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Vivo num edifício velho. Há quem lhe chame edifício antigo, edifício clássico, mas eu continuo a chamar velho ao edifício onde vivo. Tem cinco andares e olha Lisboa com altivez.

Se fizerem este curto exercício comigo, chegarão talvez à mesma conclusão que eu. Pensem num prédio novo, construído nos últimos três ou quatro anos, com arquitectura e materiais modernos. Agora pensem nas pessoas que lá moram. São talvez poucos os velhos que lá vivem, concordam? Onde quero chegar é à ideia de que normalmente os velhos vivem em prédios velhos como o meu.

Os meus vizinhos são quase todos velhos. Claro que há exceções, mas quase todos já cá andavam quando a telefonia ainda era o entretenimento primordial dos serões. Outra coisa bastante velha que existe dentro do meu prédio é o elevador, mas já lá vamos.

Ricardo é um ladrão. Há quem lhe chame vigarista, há quem lhe chame larápio, mas para mim é um ladrão. É conhecido por Ricky Mangas (dizem que Ricardo não é nome de ladrão), um fulano sempre bem vestido e perfumado, que é conhecido por roubar com subtileza e nunca em confronto direto com as suas vítimas.

Ora o tal Ricardo sabia que a minha querida vizinha, a dona Arlete do terceiro esquerdo, ia passar férias com a filha a Sesimbra, como faz, de resto, todos os anos. Esta simpática octogenária terá em sua casa algumas joias, ou talvez não, e é isso mesmo que Ricardo quer descobrir.

Ele entra no edifício com facilidade, vem vestido com umas calças de sarja verde escura e uma camisa branca metida para dentro das calças, vem com um sapato de sola de borracha para não fazer ruído, uma mochila elegante com alguns dos troféus dos roubos desse dia, bem como algumas ferramentas para o seu ofício.

Estamos no final da tarde, altura de algum movimento no prédio. Eu e a minha mulher organizámos um jantar nesse dia, um serão com umas poucas pessoas do meu trabalho e outros tantos convidados do trabalho da minha mulher, gente que não se conhece entre si e que nunca tinha ido lá a casa.

A minha sogra é uma pessoa velha que parece nova pelo ar fresco da aldeia e do campo, vive nas Beiras, ou então talvez seja uma pessoa nova que parece velha pela vida difícil do campo, confundo sempre estas duas partes, enfim, a minha sogra tem setenta anos e vive no interior. Respaldados pelos seus dotes culinários, finalmente decidimos dar este jantar.

Ricardo, para entrar no prédio, tocou primeiro para o quinto direito, sem sucesso, mas logo de seguida tocou para o quarto esquerdo, exatamente onde estava a minha sogra sozinha a preparar o jantar para os convidados prestes a chegar. Ela age com a naturalidade de quem vive numa aldeia, deixando a porta de casa encostada para as visitas entrarem, isto depois de se ter concentrado bastante para perceber como funciona aquele estranho telefone que abre a porta lá de baixo, voltando depois para a cozinha.

O que Ricardo não sabe é que o velho elevador daquele velho prédio está cheio de manhas. É um elevador de madeira com uma chapa velha na entrada a dizer “Fortis”, exibindo orgulhosamente uma morada e um número de telefone curto, sem indicativo. Para entrar têm de se abrir duas grades metálicas que fecham e abrem como um acordeão. Depois de se verificar que as portas estão bem fechadas, tem de se eleger o andar para onde se quer ir e para isso temos uma disposição de botões pretos redondos e descomplexados, tudo simples, ou talvez não tanto.

A verdade é que o elevador do meu prédio é um moralista. Não aceita parar nem no primeiro nem no segundo andar e não há técnico que o consiga convencer a tal, os preguiçosos dos primeiros andares que subam e desçam mas é a pé que só lhes faz bem.

Quando carregamos no botão que nos leva ao terceiro andar, o velho elevador decide ir para o quarto, ou até para o quinto, às vezes a memória dos velhos já não é o que era. Em dias em que o velho elevador está bem casmurro, decide simplesmente parar com as pessoas lá dentro, talvez por ser vaidoso e querer mostrar o seu tecto de madeira trabalhada, talvez para convidar os seus utilizadores a uma pausa para fumar uma cigarrada como se fazia nos anos setenta (ele não sabe que já não se fuma dentro dos elevadores e ainda exibe uns bonitos cinzeiros metálicos, agarrados à madeira).

O ladrão entrou no elevador e carregou para o terceiro andar. Nada aconteceu. Voltou a abrir e fechar a grade de dentro e lá arrancou para o suposto destino, a casa da dona Arlete. O elevador parou no quarto andar e, sem reparar nesse facto, Ricardo sai pé ante pé em direção à minha porta.

Quando percebeu que algo de errado se passava (a dona Arlete é velhota, mas talvez não tanto para arrancar para Sesimbra e deixar a porta de casa aberta), já a minha sogra entrava em cena puxando-o para dentro de casa com uma hospitalidade bem Beirã. Ricardo sem saber o que fazer, tentou dar meia volta e sair por onde entrou, mas quando o fez, sentiu as mãos fortes da minha sogra a arrancar a sua mochila das costas e a arrastá-lo para cozinha.

– O que é que vai beber? – pergunta ela.

– Não bebo nada, obrigado – responde Ricky Mangas com um ar meio baralhado.

– Ó rapaz, deixe a vergonha lá fora, aqui está em casa – nisto já a minha sogra enchia um copo de vinho tinto enfiando-o quase pela goela do suposto convidado.

