Nelson Motta Escritor Compositor Jornalista Brasileiro
Nelson Motta na sala do apartamento onde vive, no Príncipe Real: "Enchi o saco do Brasil". Foto: Líbia Florentino.

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Nelson Motta caminha para a varanda do amplo apartamento no Príncipe Real, desde fevereiro a sua casa em Lisboa. “Uma das minhas primeiras paixões lisboetas foi a luz”, confessa o jornalista, escritor, compositor e guionista brasileiro, 77 anos.

Um apaixonado também pelo brilho das estrelas da música do seu país, uma constelação que acompanha de perto desde os anos 1960, dos acordes suaves da Bossa Nova à energia e furor de Anitta. Cosmologia que Nelson Motta também ajudou a construir nas mais de 300 letras que compôs, a maioria de gigantes da Música Popular Brasileira (MPB), do naipe de Erasmo Carlos e Marisa Monte, além de badaladas bandas de rock, como os Cidade Negra e Jota Quest. 

Nelson Motta e os óculos de sol, uma das suas marcas registadas: mais de 300 canções e nome incontornável da música brasileira. Foto: Líbia Florentino.

Nelson Motta escreveu também a icónica Como uma onda, em parceria com Lulu Santos, que nos anos 1980 levou uma geração de “zen-surfistas” a entoarem em luais pelo litoral brasileiro o misto de estrofe e postulado filosófico: “Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia”.

Um verso aparentemente simples que contrabandeia uma reflexão inquietante e por isso mesmo escolhido para ilustrar uma questão na prova de Física numa das edições do Enen, o equivalente ao Exame Nacional português. 

A letra também espelha a dualidade do seu autor, um carioca típico nascido em São Paulo, workaholic confesso e profissional bem-sucedido em tudo que se propôs a fazer, mas que modestamente prefere facultar o sucesso à sorte. Não por acaso, chamou De cu pra lua a sua recém-publicada autobiografia.

Um título irreverente como o próprio Nelson, que nos últimos anos deixou de achar piada ao Brasil e decidiu engrossar a lista dos milhares de brasileiros em fuga da realidade tóxica do país rumo a Portugal. Mais precisamente a Lisboa, agora a sua nova casa, depois do Rio de Janeiro, Roma e Nova Iorque.

Paisagem-dependente e trabalho como hobby

A sua nova casa, escritório e estúdio em Lisboa, para ser mais preciso. Bem antes da pandemia – décadas antes – Nelson Motta já era adepto do home office

“Quando não precisei mais ir à redação, a alternativa era arrendar um escritório, o que era uma ideia ridícula. Em casa, ficava mais à vontade, com a Mari – a cozinheira – a preparar umas comidinhas e o Max – o gato – por perto, trabalhando de cuecas”, conta Nelson, que recebeu a Mensagem também muito à vontade, não de cuecas, mas não muito longe: vestia bermuda e uma t-shirt, e permaneceu descalço.

Nelson Motta e a nova paisagem que o ajuda a escrever a partir de Lisboa. Foto: Drica Albuquerque/Arquivo Pessoal.

O dress code é praticamente o mesmo nas gravações das crónicas para os telejornais da Globo, muitas delas feitas na varanda, tendo Lisboa como cenário. “Há uma hora mágica, quando o Sol ilumina os telhados das casas daqui até ao rio. As pessoas lá no Brasil estão amando o visual”, garante Nelson, um “paisagem-dependente”, como se autodiagnostica.

“No Rio, a minha mesa de trabalho ficava colada no janelão, de cara para o marzão de Ipanema. Em Nova Iorque, trabalhava com o skyline da cidade à minha frente, o Empire State, o Chrysler Building, o Flatiron, um verdadeiro postal”, lembra.

“Ao contrário do que parece, a paisagem não me distrai. É o oposto, sou bastante paisagem-dependente e preciso dela para me inspirar.”

Nelson Motta

Em Lisboa, a rotina repete-se. “Não tenho nem cortinas no quarto. Acordo, abro os olhos e a luz invade. Ao contrário do que parece, a paisagem não me distrai. É o oposto, sou bastante paisagem-dependente e preciso dela para me inspirar”, completa.

E ao que tudo indica, a paisagem de Lisboa tem sido uma boa inspiração. 

O ritmo de trabalho de Nelson Motta continua o de sempre, ou seja, intenso: paralelo às colunas para a televisão e jornais brasileiros, finaliza um musical dedicado a Tom Jobim, um documentário sobre Tim Maia, a nova edição do best-seller Noites Tropicais e um livro de poesias.  “Meu grande hobby sempre foi trabalhar”, resume.

O estilo multitasking de Nelson não o obriga a jornadas diárias fixas. “Tanto posso passar um dia sem fazer absolutamente nada como trabalhar durante 15 horas seguidas”, diz.

