Foto: Fábio Gonçalves/Fundação Calouste Gulbenkian

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Ao meu lado no jardim das ondas da Gulbenkian a ouvir o som do DJ Marfox no Festival Jardim de Verão … Quem és tu? Que cor tens? Gingas bem? De onde vieste, nesta Grande Lisboa?

Não. Nos jardins da Gulbenkian, no festival que terminou esta semana, não se fazem estas perguntas. Dança-se, partilha-se, sorri-se. Foi o que aconteceu nestes três fins de semana de julho. E foram milhares os que o fizeram.

A programação, curada por Dino D’Santiago, trouxe para os palcos dos jardins mais lindos de Lisboa, artistas africanos ou afro-descendentes – uns mais, outros menos conhecidos. Trouxe poesia e cinema. O melhor da arte urbana que estamos mais habitudos a geolocalizar noutas paragens de Lisboa que não as Avenidas Novas.

A mistura de conceitos bastou para que houvesse uma mistura de assistências e públicos que implodiu com qualquer categorização. E isso foi muito importante para Lisboa. Para Lisboa moderna. A Nova Lisboa, do Dino e de todos nós. Basta andar com olhos abertos – e ver o que se passou nesta Gulbenkian tão diferente dos concerto ou mesmo do museu.

Ao longo de três fins de semanas grandes, de sexta a domingo, houve uma festa de gente para quem aquelas perguntas não fazem sentido, e as respostas ainda menos. Não importava origens, lugares, cores de pele, estilos de roupa, demonstrações de género… Todos dançaram por igual ao som desta música urbana que integra, como é óbvio, as sonoridades negras da cidade.

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Todos. Olha tu, que tens rasta, ou tu que pintaste o cabelo de azul, ou tu que trazes um turbante, uma carapinha em cristas, tu, loiro, tu, moreno, tu de saia curta, comprida, braços à mostra, tapados.

Tantos, tão diferentes…

Como colocar-nos em gavetas? Não dá! Tudo a dançar, isso sim!

Dino D’Santiago mais um vez a pensar com a cabeça e o coração mostrou o caminho para que Dê Tudo Certo. A sua intuição de que a verdadeira integração precisa de mais carinho do que puxões, de mais beijos que murros nos dentes, provou-se, neste Jardim de Verão. E ele mostrou que é destes espaços que Lisboa precisa.

Espaços seguros, onde não se fazem perguntas. E que, se calhar, está mais preparada para isso do que podem indicar as nossas instituições e elites.

A Gulbenkian deu um passo gigante nesse sentido. E já há outros exemplos, como a exposição Interferências, no MAAT, ou o Festival Iminente.

São todos lugares de arte, não por acaso. Lugares de Comunhão, palavra que se lhe retirarmos o cunho religioso significa o culminar da empatia.

Não são lugares onde as identidades se sobrepõem às pessoas – e as diferenças se marcam para nos afastar. Mas lugares onde as pessoas se sobrepõem às identidades – e as diferenças existem para nos juntar.

Cada um como cada qual. Procurando o denominador que nos une, não procurando pertencer a mais nenhum grupo que não seja a mole humana que dança, que salta, que canta e que… sorri.

Oh e se sorri – não consigo traduzir em palavras a energia boa dos concertos, dos poemas, da mini discoteca ao ar livre como acabavam os dias – em que toda a gente ia para casa a gingar as ancas.

Eu vim.

Nem tudo é fácil para todos os que aqui estão. E lá fora, a cidade real pode ser bem dura e cruel. E o caminho é longo até todos podermos sentir o mesmo – sermos cidadãos plenos como os que qui dançam ao som de DJ Marfox, apenas dependentes do seu sentido de ritmo.

Mas que haja lugares onde não se fazem perguntas, não se olha de lado, e se sorri em conjunto, é um sonho lindo, tornado realidade. Que esse lugar, neste quente verão pós-pandemia, no meio de uma guerra, tenha sido a Gulbenkian – é de notar e de aplaudir. E desejar que não páre por aqui.

Que seja por causa do Dino D’Santiago não é de estranhar. Ele é o homem de que Lisboa precisa, neste momento. Que une. Que ama. Que brilha e faz brilhar. E está cá para ela.     

Dino D’Santiago a cantar com a Banda Monte Cara. Foto: Fundação Calouste Gulbenkian

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2 Comentários

  1. Há uma certa Lisboa a nascer. Uns a tomarem os lugares a que também têm direito, outros a abrirem alas a que isso aconteça. Juntos e misturados. Que bom de ver, de sentir, de rir e dançar! E, parafraseando Sophia: ‘Esta é a Lisboa que eu esperava / Com o sorriso inteiro e limpo / Emergidos da noite e silêncio / Livres agora dançamos na substância do tempo’.

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