Sara Cappai Elisa Sartor Livraria Italiana Lisboa Piena
Sara Cappai e Elisa Sartor na Livraria Lisboa Piena Foto: Inês Leote.

Receba a nossa newsletter com as histórias de Lisboa 🙂

A perceção de se ouvir mais o italiano pelas ruas de Lisboa – e até no resto do país – não é por acaso. Em 2021, a comunidade italiana tornou-se a quarta mais populosa entre os imigrantes a viverem em Portugal, a maior entre os cidadãos da comunidade europeia.

Em 2021, viviam 30.819 italianos em Portugal, atrás apenas de brasileiros (204.694), britânicos (41.932), e cabo-verdianos (30.819). A agressão da Rússia à Ucrânia deve promover uma alteração nas estatísticas do SEF e levar os ucranianos, da sétima representação no ano passado (27.195) ao segundo posto, no fim de 2022.

Em Lisboa, o cenário é semelhante e os italianos superam inclusive os velhos conhecidos dos lisboetas, os franceses: já em 2019 eram 11.684 imigranti contra 10.189 gauleses.

Hoje toda a comunidade está de olhos postos na pátria – e esta palavra ferve nas eleições deste ano, com a possibilidade de a extrema direita alcançar o poder. Mas há um lugar de refúgio, desde logo em Lisboa, e logo ali no bairro de Arroios, na rua Cavaleiro de Oliveira.

Uma rua que é um microcosmos do bairro de Arroios, com tradicionais cafés portugueses, trendys restaurantes veganos, as promessas de um mundo livre de pelos dos salões de beleza brasileiros, o aroma intenso dos kebabs e os sacos cheios de roupa suja que rumam resignados às lavandarias self service.

Há cerca de um mês, a rua ganhou uma nova e peculiar moradora, uma chegada envolta numa aura de frescura e por isso mesmo recebida pela vizinhança como sinal de bom augúrio: abria as portas a livraria italiana Piena.

“Logo nos primeiros dias, a brasileira do salão de beleza veio visitar-nos, muito simpática, e disse que uma livraria dá mais charme à rua”, conta Sara Cappai, que ao lado da sócia Elisa Sartor preenche uma lacuna importante da vida literária de Lisboa.

Pois, ao contrário dos restaurantes italianos, presentes em cada esquina da cidade, a última livraria italiana em Lisboa, a Libritalia, fechou as portas em 2010.

A Piena quer também engrossar o coro das novas vozes a favor da inclusão das minorias e contra o racismo, a xenofobia e a homofobia.

Uma ausência que não reflete o fluxo imigratório dos italianos, com (a justa) fama de ruidosos, mas que silenciosamente se instalaram em Portugal nos últimos anos, superando chineses e franceses para compor a quarta comunidade de imigrantes no país em 2021, a primeira entre os cidadãos da União Europeia.

A livraria, porém, tem a pretensão de ser mais do que a portavoce da literatura italiana em Lisboa. Quer engrossar o coro das novas vozes a favor da inclusão das minorias e contra o racismo, a xenofobia e a homofobia. Daí que seja ainda mais o refúgio para os tempos que poderão estar para vir em Itália.

A Piena nasce portanto sob o signo, em italiano quase como em português, do attivismo.

Piena aposta nos autores independentes e no attivismo

Durante a entrevista, Elisa levanta-se para recolher um pacote entregue pelos Correios. A nova remessa de livros foi recebida com euforia, principalmente quando o unboxing revela a chegada dos novos exemplares de Questi capelli, a versão italiana de Esse Cabelo, escrito pela portuguesa Djaimilia Pereira de Almeida.

A livraria oferece também autores estrangeiros traduzidos para o italiano. Foto: Inês Leote.

A remessa trouxe ainda exemplares de Aratro Ritorto (Torto Arado), de Itamar Vieira Júnior, e Piccolo Manuale Antirazzista e Femminista (Pequeno Manual Antirracista), de Djamila Ribeiro, dois celebrados autores brasileiros contemporâneos ligados à defesa das minorias num Brasil intoxicado pelo discurso oficial de extrema-direita.

“Em Itália há uma grande rede de livreiros independentes que trabalham com editoras igualmente independentes, publicando e negociando autores locais e estrangeiros que dialogam com esse tipo de attivismo. Em Portugal ainda não há algo tão expressivo, embora se perceba uma tendência nesse sentido”, avalia Elisa.

“Em Itália há uma grande rede de livreiros independentes que trabalham com editoras igualmente independentes.”

Elisa Sartor

Elisa sente-se muito à vontade para falar do cenário português. Das duas sócias, a milanesa de 37 anos é a que há mais tempo está em Portugal. Chegou em 2008 para estudar Arquitetura no Porto e, em 2013, mudou-se para Lisboa, onde produzia designs com expressões em italiano para ilustrar t-shirts, tote bags e outros acessórios.

A sócia, por sua vez, é praticamente uma novata em Lisboa. Nascida na Sardenha há 36 anos, Sara desembarcou em pleno olho do furacão pandémico, em 2020, para acompanhar o namorado que veio trabalhar em Portugal. Em Itália, trabalhava no ramo editorial, como editora e revisora de texto free lance para chancelas italianas.

Novos títulos entregues pelos correios: livros vendidos com o mesmo preço das livrarias italianas. Foto: Inês Leote.

