culpa colonialismo
Ilustração: Lia Ferreira

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Durante vários anos, no vaivém entre a casa e o trabalho, passei ao lado do largo de São Domingos. Por ser contíguo ao Rossio, é um espaço sem grande protagonismo e mesmo entre os lisboetas haverá quem não o consiga identificar.

O largo tem um memorial inaugurado em 2008 que também poucos conhecem, talvez por não se elevar acima da cabeça dos transeuntes.

Trata-se de mais de meia esfera de pedra, menos volumosa do que um elefante bebé, com a estrela de David no plano de corte, dentro da qual se lê: “Em memória dos milhares de judeus vítimas da intolerância e do fanatismo religioso assassinados no massacre iniciado a 19 de Abril de 1506”. 

Na base do monumento, há ainda uma inscrição do livro de Job: “Ó terra não ocultes o meu sangue, não ocultes o meu clamor”.

Leio e ouço que este episódio trágico da cidade é pouco conhecido, mas o reparo tem sido feito tantas vezes desde 2006 que já não será verdadeiro. Por mérito da pequena comunidade judaica, a matança dos Judeus ou o Pogrom de Lisboa é hoje um episódio bem divulgado, o que não temos é muita gente com vontade de o lembrar.

A este mea culpa simbólico de Portugal, que veio com mais de 500 anos de atraso, seguiu-se a lei da atribuição da nacionalidade portuguesa aos descendentes dos Judeus expulsos de Portugal por D. Manuel I. A lei era de tal forma relaxada nos critérios e período de atribuição da nacionalidade que levou a inevitáveis  perversões.

É possível que o desequilíbrio entre a modéstia e discrição do pedido de desculpa pelo Pogrom de Lisboa e a generosidade da atribuição da nacionalidade aos descendentes dos judeus seja um indício da nossa falta de prática nestes exercícios de reparação histórica.

Há umas semanas, José Pacheco Pereira escreveu o “Eu não tenho que pedir desculpas pelo crime de Wiriamu”, texto em que defende que a culpa colectiva deixa impunes os responsáveis directos. 

Este branqueamento ou equiparação da culpa colectiva à nacionalização da dívida (monetária) de uns poucos cidadãos privilegiados foi também defendido por Hannah Arendt a propósito do exemplo incontornável sempre que se discute este assunto: a Alemanha depois da Segunda Grande Guerra Mundial.

Terá Pacheco Pereira razão ao criticar a ausência de culpados pelos crimes de Wiriamu, mas ao fazer um processo de intenções acabou por esvaziar um dos raros actos de contrição de Portugal e confundiu a culpa política (a colectiva) com a culpa moral, uma culpa que Pacheco Pereira, o leitor e eu não temos obviamente de assumir a propósito de Wiriamu, nem tal nos é pedido quando um dirigente nosso pede desculpa em nome do Estado.

Portugal foi uma potência colonial e o principal agente no comércio de escravos durante vários séculos. Este continua a ser um assunto que causa desconforto, sendo simpática a visão cândida dos “brandos costumes” e do lusotropicalismo inventor do mulato, uma criação de colonizadores cheios de amor e imaculados, ao invés dos colonizadores cruéis e insalubres como — claro — os espanhóis, que mataram com a espada, o arcabuz e as doenças novas levadas da Europa para as Américas.

Esta visão negacionista e fantasista, muito assente no papel pioneiro de Portugal na iniciação do fim da escravatura, não é recente, nem sequer uma particularidade nossa, sendo até contemporânea da própria história que pretende camuflar, como se lembrou com pertinência durante a polémica de 2018 sobre o nome “Museu das Descobertas”.

Recente será a vontade de lidar com estas feridas, porque é esse o sentido da historiografia internacional e portuguesa, e há hoje vozes de políticos e activistas, artistas e intelectuais afro-descendentes que não deixam o tema morrer.

Mas está por explicar se o atraso na construção do “Museu das Descobertas” e do Memorial em Homenagem às Pessoas Escravizadas se deve a alguma resistência em concretizar o mea culpa sobre o passado esclavagista.

De Pacheco Pereira ao cidadão anónimo que logo responde que entre os africanos também havia escravos ou com outro qualquer argumento batido e reaccionário, estranha-se a falta de apetência para as manifestações de culpa colectiva.

Os crimes cometidos nas guerras de África e o passado de negreiros e esclavagistas deveriam ser muito menos difíceis de gerir do que os crimes de uma guerra civil, como a espanhola e a do Ruanda, em que só com algum grau de esquecimento q.b. a reconciliação de um povo é possível. E do Brasil de Lula à Bélgica do rei Filipe, acumulam-se os pedidos de desculpa modernos a populações escravizadas.

Assim, o que incomoda mesmo nas declarações de António Costa em Moçambique sobre Wiriamu ou no pedido de desculpas de Marcelo sobre a escravatura é a falta de investimento no acto. Para que serve o Protocolo de Estado se pomos mais saber e empenho na atribuição dos lugares à mesa de jantar na Sala de Banquetes do Palácio da Ajuda do que na formulação de um pedido de desculpa para sarar feridas centenárias?

É que não há uma segunda oportunidade para se fazer um primeiro bom pedido de desculpas. Pedir desculpa por Wiriamu teria merecido uma deslocação a Wiriamu e teria de ser feito pelo Presidente.

Pedir desculpa pelo esclavagismo nunca deveria ter sido expresso pela primeira vez de uma forma tão amena e imprecisa por Marcelo Rebelo de Sousa na sua visita de 2017 à ilha de Gorée no Senegal, uma intervenção à época criticada por um grande número de académicos, escritores e jornalistas numa carta aberta, que talvez explique a ausência dessas declarações de Marcelo no vídeo que a Presidência da República publicou sobre a visita do Presidente.

A culpa pressupõe uma consciência. Um dos problemas da culpa colectiva é os remorsos nunca reverberarem na consciência colectiva como ecoam na cabeça de quem comete uma falha moral.

O problema agrava-se nos casos de culpa colectiva sobre eventos ocorridos num passado longínquo porque os remorsos na linhagem dos perpetradores tendem a atenuar-se a cada geração muito mais depressa do que o ressentimento na linhagem das vítimas.

A culpa passa então a ser gerida muito mais pela razão do que pela emoção, como se o superego fosse o Henry Kissinger, levando ao atraso no pedido de desculpa ou a algo ainda pior: a meia desculpa.   


Vasco M. Barreto

É biólogo. Nasceu em Lisboa, cresceu nos Olivais Sul durante os anos 70 e 80, viveu uns anos no Lumiar e depois seguiu para Paris, onde se doutorou, e a seguir Nova Iorque. É casado e tem duas filhas. Árvores plantadas. Livro a caminho.

Lia Ferreira

Nasceu em Lisboa em 1974 e ali cresceu e fez a sua formação artística. É pintora, ilustradora e retratista. Mãe de 4 filhas, leva a vida na Arte.

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1 Comentário

  1. Não sei porque é que os portugueses actuais teriam de pedir desculpa pelo esclavagismo, não foram eles que o praticaram, é como no conto do lobo e do cordeiro,o lobo quer comer o cordeiro porque é parecido com o pai

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