Foto: Leonardo Rodrigues

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Estamos em 1966, Portugal é governado por um ditador e o elétrico 17 desliza ruidosamente pelos carris da Av. Almirante Reis. Agarrada a ele, lá vai a D. Edite, com flores a cheirar a transgressão por baixo do casaco.

Cada movimento do elétrico é amplificado pela clandestinidade da viagem e do destino: a Alameda. Não sabe ainda, mas ali descerá todos os dias, dos 12 anos de então até aos 68 de hoje, para vender a maior expressão artística da natureza, as flores.

No caso dela: pão para a boca. Dela e, depois, para os filhos. Um crime à mira da lei.

As “senhoras” do bairro compravam-lhe as flores, mas desaprovavam a atividade, considerada menor. Uma menina bonita a fazer o que estava reservado às “galdérias”. A verdade é que lhe queriam melhor, não sabiam é que vender flores já era muito melhor do que antes.

D. Edite começou a trabalhar aos sete anos, em Trás-os-Montes. Aos dez veio para Lisboa com a família e aos 12 fez-se florista. Uma vida de trabalho e luta, a que as flores trouxeram cor. Foto: Leonardo Rodrigues.

Edite tinha começado a trabalhar com sete, cinco anos antes, a cuidar de outra criança. Apesar de lhe estarem a ceifar a meninice, o seu pagamento era só um: comida – e feita por ela. Todas as manhãs cozinhava uma panela de sopa num pote de ferro, à lareira. Depois, ainda tinha de correr pelos campos para que os homens que lavravam as terras almoçassem.

Assim foi até aos 10 anos, quando se dá a decisão da família de vir de Trás-os-Montes para Lisboa, fugindo à miséria do mundo rural. Porém, só aos 12, quando a rapariga que viria a ser sua cunhada a leva a vender flores para as ruas da cidade é que a vida de Edite finalmente muda. Desse dia em diante, as flores matariam a fome, dela e da família. “Foi com as flores que venci e venço na vida”, conta.

Ter comida na mesa não significava que a vida era doce, como as peras que também se vendiam na Alameda. “Vendíamos a correr à frente da polícia, e com multas!” Se as vendedoras tinham uma meta para as vendas, a polícia tinha uma meta para as multas. Como sabiam que as multadas não poderiam pagar, era frequente as vendedoras pagarem em pares. Essas parelhas, um laivo de sorte maldita, eram escolhidas pela polícia: “Hoje és tu e tu”. Assim se iam os trocos, tanto podiam ser 30 como 160 escudos.

Quando as flores eram raras e a teca o alimento

Estes dias começavam antes dos dias. Às duas e meia da manhã já estava no Mercado da Ribeira para comprar as melhores flores. Na altura, as flores de corte não abundavam como agora. Este material precioso, tal como outras matérias-primas, foi evoluindo, na quantidade e na diversidade.

Pelas cinco da manhã já eram horas de correr as ruas com as flores agarradas ao corpo, por um lenço.

Não há flores iguais, dias a vender na rua tão pouco, podiam era sempre ficar pior. Muitas vezes, confiscaram-lhe, com um sorriso jocoso e impiedoso, as flores. “Por não ter o que vender naquele dia, chegava a casa sem dinheiro sequer para comprar leite para o meu filho”, conta Edite.

Casou com o irmão da moça que a iniciou nas flores e esta casou com o dela. Trabalho e amor ficam em família. E os filhos são, portanto, também, filhos das flores e da rua.

“Eles foram criados naquela árvore”, diz, referindo-se ao lódão que lhe dá sombra aos dias e à carrinha. Não existem fotografias, apenas a memória que continua tão fresca como as flores que vende.

Estar no mesmo sítio há tantos anos dá-lhe certezas da evolução do lugar e também do que nunca mudou de sítio, como a árvore. Olha-a com a certeza apaziguadora de que por debaixo da sua sombra estavam os filhos enquanto trabalhava. Não ficavam de qualquer forma, tinham camas feitas de caixas recheadas com palha de papel, o material usado na época para envolver a fruta.

Depois desta memória, veio outra, mais inquisidora: “Sabes o que é uma teca, filho?”. E responde: “Era assim que os pobres comiam”.

Uma teca é a junção do que os clientes com dinheiro não quiseram comprar, fosse isso peixe ou fruta. Uma espécie de Fruta Feia, se quisermos estabelecer uma equivalência com os dias de hoje, e a possibilidade, para quem tinha menos, de poder alimentar-se, a si e à família.

Não aprendeu a ler ou a escrever, mas lá se ajeitou com as flores. “Não é preciso muito para fazer uma coisa bonita, cada um é para o que nasce”, diz D. Edite. Foto: Leonardo Rodrigues.

“Nunca aprendi nada, nunca fui a sítio nenhum”, diz ao confessar que não teve tempo para ser criança, aprender a ler e a escrever. “Mas cá me ajeitei”, diz, referindo-se às flores. Ao dizer isto, com mestria, quase por magia, termina um ramo simples. “Não é preciso muito para fazer uma coisa bonita, cada um é para o que nasce.”

Pausa. “Isto é como os ceguinhos, não sabemos ler, mas vamos buscar tudo na mesma e aprendemos outras coisas, doutras formas”. Sente que tem o respeito das pessoas assim, tendo aprendido a linguagem das flores.