Isso permitiu-lhe ultrapassar os seguidos confinamentos praticamente sem abrir mão do hobby de trabalhar. “Mantive o ritmo durante a pandemia e agora trabalho aqui em Lisboa como trabalhava no Rio de Janeiro. Aliás, acho que tenho escrito até melhor, distanciado daquela merda toda que está acontecendo por lá”, desabafa.

Bon-vivant, família e casamentos

“Já perguntei a amigos meus fotógrafos se há alguma impressora capaz de imprimir a luz de Lisboa”, comenta Nelson Motta, enquanto é fotografado na varanda, protegido da luminosidade intensa pelos indefetíveis óculos de sol, uma marca registada.

“Uso praticamente o mesmo modelo há não sei nem quanto tempo. Houve um deles, curiosamente uns bem vagabundos, de plástico, que ficaram comigo uns vinte anos. Tive outros, de marca, mas sempre acabava por voltar a eles”, recorda-se.

Quem acompanha a sessão fotográfica é a mulher de Nelson, a baiana Adriana Albuquerque. A varanda, para além de estúdio, também faz as vezes de praia e “Drica”, como gosta de ser chamada, bronzeia-se de biquíni numa espreguiçadeira.

Drica é o quinto casamento de Nelson, um percurso matrimonial digno de um marido-serial, que se iniciou com Mônica Silveira – com quem teve a filha Joana – seguido pela atriz Marília Pêra, o  seu relacionamento mais duradouro, que rendeu como frutos Nina e Esperança. Mais recentemente, Constanza Pascolato e Adriana Penna.

Adriana Albuqueque, a Drica, atual esposa de Nelson Motta. Foto: Drica Albuquerque/Arquivo Pessoal

Antes da fase dos “sim”, Nelson Motta ainda namorou com a cantora Elis Regina e as memórias afetivas da relação ajudaram-no a escrever o guião para a biografia cinematográfica da “Pimentinha”, levado aos ecrãs em 2016 pelo realizador Hugo Prata e a atriz Andréia Horta a dar vida a Elis.

Apesar da fama de bon-vivant, Nelson não esconde a faceta família. Pai, avô e agora bisavô, em 2000 pôs um ponto-final na sua “experiência” nova-iorquina de oito anos só para voltar ao Brasil e juntar-se à família. “Minha vida em Nova Iorque era fantástica, mas não sou apegado às coisas. Naquela altura, minhas filhas, minha mulher e meus pais estavam no Brasil e não fazia sentido ficar lá sozinho”, explica.

A fase “fantástica” de Nelson Motta na Big Apple ficou marcada pela participação no programa Manhattan Connection, onde dividiu a bancada com ícones do jornalismo brasileiro como Lucas Mendes e Paulo Francis.

Curiosamente, a atual fase lisboeta também foi motivada pela família. “Em 2021, passei o meu aniversário, em outubro, em Lisboa, onde vive a minha filha, a atriz Nina Pêra. A minha outra filha, a Esperança, mora em Madrid e juntou-se a nós para o níver do pai. Quando vi a qualidade de vida que levavam na Europa, decidi me mudar”, lembra.

“Não aguentava mais o Brasil e sabia que esse ano, com a eleição, a inflação e a crise, ia ser bem pior. Como dizia Glauber Rocha: enchi o saco!

Nelson Motta

“Não que fosse uma novidade morar na Europa. Vivi em Roma nos anos 1980, sei como é. O problema é que não aguentava mais o Brasil e sabia que esse ano, com a eleição, a inflação e a crise, ia ser bem pior. Como dizia Glauber Rocha: enchi o saco!“, desabafa.

Nelson conta que a mudança foi feita de forma expressa. Depois do “níver”, em outubro, passou o Natal em Espanha e voltou ao Brasil. Em fevereiro, já estava de regresso, em definitivo, a Lisboa. “Arrumamos tudo em praticamente um mês. Tempo para desmontar o apartamento em Ipanema e fazer as malas. A minha sorte é que a Drica é especialista nisso”, diverte-se.

Mais uma vez em modo “de cu pra lua”, Nelson teve a sorte de encontrar o apartamento lisboeta logo na primeira tentativa. “Pertence ao meu amigo Drauzio Varella – um mediático médico e escritor brasileiro – que me arrendou o apê de boca e deixou-me à vontade para ficar o tempo que quisesse”, conta.

A preocupação com a família rebate no cuidado com o corpo. Aos 77 anos, Nelson ainda se recupera de uma delicada cirurgia na medula que quase comprometeu em definitivo sua mobilidade. 

Nelson Motta e a sua nova companhia. Foto: Drica Albuquerque/Arquivo Pessoal

Em constante tratamento fisioterapêutico, para manter o equilíbrio – e uma dose de charme – um par de elegantes bengalas misturam-se à decoração minimalista do apartamento, ao lado de porta-retratos e uma máquina de escrever, onde se lê datilografado uma mensagem de amor escrita por Drica.

