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Pedro acordou nas Laranjeiras e viu a filha já na cozinha a comer uma barra de cereais com chocolate branco. Pedro não gosta que a filha coma coisas doces de manhã, por isso o seu dia não começou bem.

Pedro é engenheiro e faz um trabalho complexo que implica criar longas prosas com base na análise de números, que depois tem de apresentar aos senhores que mandam mais do que ele na empresa para os convencer de coisas.

No início da sua vida laboral, Pedro não tinha muito dinheiro para grandes aventuras por isso a prestação da casa nas Laranjeiras era mais do que ajustada, mas a coisa mudou e Pedro aumentou bastante o seu volume de capital. Aumentou tanto que parece que já não cabe dentro daquelas paredes nas Laranjeiras.

Pedro quer uma garagem com carregador eléctrico para os dois carros, quer um escritório em casa com uma vitrina de whiskeys caros que nunca vai beber e sempre sonhou ter uma casa de banho com o chão aquecido. Por vezes, levanta-se de noite e quando o pé descalço toca na casa de banho, a temperatura é fria e calculista como os seus textos que falam de números.

Talvez aquele condomínio privado em Miraflores fosse demasiado luxuoso, dizia o velho Pedro ao novo Pedro. Talvez alguns daqueles números pretos que escreve em cima do cheque branco, pudessem ser escritos noutro lado.

Vender o pedaço de terra que a avó lhe deixara no campo foi uma transação fácil, sem remorso e sem coração. Pedro viu os números a serem transferidos de um lado para outro, tal como em qualquer dia de labuta no escritório. Miraflores era o futuro, já o campo, nem passado chegou a ser.

Foi apenas necessário ver as plantas, o projecto e os desenhos em 3D para lhe nascer o desejo enorme de ter aquele apartamento e o relógio já estava a contar, não sabia quando estaria pronto o condomínio, mas sabia que as Laranjeiras estavam a prazo, e um letreiro a dizer “VENDE-SE” já estava orgulhosamente exibido para a rua.

Pedrag estava cansado de jogar à apanhada e às escondidas com senhores vestidos de camuflado e que não gostavam lá muito da sua laia. Pedrag saiu de um sítio barulhento a que chamava casa e chegou a um sítio chamado Portugal, já lá vão muitos anos.

Hoje, aquele sítio tumultuoso ainda é casa, mas não a dele. Hoje, Lisboa é o chão que pisa, mas chamar-lhe “casa” talvez seja ainda exagerado. São equações complicadas, daquelas que nem Pedro consegue desvendar no computador do seu escritório.

Pedrag passou por Setúbal, por Matosinhos, por Sines e por Faro, passará por lá as vezes que lhe disserem, o trabalho é que o escolhe e não ele que escolhe o trabalho. Quando Pedrag olha para aquela casa nas Laranjeiras vê o futuro dos filhos, vê o materializar da sua luta, vê sentido em tudo o que por aqui foi fazendo.

O passo final para entrar nas Laranjeiras é também um dos mais difíceis, parece que o volume capital de Pedrag já foi feito de pó, depois foi de pele e osso, e hoje até tem algum pelo na cara, mas continua magro. Para poder dar o passo final, vai precisar que alguns números lhe sejam emprestados, de forma a parecer gordo o suficiente.

Ele lá vai pedindo números, mas normalmente o que recebe são palavras, Pedrag domina a língua portuguesa, sabe que “REJEITADO” não é um bom indicador. Parece que alguns papéis dizem que a casa dele não é Setúbal, nem Matosinhos, nem Sines, nem Faro, nem Lisboa, parece que estes papéis teimam em não querer que a sua casa seja aquela ali mesmo nas Laranjeiras que diz “VENDE-SE”, parece que o jogo das escondidas e da apanhada ainda não acabou, é preciso ir ao coito que fica algures naquele lugar tumultuoso de onde fugiu.

Pedrag bebe enquanto olha para a casa que tanto quer, pode ser que consiga afogar os seus sonhos, já que as suas mágoas nadam bem demais para sequer tentar fazer-lhes o mesmo.

Pauline acordou num hotel perto do Saldanha, olhou-se ao espelho e não gostou dos papos que tinha por debaixo dos olhos. Nada que um tratamento matinal no spa não ajude a resolver. Pauline também é boa no jogo das escondidas e da apanhada, esconde os seus sessenta e um anos debaixo de cremes e tratamentos caros como os daquela manhã.

Mas a arte de Pauline não é apenas a subtração de números da idade do bilhete de identidade, a especialidade dela é esconder números em sítios exóticos e depois conseguir fugir sem que ninguém a apanhe.

A Suíça, de onde parece ser, quando lhe convém, ampara muito estas jogadas de Pauline. Dizem que é um bom coito para brincar às escondidas e à apanhada.

Acordaram os três numa Lisboa insuspeita, o sol foi divido pelos três de maneira justa, pelo menos assim indicava aquela manhã.

Pedro desceu de elevador, um elevador lento e sem grande espaço, um elevador com cheiro a naftalina do casaco da velha que tem como vizinha. Pelo menos tinha estacionado o carro mesmo ali ao pé de casa, coisa rara. Pedro chegou ao carro e viu um corpo estendido, aparentemente a dormir. Viu um par de garrafas ali perto e fez uma associação mais fácil do que as que terá de fazer no escritório.

Tapou os olhos da sua filha e prometeu que em Miraflores ela nunca mais teria de ver aquelas coisas. O corpo ressonava mesmo encostado à porta da viatura e Pedro num acto de fúria chamou a polícia, ele já não tolerava este tipo de situações.

Pauline desceu para o lobby do hotel, as suas malas foram depois trazidas por um senhor vestido de forma elegante. Foram quatro os cartões que utilizou para tentar pagar a conta e mesmo sem saber quase nada de português, Pauline percebia que “REJEITADO” não era o que os cartões deveriam reproduzir.

Nisto toca o telefone, um número com um indicativo estranho, um senhor com uma voz inquieta transmitia a Pauline que as suas contas e os seus investimentos estavam todos congelados por ordem da polícia. Ela teve uma quebra de tensão, mas o mesmo senhor que carregou as suas malas, carregou também uma água fresca com raspa de lima lá dentro. O advogado foi de imediato contactado, mas as notícias eram as piores, parece que Pauline tinha sido finalmente apanhada.

Pedrag esse, encheu a cara noite dentro, sozinho. Olhou para a sua ex-futura casa uma vez mais, já de manhã, mesmo antes de se encostar a um carro e tombar a sua cansada carcaça e entrar numa espécie de sono desmaiado. Foi acordado pela polícia, logo depois.

Pedro lá entrou no carro, deixou a sua filha na escola, deu indicação para ela não comer mais doces durante o dia. O telefone tocou, já no escritório, o mundo dele desabou, a empresa suíça que constría o empreendimento em Miraflores estava sob a alçada da justiça, estava tudo embargado.

Caiu a noite em Lisboa.


* João Santos Pereira vive entre o Mediterrâneo e a sua querida Lisboa. Fingiu estudar em vários sítios, de onde até um Mestrado em Gestão Desportiva surgiu, mas sempre aprendeu mais com as pessoas do que com o ensino estabelecido. Viaja pelo mundo, a pé sempre que pode, o mesmo aplica na cidade das sete colinas. Gosta de beber vinho tinto e de jogar à bola, acompanhado por gentes de falas várias, sempre que possível. Dedica posteriormente o seu tempo a escrever as aventuras que daí advêm.

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