Receba a nossa newsletter com as histórias de Lisboa 🙂

Há uma lengalenga inglesa que os pais cantam aos filhos antes de dormir: “Good night, sleep tight, Don’t let the bedbugs bite. If they do, squeeze them tight, and they won’t bite tomorrow night” (Boa noite, dorme bem, não deixes os percevejos morder. Se morderem, espreme-os bem, e eles não morderão amanhã à noite).

Muitos lisboetas se queixam de pragas de percevejos nas suas casas. Foto: DR

Em inglês chamam-se “bed bugs” (bichos de cama) porque é aí que gostam de se esconder: nos colchões. Em português são percevejos. E é nas camas lisboetas que se têm fixado nos últimos tempos.

Foi o que aconteceu a Nuno Castro, que vive perto do Marquês de Pombal: “Quando liguei à empresa de desinfestação a queixar-me de percevejos em casa, responderam-me: ‘É na sua casa e em metade das casas de Lisboa'”.

Ou à senhoria de um apartamento em Santa Engrácia, quando um dos inquilinos se começou a queixar de picadas. Rapidamente se descobriu que a praga se tinha alastrado pelos quartos dos outros hóspedes.

Talvez seja um exagero, até porque não há dados, mas o que é certo é que as empresas de desinfestação têm registado queixas neste sentido. Nas últimas duas semanas, a Câmara Municipal de Lisboa não recebeu avisos, mas há três semanas houve quem tenha relatado pragas nas suas casas.

O que são, então, os percevejos?

São pequenos insetos avermelhados, com seis patas e antenas, que se alimentam de… sangue humano. A partir dos anos 1950, pareciam ter sido erradicados, mas desde os anos 1990 que voltaram a alastrar-se pelas cidades, mordendo quem dorme.

“Durante a noite, o CO2 da respiração, os odores e a temperatura do corpo dos hospedeiros vertebrados são elementos atrativos para os cimicídeos realizarem as suas refeições sanguíneas”, escreve Edna Bernardo numa dissertação sobre percevejos para o Instituto de Higiene e Medicina Tropical. Nuno pode confirmar: “A minha mulher andava a acordar com picadas”.

Mas as picadas não são o único sinal da sua presença: há também que estar atento às manchas de sangue ou manchas pretas (excrementos) no colchão e nos lençóis. Os percevejos não transmitem doenças, mas podem provocar nos humanos reações alérgicas, urticária, reações asmatiformes e até mesmo choque anafilático.

O ciclo de vida de um percevejo. Foto: uniprag

Como chegaram os percevejos a Lisboa?

A especialista em parasitologia Edna Bernardo traça o percurso dos percevejos ao longo da História: remontam aos tempos das cavernas e existem registos deles nos papiros do Antigo Egito. Passaram pela Grécia e Roma Antiga e, no século XI, já se tinham instalado nas habitações alemãs. No século XIII chegaram a França e no século XVI a Inglaterra.

Percevejos num livro de 1485. Fonte: Entomology at The University of Kentucky

No século XVIII, verificaram-se grandes infestações de percevejos na cidade de Londres. Crê-se que o motivo terá sido a importação de madeira para a reconstrução da cidade depois do incêndio em 1666 – estes bichinhos gostam de madeira, e daí também haver relatos de caravelas inundadas de percevejos.

Ainda no século XVIII, um homem passou a dedicar a sua vida a exterminá-los: John Southall, que vivia em Londres.

Nos anos 1920 e 1930, Londres sofreu uma vez mais infestações de percevejos. Mas a partir dos anos 1950, os percevejos pareciam ter entrado em extinção graças ao desenvolvimento de inseticidas modernos como o “DDT” e à melhoria das condições de higiene.

O que explica o regresso dos percevejos a partir dos anos 1990?

Por um lado, deixou de usar-se pesticidas como o DDT por terem impactos ambientais. Por outro, “o percevejo é um bicho de mala”, explica uma empresa de controlo de pragas, a BugZero.

Ou seja, nos anos 1990, com o aumento dos recursos económicos, “as pessoas começaram a fazer mais viagens de turismo, para os mais diferentes países, de estudo e de negócios, com uma frequência que era impensável algumas décadas antes”, escreve Edna Bernardo.

Por isso os percevejos são facilmente encontrados, por exemplo, em hotéis – sobretudo quando a limpeza não abunda.

É isso que está a acontecer em Lisboa? “Sim, tem que ver o número de viagens que estamos a receber”, confirma a BugZero. “As zonas mais afetadas são no centro histórico por causa do turismo”.

Além disso, as casas nesta zona são na sua maioria em madeira. Talvez tenha sido exatamente isso que aconteceu com Nuno: regressara há pouco de São Francisco quando começou a dar conta dos percevejos.

Mas esta não é só uma praga que afeta as cidades mais turísticas: os conflitos bélicos têm levado à fuga de populações que muitas vezes são alojadas em campos de refugiados, onde se disseminam também os percevejos.

Como resolver a praga?

Percevejos, o inseto que se esconde nos colchões das camas.

Os percevejos têm desenvolvido mais resistência aos inseticidas, mas o tratamento químico aqui é a única opção: “Não há outra forma, o percevejo infiltra-se no estrado da cama, nos colchões, há fases em que se torna imperceptível ou em que é transparente”, diz a BugZero.

O aconselhável é recorrer a uma empresa de desinfestação, que tanto pode intervir no quarto que foi afetado, como em toda a casa (por onde já se podem ter espalhado).

“É uma questão que depende do número de pessoas que vive em casa, se é por exemplo um AirBnB ou um alojamento local…”, diz a BugZero.

Geralmente, as empresas fazem uma pulverização e nebulização do espaço, pedindo aos residentes para abandonarem a casa durante um período de tempo, dependendo do químico utilizado (o período pode ir de dois a quinze dias).

Para Edna Bernardes, é importante que a comunidade geral seja alertada para a presença destes insetos para que se possa recorrer a um controlo eficaz. A investigadora deixa também uma nota final na sua dissertação: a de que é preciso fazer um estudo mais alargado sobre o tema, “uma vez que o turismo, o ecoturismo, a chegada e partida de viajantes, quer sazonalmente ou não, pode dar origem a um bed bug boom“.


O jornalismo que a Mensagem de Lisboa faz dantes pagava-se com anúncios e venda de jornais. Esses tempos acabaram – hoje são apenas o negócio das grandes plataformas. O jornalismo, hoje, é uma questão de serviço e de comunidade. Se gosta do que fazemos na Mensagem, se gosta de fazer parte desta comunidade, ajude-nos a crescer, ir para zonas que pouco se conhecem. Por isso, precisamos de si. Junte-se a nós e contribua:

Ana da Cunha

Nasceu no Porto, há 26 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.

Entre na conversa

1 Comentário

  1. É o tipo de “turismo” que temos, aquele que vem enriquecer a nossa cultura/sociedade, e salvar a Segurança Social.
    Ou então não, é o regressar a modos de vida mais primitivos, onde nem seque padrões de higiene são mínimos.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *