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As noites excessivamente quentes pediam um sorvete e, na companhia de uns amigos, descemos a rua já com água na boca para nos sentarmos na esplanada a lamber um cone de limão e framboesa.

Atrás do balcão da geladaria artesanal – que só está aberta entre Abril e Outubro – encontrámos uma senhora brasileira que não conhecíamos; e, não resistindo a meter conversa, ficámos a saber que era engenheira alimentar formada numa das melhores universidades paulistas.

Para dizer a verdade, pensámos que era a dona do estabelecimento e que a confecção dos gelados artesanais exigisse a presença de alguém com a sua formação; mas, enquanto decidíamos qual dos casais pagava a conta, ela respondeu-nos que estávamos enganados e ali se limitava a atender clientes.

Não é caso único, evidentemente, mas faria sentido uma engenheira alimentar estar a servir gelados às dez e meia da noite num bairro de Lisboa?

Foi então que ela explicou: era simplesmente um privilégio fechar a loja à meia-noite, despir a bata, pôr os «fones» nos ouvidos e ir para casa a pé (um quarto de hora de caminho), onde sabia que os filhos, depois de terem jogado à bola na rua com amigos, aproveitando a noite quente, já estariam a dormir em segurança.

«E isso não tem preço», disse ela.

Voltei há cerca de dez dias de São Paulo, aonde já não ia há muitos anos, embora tenha viajado para outros Brasis entretanto, quer em trabalho, quer de férias; e, apesar de saber da desigualdade e da miséria que sempre assolaram paradoxalmente um dos países mais ricos do mundo, não estava realmente à espera do tanto que vi.

Como convidada da Direcção-Geral do Livro para participar na Bienal que tinha Portugal como convidado de honra, um mês antes de partir já estava a receber da organização uma lista de conselhos e recomendações a ter em conta para evitar a exposição desnecessária aos perigos e o roubo de documentos; e, mais próximo da viagem, percebi que estava fora de causa circular entre o hotel e o recinto da feira de outro modo que não fosse o transfer contratado pelos representantes do Instituto Camões in loco.

Não prevariquei, até porque quase não consegui meter o nariz de fora da Bienal, porque as actividades eram muitas; mas outros escritores e editores portugueses – que, por causa dos seus programas (ou da sua coragem!), não «obedeceram» – contaram ouvir tiros, ver um homem a ser esfaqueado enquanto jantavam numa esplanada e assistir a um atropelamento à noite, em que não houve uma alminha que parasse para ver como ficara a vítima, nem mesmo o condutor, que chamou a ambulância dentro do carro fechado a sete chaves…

É que as bermas estão cheias de tendas com gente a dormir, e ninguém sabe se há por ali quem se possa chatear a sério por lhe interromperem o sono.

O trânsito, caótico, gera também uma insegurança dos diabos: em avenidas largas, há sempre gente vendendo pipoca ou outra coisa qualquer entre as faixas e «moto-boys» circulando a velocidades estonteantes que, se arrancam o espelho retrovisor de um carro, prosseguem como se nada fosse (e os lesados até preferem assim, porque, se reclamam, aparecem logo mais dez motorizadas rodeando o carro e nunca se sabe o que pode acontecer); o motorista de táxi que me contou muitas destas histórias pediu-me que me sentasse a meio do banco de trás, porque, quando se pára nos semáforos, alguém pode partir o vidro da janela para levar o que encontrar, e assim eu estaria, pelo menos, mais resguardada…

Tirar um curso de engenharia alimentar no Brasil para vir vender gelados do outro lado do mar? Mas qual é o problema?

O porteiro da casa de fados Senhor Vinho, um senhor romeno que vive cá há muitos anos, disse-nos uma vez que os lisboetas não davam valor ao que tinham e estavam sempre a queixar-se. Tinha razão.


Maria do Rosário Pedreira

Nasceu em Lisboa e nunca pensou viver noutra cidade. É editora, tendo-se especializado na descoberta de novos autores portugueses. Escreve poesia, ficção, crónica e literatura infanto-juvenil, estando traduzida em várias línguas. Tem um blogue sobre livros e edição e é letrista de fado.

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1 Comentário

  1. A tranquilidade que ainda se vive em Lisboa mas que está em vias de sofrer uma transformação profunda

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