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Desde o início de setembro que a chuva de críticas ao funcionamento do sistema de bicicletas partilhadas de Lisboa não acalma. O final das férias de verão e o regresso ao trabalho e às aulas coincidiram com uma queda abrupta no número de bicicletas disponíveis na rede de bicicletas partilhadas da cidade – as Gira.

Escassez de bicicletas nas estações da rede Gira, nesta quinta-feira, 20 de outubro.

Curiosamente, a falta de bicicletas não tem diminuído o ritmo de inauguração de novas estações, facto que pode estar a dificultar ainda mais o acesso.

Aliás, as dificuldades não se devem à falta de utilização das bicicletas, muito pelo contrário. As bicicletas partilhadas de Lisboa continuam a bater recordes de utilização. A EMEL, que gere a operação do sistema, comunicou este mês que tinha sido batido o recorde de viagens anuais, quando ainda faltavam cerca de três meses para o final do ano: dois milhões de viagens realizadas.

Com uma média diária de sete mil viagens, o sistema Gira está a atravessar um período conturbado. A EMEL, empresa municipal, assume:

“A rede Gira está a registar um aumento de utilização sem paralelo nos últimos 5 anos” com o “dobro de viagens diárias face a 2019”.

EMEL

Em setembro deste ano, foram realizadas 250 mil viagens – mais 38% face a setembro de 2021, quando foram realizadas 180 mil viagens.

O sistema está a viver “dores de crescimento”, assume a EMEL.

Mais estações e menos bicicletas? A agulha no palheiro

A verdade é que há menos bicicletas na rede do que no verão. A 30 de setembro, o sistema tinha 803 bicicletas em operação face às 1075 bicicletas em operação registadas no dia 24 de agosto – uma queda de 25%.

Nas últimas semanas, os utilizadores têm reportado diariamente dificuldades em encontrar bicicletas – isto porque apesar da diminuição, continuam a ser inauguradas estações, tornando mais difícil a tarefa de encontrar uma bicicleta disponível.

Apesar de múltiplos relatos de falhas no funcionamento do sistema e de bicicletas insuficientes, a procura pelas bicicletas Gira está a bater recordes. Foto: Inês Leote

No dia 30 de setembro abriam oito novas estações Gira, com mais 189 docas de ancoragem de bicicletas. E já no início desta semana era inaugurada outra estação, em Santa Apolónia. As nove estações totalizam 220 docas, num aumento que não é acompanhado por um acréscimo no número de bicicletas disponibilizadas.

Apesar de a expansão geográfica da rede possibilitar, teoricamente, o acesso às bicicletas públicas partilhadas em mais pontos da cidade, a realidade é que sem o aumento do número de bicicletas, é hoje mais difícil encontrar uma Gira para pedalar.

A EMEL garante que, apesar de nas últimas semanas o sistema disponibilizar um número de bicicletas inferior a 850, há uma frota de cerca de 1600 velocípedes na rede. Mas admite que no total, estão “700 bicicletas em oficina para manutenção”.

A empresa municipal de mobilidade explica que há dificuldades na cadeia de fornecimento de componentes e matérias primas, e fala igualmente numa crise de mão de obra.

Nas oficinas do sistema Gira, em Cabo Ruivo, encontram-se cerca de 700 bicicletas para manutenção. A EMEL justifica a falta de bicicletas na rede com a dificuldades na cadeia de fornecimento de peças e matéria prima e com a falta de mão de obra. Foto: Orlando Almeida

Em resposta a questões colocadas pela Mensagem, a EMEL revela estar “a trabalhar para ultrapassar estes constrangimentos” e explica ter em curso “um processo de recrutamento de técnicos e mecânicos, a par de dois procedimentos concursais para a aquisição de bicicletas elétricas e peças e componentes para eletrificar as bicicletas convencionais”.

Entre os dias 11 e 19 deste mês, foi publicada no portal BASE, a celebração de 10 contratos de prestação de serviços à EMEL para o “fornecimento, de forma faseada, de peças/componentes para as bicicletas que integram o sistema de bicicletas públicas partilhadas (SBPP), da cidade de Lisboa”.

O valor destes contratos, com prazo de execução de dois anos, é de cerca de 657 mil euros.

“Garantir mais bicicletas antes de investir em mais estações”

Para Mário Alves, engenheiro civil e especialista em transportes e mobilidade suave, esta crise do sistema, que tem como causa o facto de existirem “poucas bicicletas disponíveis para o número de estações e docas”, cria uma certa desconfiança. “O utilizador começa a encontrar com frequência estações sem bicicletas. É grave, porque reduz drasticamente a confiança no sistema”. Ou seja, “é fundamental existir sempre um equilíbrio entre o número de docas e o número de bicicletas.”

O padrão da indústria indicado no guia de planeamento de redes de partilha de bicicletas do Institute for Transportation and Development Policy (ITDP), organização norte-americana de promoção de transportes públicos e da mobilidade ciclável diz que o número total de docas de um qualquer sistema de bicicletas partilhadas “deve exceder o número de bicicletas num rácio aproximado de duas para uma”.

Na passada terça-feira, encontravam-se em operação, segundo dados disponibilizados pela EMEL e organizados pelo portal ciclovias.pt,

  • 828 bicicletas,
  • distribuídas por 139 estações,
  • e 2719 docas.

Os números das últimas semanas traduzem-se num rácio de 3,3 docas por cada bicicleta, um valor substancialmente abaixo das recomendadas “2-2,5 docas por cada bicicleta em serviço”.

Atualmente, o número de bicicletas disponibilizadas na rede é 40% inferior ao recomendável para sistemas de bicicletas partilhadas. Para que se verificasse um rácio de uma bicicleta por cada duas docas, a rede Gira deveria estar a disponibilizar cerca de 1360 bicicletas, o que se traduz numa escassez de aproximadamente 500 velocípedes.

O guia norte-americano revela que o sistema de bicicletas partilhadas de Paris, o Vélib, apresenta um rácio de 2,4 docas por cada bicicleta, o de Nova Iorque , o CitiBike, 2,5 e o da Cidade do México 2,2.

“Se o número em Lisboa é 3,3, o investimento deverá ser feito de forma a garantir mais bicicletas disponíveis, antes de investir em mais estações”, afirma o especialista.

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Entre levar as Gira a todas as freguesias e uma queda de 75% no investimento na rede

Em setembro, a Câmara Municipal de Lisboa (CML) anunciou a intenção de expandir o sistema público de bicicletas partilhadas a todas as freguesias da cidade até 2025, incluindo Marvila, onde atualmente não há estações Gira e onde não entram trotinetas ou bicicletas partilhadas de outros operadores.

O aumento do ritmo de abertura de novas estações verificado nas últimas semanas e o anúncio da intenção de expansão da rede podem vir a esbarrar na diminuição do investimento previsto na rede.

A Gira, tem sido “extremamente importante para alterar comportamentos e encorajar novos utilizadores a experimentar pela primeira vez o uso regular da bicicleta na cidade. Foto: Inês Leote

É que o Plano de Atividades e Orçamento (PAO) da EMEL, com assinatura de 17 de novembro de 2020, para o período 2021-2024, previa um investimento na rede Gira, a quatro anos, de cerca de 12,4 milhões de euros.

Pouco mais de um ano depois, em janeiro deste ano e já sob novo executivo camarário, era publicado novo documento com um novo Plano de Atividades e Orçamento da EMEL, para o período 2022-2025, com investimento previsto na rede Gira 75% inferior: apenas 3,1 milhões de euros.

O investimento total previsto para a totalidade da operação da EMEL também desceu, mas numa proporção consideravelmente inferior. Se no PAO 2021-2024 se previa um investimento de 97,1 milhões de euros, no PAO 2022-2025 o investimento previsto desceu para os 84,8 milhões, uma queda de apenas 12,7%.

Miguel Gaspar, vereador sem pelouro na CML e anterior vereador com a pasta da mobilidade denunciou no Twitter a abrupta descida no investimento previsto da EMEL na rede Gira.

Mário Aves diz que “reduzir o investimento nesta fase em que as Gira estão a precisar de mais apoio pode sair extremamente caro à cidade”. A Gira, tem sido “extremamente importante para alterar comportamentos e encorajar novos utilizadores a experimentar pela primeira vez o uso regular da bicicleta na cidade, um eventual desinvestimento no sistema pode levar a que diminua ainda mais a confiança que os lisboetas têm nas Gira.” No limite, pode chegar-se a “um ponto de não retorno”, colocando “em perigo todo o investimento feito desde o início”.

Desde 2017, quando o sistema foi lançado, que a importância das bicicletas Gira no panorama da mobilidade da cidade tem vindo a ganhar importância.

Em outubro de 2020, eram responsáveis por 27% de todo o tráfego de bicicletas na cidade de Lisboa, segundo contagens realizadas pelo Instituto Superior Técnico (IST) para a CML.

Reparação de bicicleta Gira nas oficinas da EMEL em Cabo Ruivo. Foto: Orlando Almeida

No seguimento das recentes críticas ao funcionamento do sistema e aos receios de desinvestimento, os vereadores do PCP, Bloco de Esquerda e Livre na CML apresentaram recentemente propostas tendo em vista o aumento do investimento e a melhoria no serviço prestado pelas bicicletas públicas da cidade.

Em reunião de câmara, no passado dia 12 de outubro, foram aprovadas propostas que preveem a ida da nova administração da EMEL a reunião de câmara, “para apresentar o estado atual do sistema e operação, da taxa de execução da verba prevista no Orçamento de 2022, dos Planos de Expansão da Rede Gira e uma análise dos problemas reportados pelos utilizadores e respetivas soluções”.

Foi ainda aprovada uma recomendação à empresa municipal de mobilidade, para que esta execute “com urgência” as verbas orçamentadas para o sistema Gira, “através do lançamento de procedimentos para aquisição de bicicletas, de componentes e contratação de mão de obra”, bem como uma recomendação para “reforço significativo” do investimento na rede.


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Frederico Raposo

Nasceu em Lisboa, há 30 anos, mas sempre fez a sua vida à porta da cidade. Raramente lá entrava. Foi quando iniciou a faculdade que começou a viver Lisboa. É uma cidade ainda por concretizar. Mais ou menos como as outras. Sustentável, progressista, com espaço e oportunidade para todas as pessoas – são ideias que moldam o seu passo pelas ruas. A forma como se desloca – quase sempre de bicicleta –, o uso que dá aos espaços, o jornalismo que produz.

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