As duas conheceram-se em dezembro desse mesmo ano, através do Instagram, onde Sara mantinha publicações e live streamings sobre literatura na sua conta pessoal. “Já tinha a vontade de formar um grupo de leitura em italiano e o conhecimento da Sara na área era a oportunidade que faltava”, conta Elisa.

Nascia aí uma grande amizade e também o grupo de leitura Azuleggo, o nome fruto de um jogo de palavras entre o icónico azulejo português e leggo, “leio” em italiano.

A Piena mantém um grupo de leitura, o Azuleggo, um jogo de palavras entre o icónico azulejo português e leggo, “leio” em italiano.

“A Sara está sempre atualizada sobre o panorama editorial italiano e internacional. Daí organizamos um grupo no Telegram, que costuma ter mais ferramentas do que o WhatsApp e que são bastante úteis, como as sondagens”, explica Elisa.

As sondagens permitem que os integrantes do Azuleggo, cerca de 40 – apenas um deles, português – escolham qual o livro a ser lido no mês e debatido no encontro mensal, que até a abertura da livraria era realizado em cafés e jardins em Lisboa. O último, porém, em junho, já ocorreu na Piena.

Arroios não foi escolhido por acaso

Agora em julho, as sondagens elegeram o recém-chegado Aratro Ritorto (Torto Arado) para ser lido e debatido na sessão que ocorreu no dia 21 e, assim como a sessão de estreia, novamente encheu a livraria. “O que não é assim tão difícil”, diverte-se Elisa.

A livraria Piena, que ocupa o espaço onde funcionava um escritório contabilista, trouxe um novo “charme” à rua: Foto: Inês Leote.

Apesar de Piena em português ser plena, cheia, grande, o simpático espaço ocupa uma área de 28 metros quadrados, onde antes funcionava um escritório de contabilidade.  

A mudança do negócio dos números para as letras foi bem recebida pelos vizinhos. Além da esteticista brasileira, os moradores costumam congratular as proprietárias, cientes de que uma livraria concede um outro estatuto – ou “charme” – à rua.

A recíproca é verdadeira. Arroios não foi escolhido pelas duas italianas para sede da nova livraria por acaso. “É o bairro por onde costumamos andar, para conversar, ir a uma galeria ou beber um copo”, diz Sara, freguesa de Alcântara.

Em 2021, a comunidade italiana tornou-se a quarta mais populosa entre os imigrantes a viverem em Portugal, a maior entre os cidadãos da comunidade europeia.

Atualmente a viver em Chelas, Elisa reforça que a visível presença da comunidade italiana por Arroios e arredores foi também determinante. “Há sempre bastante italianos a circular num triângulo entre a Penha de França, os Anjos e Arroios, do mercado até o cemitério de São João”, arrisca.

À espera dos milhares de italianos em Lisboa

A expetativa de Elisa e Sara é que o grande contingente de conterrâneos em Lisboa se traduza em vendas. O primeiro mês serviu para quebrar o gelo do abrir as portas, mas o desafio de manter o negócio, ambas têm plena consciência, é sempre grande.

“Antes de abrirmos, estava um pouco spaventata, um pouco espantada”, confessa Sara, a transitar entre o velho e o novo idioma. “Aos poucos, estamos a perceber melhor o negócio e a traçar os próximos passos da livraria”, completa Elisa.

A livraria mantém um grupo de leitura no Telegram, o Azuleggo, mistura do mítico azulejo com “leggo”, em italiano. Foto: Inês Leote.

Uma das estratégias utilizadas até agora é a de vender os livros com o mesmo valor dos praticados em livrarias na Itália. “Ainda não sabemos se poderemos ou até quando será possível praticar estes preços, mas é uma das formas de tentar de alguma forma rivalizar com a Amazon”, conta Elisa.

Assim como nas livrarias online, é possível fazer encomendas e receber os livros. A diferença em questão é que, ao contrário da já citada Amazon, o aconselhamento sobre o livro é feito em carne e osso e não através das críticas de procedências obscuras dos sites.

Os clássicos Umberto Eco, Cesare Pavase, Antonio Tabucchi, Italo Calvino, Natalia Ginzburg e Elena Ferrante também estão na estante.

Outra decisão de cunho comercial foi de reservar nas estantes também espaço para os clássicos e best sellers italianos, de olho no público mais tradicional. Assim, estão lá Umberto Eco, Cesare Pavase, Antonio Tabucchi, Italo Calvino, Natalia Ginzburg e, não poderia faltar, a incontornável Elena Ferrante, entre outros.

Também estão os clássicos estrangeiros traduzidos para o italiano, e não poderiam faltar, claro, os portugueses Fernando Pessoa e o Nobel José Saramago.

“A Piena é antes de tudo uma livraria. Há a preocupação de dialogar com as novas tendências e apresentar novos autores, mas também de divulgar a cultura italiana e em italiano, sem restrições”, reforça Elisa o convite para que a crescente comunidade italiana que anda a circular alegre e ruidosa por Lisboa faça ecoar também a vibrante nova literatura do país pelas ruas da cidade.


Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 49 anos, há seis em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

Entre na conversa

2 Comentários

  1. Benvindos quem nos traz cultura com novos incentivos e dinâmicas.
    Faço um desafio de criarem um café literário onde se possa aprender línguas e leitura de poesia . Ciao!!

  2. Gostei do artigo no entanto o autor abusa de estrangeirismos desnecessários, e não estou a falar de alguns italianos: unboxing? Live streaming? e outros. Acho que o autor devia ser mais cuidadoso com a sua própria língua e defender o português.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *