas Artes da Fundação Calouste Gulbenkian.

Manuel trabalha no primeiro andar e, embora, de acordo com Luís Aragão, já pouco ser visto por aqui, tivemos a sorte de o encontrar e ser recebidos no seu atelier.

Bancada de trabalho onde o pintor Manuel Costa Cabral prepara as suas tintas. Foto: Francisco Romão Pereira

A primeira coisa que vemos é a pequena bancada onde Manuel “cozinha” as próprias tintas com gema de ovo. É com esta técnica de têmpera de ovo que Manuel gosta de realizar os seus trabalhos. “Dá muito mais trabalho”, diz ele, mas o artista não dispensa esta culinária e a qualidade que confere à pintura.

Na parede, uma folha espera pela tinta para ganhar vida. Será um dos próximos trabalhos, sobre o qual ainda pouco pode revelar, a não ser que é inspirado num poema chinês sobre a cor e a vida. “É um projeto com umas raízes muito simples que surgiu, por acaso. Isto inspirou-me para que fizesse uma tradução material entre cores que o poema transmite. Gostaria que a exposição fosse uma instalação e não só a ilustração de um poema, gostaria que fosse a montagem tridimensional de um poema”. 

É provável que só a termine quando terminar a pandemia. Não é que não pudesse ser antes, mas um artista tem os seus tempos. “Pode ser psicológico só, mas é uma preguiça pandémica. Também não tenho pressa…”, diz, acrescentando “não digo que será o último”.

Manuel Costa Cabral trabalha aqui desde o início dos anos 1980, embora a sua ligação ao pátio remonte aos anos 1960, quando trabalhou com Manuel Lapa, seu professor na Escola de Belas Artes, e, com Rafael Calado e António José Guerra Ferramentas, formava uma equipa de designers que fazia a produção gráfica de exposições, como a da Feira das Indústrias, para a exposição de Portugal no Rio de Janeiro, em 1965, ou ainda a de turismo em Moçambique, em 1966. Tempos, equipa e ambiente de trabalho que recorda como “fantásticos”.

A este atelier, espaço tripartido inicialmente ocupado por Graça Costa Cabral, sua falecida esposa, Carmo D’Orey e Flávia Monsaraz e que hoje conta com as mesmas divisões, embora só a sua seja utilizada como atelier artístico, chegou por volta de 1983. “A minha grande produção de pintura, com maior volume e expressão, foi feita toda aqui neste espaço, nos anos oitenta. Tive a minha primeira exposição em 1989 na Galeria Diferença. A partir dos anos noventa, comecei a utilizar o espaço mais como escritório e local de armazenamento e arquivo”, conta, revelando que “sempre teve uma atração muito grande pela pintura, por tirar o branco à folha. Parece-me que há uma noção assim um bocadinho perentória e ousada de pensar que faz falta fazer aquilo, faz falta que aquilo exista… Se calhar não faz, mas há uma certa familiaridade com aquilo que se faz, que apetece fazer. Eu nunca tive uma atividade de pintor num sentido exclusivo, como me interessei muito pelo ensino, a criação da escola (Ar.Co) acabou por ser também um ato criativo.”

Manuel antevê que o Pátio, como foi pensado e como hoje o conhecemos, tem tendência a desaparecer. “Ainda pensei comprar aqui o nº 3, para fazer casa e atelier, mas não dei esse passo”, diz, contando que, neste momento, lhe interessa fazer projetos com obras que fez e nunca expôs e deixando no ar a possibilidade de realização de uma exposição em comum com os vários artistas do Pátio, ideia que se lhe afigura interessante, mas não sabe se será realizável.

Arte e casa, dois em um

Com os pés de volta ao passeio, Luís Aragão conta que, recentemente, o pátio sofreu obras de remodelação. O antigo chão, em alcatrão, já tinha muitos buracos e havia muitas roturas de água e foi substituído por calçada portuguesa. Dobramos a esquina e temos em frente o espaço de Bárbara Assis Pacheco.

No espaço amplo do seu atelier, destaca-se uma parede marcada por uma mescla de cores, vestígios de criação. Bárbara cresceu em Campo de Ourique, a dois quarteirões do Pátio dos Artistas, aonde vinha por vezes passear.

“Comecei a trabalhar num atelier que criei em casa da minha avó. Quando ela faleceu, a casa ia ser desfeita e comecei a procurar um atelier. Foi um vizinho aqui do pátio, o Manuel Costa Cabral, que também é pintor e conhece toda a gente, que me disse que estava aqui um atelier à venda. Isto aconteceu no fim de 2008 e no ano seguinte a minha família achou que valia a pena e comprámos. Em 2010 esteve em obras e comecei a vir para cá no princípio de 2011.” 