“Na altura em que deveria estar na escola, os meus pais eram tão pobres que nem podiam dar-me de comer”, justifica.

De andar a tentar escapar da polícia e das multas, D. Edite passou a vendora ambulante no tempo da presidência de Jorge Sampaio na Câmara Municipal de Lisboa. Para sua paz e felicidade. Foto: Leonardo Rodrigues.

Em retrospetiva, considera que bem fez em seguir o caminho das flores, ganhar os dias com dignidade. Se a vida tivesse propiciado outras oportunidades, acredita que teria sido educadora de infância. Adora crianças e o certo é que todas as que por ali passam a cumprimentam. E ela retribui.

Em parte, é um hábito antigo que a vai reconciliando com a partida do seu único filho rapaz, que aconteceu demasiado cedo. Um curativo para uma dor que não cessa. 

Uma licença para vender flores e a mudança de vida

Para sua felicidade e paz, os tempos e as leis avançaram. Esteve quase a desistir por causa das multas pesadas. No entanto, ao contrário de muita gente que abandonou o negócio, manteve-se o tempo suficiente para ser considerada a sobrevivente da Alameda. A maior mudança deu-se durante a presidência de Jorge Sampaio na Câmara Municipal de Lisboa, altura em que se pôde candidatar a um lugar no mundo da venda ambulante.

Permitiu-lhe ver legitimada a vida e conquistar precisamente o canto à sombra do velho lódao que ajudou a criar os filhos. “Sempre vendi aqui, apenas o local é que não era certo como agora”.

Após a legalização, também o negócio se estabeleceu. As viagens de elétrico passaram a fazer-se de táxi, sendo o custo partilhado entre vendedoras. Um pouco depois, já com o marido, o percurso do mercado à Alameda passou a ser feito de triciclo e, por fim, quando o marido tirou a carta, foi conquistada a já célebre carrinha.

É de segunda a sábado que, desta carrinha cinzenta, vende as flores. Religiosamente todos os dias, até às 13h00. Foi sempre este o antídoto para dias que começam demasiado cedo.

Há 56 anos na Alameda, D. Edite tem uma clientela fiel. Trata todos por “filho” ou por “amor”. Foto: Leonardo Rodrigues.

Ao domingo, não há flores para ninguém. Mas desengane-se quem pensa que D. Edite descansa. É o dia da família e, como tal, de cuidar dos seus: “E fazer comida para aquela gente toda?”, atira. A exceção dá-se se forem “dias lembrados”, as datas especiais, como o Dia da Mãe.

Aí “vai à venda” e até é capaz de recrutar as filhas “Vêm ajudar-me, mas não fazem os ramos”. Di-lo em jeito de confidência, que sabe que ficará escrita. Garantidamente a sua arte não passou para as filhas, estando por isso ciente de que terminará com ela.

D. Edite sabe a Lisboa antiga

Sabe a Lisboa antiga observá-la a interagir com as pessoas. Trata todos por “amor” e “filhos”, quase sempre por tu. Há clientes que já ali vão mais pela amizade, sendo as flores um pretexto. Alguma clientela mantém-se, outra renova-se continuamente, ao ritmo da cidade.

Passam todos os que precisam de flores para remendar qualquer coisa. O namorado que só se pode desculpar com rosas, a cliente que não deixa de levar umas flores para preencher a companhia que já não tem ou um octogenário sempre enamorado.

Há quem só compre por querer ajudar a D. Edite. Uma das clientes, vendo um gravador em riste, sabendo que estava a levar verdura a mais, denuncia-se: “Eu dou prejuízo”. Ao que a D. Edite retorque logo: “Aquilo que a gente dá de boa vontade não faz falta, Deus dá o dobro.”

As floristas do Rossio eram as mais afamadas, dizia-se que transformavam a Praça num jardim. Isso não discute, na altura, o mote era simples: “Toda a gente se safava”. Por toda a cidade. Uns a apregoar morangos de Sintra, outros a fava rica ou figos capa rota. Uns seguiam de cavalo, outros a pé, de pau e saco às costas. Mas o que ainda lhe faz brilhar os olhos é a memória dos pinheiros de Natal que encorpavam a Alameda.

O único jardim de flores de corte que permanece vivo em Lisboa é o dela, naquele canto. Como diz uma cliente, as dores, por detrás dos olhos claros e das flores, não se veem. Isso, e as melhores flores terem dia marcado à quinta, são a alma do negócio da florista mais antiga de Lisboa, cujas flores nunca teve nem terá de apregoar.


Leonardo Rodrigues

Nascido na Madeira, o seu coração ficou por Lisboa. Estudou comunicação na FCSH – UNL e fotografia no Cenjor. Depois de muitos ofícios, é a contar histórias que se sente bem. Acha que não existem histórias pequenas, anseiam é por ser bem contadas. Quando não está a escrever, é aprendiz de jardineiro. @leonismos no Twitter.

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2 Comentários

  1. História bem “Alfacinha” que atravessa muitas folhas desde velhos calendários perfumados pelas flores da Dona Edite.

  2. Não li yudo por absoluta falta de tempo. Mas discordo completamente de dizerem que eramos governados por um ditador. Aí para o baile. Não liais nada. Vão pregsr para outra freguesia.

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