Na altura em que os convidados começaram a chegar, já Ricardo tinha comido queijos, enchidos e até chegou a provar alguns dos pratos que estavam a fumegar ao lume. Depois chega a minha mulher, e quando eu finalmente cheguei do supermercado com mais vinho, havia já um ambiente de casa cheia com bastante calor humano e uma bonita mesa posta. Eu não sabia quem era o Ricardo, nem tantos outros que lá estavam. O mesmo, imagino, sentiu a minha mulher.

Ricardo tentava escapar, mas a minha sogra simpatizou com ele e o seu sítio da mesa era mesmo ao pé dela, estava encurralado e cada vez que o prato ficava vazio, lá chegavam os tentáculos da sogra com mais uma pazada de alimento para dentro do prato do ladrão.

Brinde após brinde os ânimos aqueciam e dentro do burburinho, finalmente Ricardo arranjou uma desculpa para supostamente ir à casa de banho. Agarrou na mochila e mesmo antes de se ir embora viu que o quarto ao lado da entrada, o quarto das visitas onde dormia a minha sogra, tinha uma série de anéis e bugigangas que ela traz da aldeia cada vez que vem a Lisboa, ali à mão de semear em cima da mesinha de cabeceira.

Ricky abre a mochila e de um só golpe, arrasta tudo lá para dentro, volta a meter a mochila no ombro, dirige-se para saída, mas quando mete a mão para abrir o trinco sente a mão da minha sogra outra vez a agarrar-lhe a dita mochila.

– Não me diga que se ia embora sem comer sobremesa que tive tanto tempo a fazer, venha lá para a mesa rapaz!

Ricardo não estava habituado a este tipo de confronto, num ápice já estava outra vez sem a mochila e agarrado por um braço em direção à mesa.

– Rapaziada, então há direito que tenhamos já um de vocês a querer desistir, ainda as sobremesas não saíram?! – gritou ela para os que estavam sentados, enquanto exibia o fracassado foragido.

Cada um de nós grunhiu qualquer coisa e continuámos a beber e a comer sem prestar grande atenção.

Vieram as sobremesas várias, depois ainda veio a fruta e depois as aguardentes. Ricardo estava tão empanturrado, tão bêbado e tão dormente que até se esquecia do que realmente o tinha levado ali.

Finalmente já com algumas pessoas e fumar na varanda, outras a ajudar a levar pratos para a cozinha, outras ainda sentadas à mesa e com a música a subir um pouco de volume, Ricardo arranca meio desorientado em direcção à porta e escapa-se. Entra no elevador e carrega no botão que diz R/C, mas mesmo ao passar entre o segundo e o primeiro andar o velho “Fortis”, resmungão, fica imóvel de um som golpe.

Ali está Ricardo, Ricky Mangas ou ladrão como eu gosto de lhe chamar, atrás de um duplo gradeamento e dentro de uma caixa de madeira suspensa a uns bons quinze metros de altura. A verdade é que Ricardo é um profissional na arte de escapar deste tipo de situações e anda sempre prevenido com algumas ferramentas para o que der e vier. Quando lança a mão às costas para tirar as ferramentas de dentro da mochila, percebe que a deixou lá em cima dentro da casa…

O velho elevador tem um botão a dizer “Campainha”, mas esta não apita desde 1986, a solução seguinte era começar aos gritos a pedir ajuda, mas lembram-se de eu dizer que no meu prédio só vivem velhos? Pois é, uma das características dos meus vizinhos é não ouvirem lá muito bem.

Ricardo gritou e gritou, mas ninguém ouviu e só quando chegou o meu único vizinho novo, o do quinto esquerdo, e percebeu que o elevador estava parado, é que Ricardo finalmente conseguiu sair daquela prisão, com a sua ajuda.

Depois de agradecer ao meu vizinho, subiu até ao terceiro andar, desta vez de escadas, para tentar recuperar a sua preciosa mochila que estava na suposta casa da dona Arlete. Tocou à porta duas e três vezes, mas ninguém abria, estavam em Sesimbra, claro.

Ricardo pensava que estava a ficar louco, e o seu estado de embriaguez não lhe trazia grande clarividência aos pensamentos. Finalmente subiu ao andar de cima de onde vinha algum ruído, bateu à porta e lá fui eu abrir.

– Então!? Tinhas saído?

– Fui só ao carro buscar o telefone que me tinha esquecido, venho só buscar a minha mochila porque tenho mesmo de me ir embora. – respondeu Ricardo com astúcia.

– Qual é a tua, é esta? – pergunto

– É essa mesmo! – responde ele com um olhar satisfeito

A difícil missão do ladrão Ricky Magas está prestes a ter um final feliz, já há muito tempo que ele não tinha tanto trabalho para roubar um punhado de bugigangas e mesmo quando a mochila se preparava para passar de mim para ele, mesmo naquele culminar de acto de transferência tão corrente, mesmo na altura de Ricky sentir o gáudio do dever cumprido, eis que chega a mão, a tenaz decidida da minha sogra que a intercepta, enquanto abre o seu fecho a olhar lá para dentro e diz:

“Rapaz, leva aqui este tupperware com um bocadinho de chanfana para levares para casa, sobrou muito…”


*João Santos Pereira vive entre o Mediterrâneo e a sua querida Lisboa. Fingiu estudar em vários sítios, de onde até um Mestrado em Gestão Desportiva surgiu, mas sempre aprendeu mais com as pessoas do que com o ensino estabelecido. Viaja pelo mundo, a pé sempre que pode, o mesmo aplica na cidade das sete colinas. Gosta de beber vinho tinto e de jogar à bola, acompanhado por gentes de falas várias, sempre que possível. Dedica posteriormente o seu tempo a escrever as aventuras que daí advêm.

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