Do atelier fez também casa, em mezzanine, repondo o espaço original e deixando tudo aberto: “faz muito frio, mas é mais giro.” Quando veio para cá, já quase não havia artistas, e cada vez há menos, conta. “Atualmente, vivem aqui algumas famílias que compraram os espaços e os transformaram em casas de habitação. Faz parte da passagem do tempo e, neste caso particular, é natural uma vez que não há qualquer regulamento de uso nem classificação patrimonial do pátio. Eu tenho pena, como tenho pena de muitas outras mudanças que vejo no mundo, mas faz parte e tenho que aceitar”, diz Bárbara.

Casa atelier de Bárbara Assis Pacheco. Foto: Francisco Romão Pereira

Lembra-se que quando vinha aqui passear, o portão estava sempre aberto, tal como hoje, e deseja que assim se mantenha. Valoriza espaços como este, que também existem noutras cidades, como Paris. Partilha a sua inspiração e a sua arte com António Lapa, visitando-se mutuamente e aproveitando a proximidade para partilhar o espírito artístico e criativo. 

A artista, que se descreve como alguém que “faz desenhos e coisas”, revela que é a curiosidade que a move, “coisas insólitas e normalmente relacionadas com animais. Sempre gostei de animais, não fui para Veterinária porque seria impossível praticar atos médicos, isso não, só cuidar. E, além disso, o que me inspira são os cabinet de curiosités. Tenho aqui uma imagem de um livro do Museu Rembrandt, em Amesterdão, e há aqui uma coisa pequenina cheia de animais embalsamados e coisas penduradas, e era isto que eu gostaria de ter, um cabinet de curiosités.”

Acredita que a paixão pelos animais, tal como o gosto por desenhar, são comuns a todas as crianças, e que ela nunca perdeu esse lado. Os suportes que escolhe para desenhar ou pintar nem sempre são os convencionais e isso pode observar-se em alguns dos seus trabalhos. 

Destaca como obra que lhe deu especial prazer um desenho a tinta-da-china de uma elefanta em tamanho natural para uma exposição na galeria Porta 33, no Funchal, e que ficou lá. “Ainda foi feita no outro atelier, em casa da minha avó, num pátiozinho, por entre vasos de flores”. Também tem um carinho especial por um pequeno urso tridimensional, elaborado com restos de peles e que, resguardado numa vitrine, permanece no atelier sem nunca ter sido exposto. 

O artista plástico Jorge Martins tem morada e atelier no Pátio dos artistas há quase trinta anos. Foto: Francisco Romão Pereira

Vizinho de Bárbara é Jorge Martins, pintor e artista plástico. Jorge Martins viveu em Paris durante 30 anos e, quando voltou, veio viver e trabalhar para o Pátio dos Artistas. Tem aqui a sua morada desde 1992 e, posteriormente, quando a sua casa começou a ficar pequena para trabalhar, comprou então um armazém que estava praticamente fechado, em frente à porta da sua casa, onde fez o seu atelier.

Antes de ir para França já conhecia vagamente o espaço, através de um amigo que lhe tinha falado do Pátio. Foi quando voltou para Portugal que surgiu a oportunidade de ir para ali viver e conta-nos que já não havia muitos artistas, havia sim escritórios e estúdios de gravação. “Nos anos 1940 terá sido quase cem por cento ocupado por artistas, mas depois foi mudando ao longo dos anos”, diz.

Na opinião deste artista cuja inspiração “vem sem saber de onde nem porquê”, o Pátio terá sempre, no entanto, “um núcleo de três ou quatro” artistas, alguns “que chegaram recentemente e que vão com certeza ficar muito tempo”, e outros novos que hão de chegar.

As portas continuam abertas

Quase a chegar ao fim da visita guiada pelo Pátio dos Artistas, encontramos o estúdio de Mariana Amaral e da sua família. A ligação de Mariana Amaral ao pátio aconteceu de forma involuntária e curiosa. Foram as circunstâncias da vida que teceram o vínculo que hoje tem com este espaço. 

A sua relação com este lugar já vem de há muitos anos. A primeira vez que aqui entrou era uma jovem modelo de uma agência que tinha aqui a sua sede. Recorda-se ainda do casting, da fotografia publicitária, de toda a produção que aqui realizou. Há cerca de sete anos, procurava casa e mostraram-lhe um estúdio de fotografia semiabandonado, cheio de humidade e nada acolhedor. Tinha acabado de ser mãe pela primeira vez e não se sentiu entusiasmada. Atualmente, valoriza a visão do marido ao reconhecer o potencial deste espaço que é hoje a sua casa de habitação e uma sala de ensaio de teatro amador e artes performativas. 

Mariana Amaral pertence a outro ramo da arte. É uma atriz que, além do palco, escolheu os bastidores e, atualmente, é aí que coloca toda a sua energia e criatividade. Diz que o gosto pelo teatro sempre esteve presente na sua vida. Em pequena o avô chamava-lhe “a palhacinha”. Era muito atenta e observadora, captava facilmente vozes de atrizes de telenovelas e imitava-as. Era a artista da família, mas ninguém na família pertencia ao meio e, aos dezoito anos, não teve apoio nem incentivo para escolher esse caminho.

Crê que, para ser-se ator, “é preciso ter uma certa maturidade emocional”, e foi depois de passar pela rádio e pela televisão que decidiu entrar para o Conservatório, aos vinte e sete anos. Aí sim, sentiu a convicção de que a “sua alma pedia teatro”. Também estudou representação em Nova Iorque e fez o terceiro ano do Conservatório, através do Programa Erasmus, em Madrid.

Tem paixão pelo trabalho de atriz, mas também se sentia vocacionada para ensinar. Aliando esses talentos ao gosto por trabalhar com crianças, criou a BobbidiBoo – Cursos de Teatro para Crianças. Tem desse projeto, que   desenvolveu antes de ter filhos e ao qual dedicou toda a sua energia criativa e maternal, ótimas recordações. Também nessa época, em parceria com a Artlier, começou a dar aulas a adultos.

Há cinco anos, após concluir as obras de recuperação, veio viver para o Pátio dos Artistas e criou a “Companhia da Chaminé”, um espaço criativo onde dá aulas e orienta grupos de teatro amador. O nome escolhido para este projeto teve origem numa verdadeira chaminé industrial que se encontra nas traseiras do pátio, pertencente à pastelaria A Tentadora, e também na simbologia da palavra que, segundo Mariana, significa “transformação, queimar o que não interessa, libertação”, e é isso que gosta de passar às pessoas com quem trabalha. 

Aqui todos podem libertar-se de preconceitos ou realizar antigos sonhos. Não são precisos grandes talentos e o espírito é de dar a toda a gente a oportunidade de fazer teatro. É frequentado por crianças, desde os três anos, até adultos de setenta. Proporcionar a todo este público formação na área da representação e levá-lo a um palco torna-se tão compensador como estar ela própria a representar. Mariana considera um privilégio habitar este espaço e também ela contribuir para que se mantenha mais um atelier dedicado à arte, neste caso ao teatro amador.

Terminada a visita e com a mulher a chamá-lo para o almoço, Luís Aragão não se despede sem nos mostrar alguns catálogos que guarda com carinho, oferecidos por Eduardo Nery. O prazer de viver no Pátio dos Artistas passa pelo convívio com os criadores que por lá passaram o marcaram o espaço.

Pedro Costa, Presidente da Junta de freguesia de Campo de Ourique, reconhece o Pátio dos Artistas como um marco do bairro, mas lembra que é propriedade privada. Não há atualmente qualquer debate iniciado, de que tenha conhecimento, em matéria de classificação patrimonial, mas na opinião do autarca, que consideraria muito interessante que esse debate se travasse, “um espaço desta natureza não deverá ser classificado, sem uma participação fundamental dos moradores/utilizadores.”

O portão com o número 69 da Rua Coelho da Rocha, em Campo de Ourique, continua aberto. Às visitas e à criação.


* Francisco Romão Pereira tem 26 anos e é fotojornalista. Nascido e criado no Alentejo, na vila de Amareleja, trocou há 8 anos a paisagem alentejana por Lisboa, apesar de manter a pronúncia. Estudou Audiovisual e Multimédia e estagiou no jornal Observador e, mais tarde, no Público. Continua a perder-se em ideias e a encontrar-se pelas ruas de Lisboa, que cada vez mais o acolhe como a sua outra casa.

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11 Comentários

  1. Obrigada por esta preciosa informação !Arte e Cultura so nos enriquece !Faço questão de conhecer e visitar !

  2. Há arte e cultura em Portugal ! Obrigada por me darem a conhecer que no bairro onde nasci, existe este Pátio dos Artistas.

  3. Adorei esta preciosa informação
    Adoro e faço escultura e adorava ter um espaço para poder realizar o meu maior sonho. Fiquei com a “pulga atrás da orelha”e gostava de saber mais informações sobre a aquisição de espaço.

  4. A minha experiência de trabalho e convivência no(s) atelier / ateliês no “Pátio” foi muito importante. Muito devo a quem ajudou a conhecer e experienciar condições que, com outras, tiveram um papel fulcral nas vivências e evolução pessoal, e como “iniciado”, estudante então – da(s) causa(s) – da Pintura na ESBAL e de fora dela sobretudo! (1960/61/62/63 no “Pátio”).

  5. Obrigada por darem a conhecer tão interessante informação! É certamente um lugar a conhecer.

  6. Foi num destes atelliers que tive a minha introdução ao Golf, onde o prof. Carlos dava aulas, nos anos 80.

  7. Excelente artigo, muito bem estruturado, e sobre a minha Lisboa, parabéns ao autor do texto, e que continue a divulgar os seus trabalhos. Parabéns.

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