“Considero um dever me manter bem para que todos fiquem bem. Bom da cabeça e do corpo”, resume o jornalista, enquanto maneja o tabaco Crossroad numa espécie de cachimbo. “Passei metade da minha vida a tentar deixar de fumar. Hoje só dou umas baforadas, do tipo me engana que eu gosto, pois sei que na minha idade parar de uma vez ia ser foda”, explica.  

A mobilidade ainda ligeiramente reduzida não o impede de viajar sempre que está entediado. “Mantenho as malas feitas”, diz, apontando para um par de bagagens no canto da sala. “Quando me dá na telha, passo uma semana com a Drica em Londres ou Roma”, explica. 

“Sei que tenho pouco tempo pela frente, não sei quanto, mas é sempre pouco, e quero mais é curtir a vida.”

Do Rio da Bossa Nova à bunda de Anitta

E de curtir a vida, Nelson Motta entende. As carreiras de jornalista e de boémio iniciaram-se concomitantemente no Rio de Janeiro da década de 1960, o Rio dos “Anos Dourados”, de Tom, Vinícius, das inspiradoras garotas de Ipanema, da Bossa Nova e da Jovem Guarda. 

Anos Dourados que passaram de forma efémera, antes de o Brasil mergulhar nas sombras da ditadura militar. Um tom sombrio que Nelson Motta reconheceu na sua primeira visita a Lisboa, em 1963.

Marcelo Camelo e Nelson Motta, a comporem em Lisboa. Foto: Drica Albuquerque/Arquivo Pessoal.

“A primeira impressão foi melancólica, com as pessoas todas vestidas de preto e cabisbaixas pela rua. As lojas também eram tristes, desfasadas uns 20 anos, até mesmo para os padrões brasileiros. Tinha 19 anos e perguntei ao meu pai se em Lisboa só tinha velhos e ele respondeu-me que não, mas que com o salazarismo, até os jovens eram velhos”, recorda-se.

Apesar da melancolia, Nelson cumpriu um colorido roteiro turístico guiado por Eça de Queiroz. “Havia lido todos os livros dele e fui conhecer a Lisboa que lá estava, a minha Lisboa afetiva, a Lisboa do Eça”, conta.

Nelson também esteve em Lisboa nos primeiros dias após o 25 de Abril. “Era uma loucura! As pessoas pelas ruas, os muros todos pichados. Era a revolução feita por aqueles jovens tristes e cabisbaixos de anos atrás”, recorda-se o jornalista, que contabiliza inúmeras outras escalas à capital portuguesa antes de fixar residência.

E na multicor Lisboa dos anos 20 deste novo século, Nelson Motta continua a curtir a vida. Costuma ir a concertos, exposições e reunir-se com os amigos. Mantém também o costume de compor, como fez nas últimas décadas, estabelecendo um diálogo constante com diferentes gerações.

Em maio, Nelson terminou Viagem sem destino, em parceria com o ex-Los Hermanos Marcelo Camelo, que em 2015 também trocou o Rio por Lisboa. Antes, o letrista havia colaborado com o novo trabalho da mulher de Camelo, a cantora Mallu Magalhães, assinando a eletro-bossa Barcelona, do disco Esperança (2021). Na canção, Nelson chega a emprestar a sua voz num dueto com Mallu.

“A Anitta não é só bunda, embora a bunda dela seja fundamental, é um símbolo de poder e liberdade feminina. E quando ela se vira, canta e dança pra cacete.”

Nelson Motta

O respeito com as novas vozes da música brasileira é uma espécie de chancela de um artista que faz parte de uma geração especial, contemporâneo de Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Ney Matogrosso, Rita Lee e Milton Nascimento, todos a rondar os 80 anos. “Sem falar em Roberto e Erasmo Carlos, que estão na categoria sub 90 e do Jorge Benjor, cuja idade é um mistério e nem é bom se tocar no assunto”, brinca.

Entre os novos artistas brasileiros, Nelson Motta guarda um carinho especial à cantora Anitta. “A Anitta emociona-me. Veio lá de Honório Gurgel, onde tinha tudo para dar errado e acabou por ser tudo, graças à excecionalidade e força de vontade dela.”

Nelson Motta mantém o dress code bastante à vontade em Lisboa: home office décadas antes da pandemia. Foto: Líbia Florentino.

Nelson lembra que os CEOs brasileiros chegam a pagar cerca de 50 mil euros para ouvi-la falar por duas horas e que a cantora faz parte do conselho de administração do banco digital Nubank. “A Anitta não é só bunda, embora a bunda dela seja fundamental, é um símbolo de poder e liberdade feminina. Mas quando ela se vira, canta e dança pra cacete”, continua.

Nelson Motta revela que entre os ensaios para o Rock in Rio Lisboa, Anitta conversou com ele sobre uma eventual participação no novo documentário que está a produzir sobre a vida dela para a Amazon. “Ela disse que precisava de um jornalista para acompanhar a digressão e que havia pensado em mim”, conta.

Ambos, porém, chegaram à conclusão de que até para o Nelson Motta nada do que foi será do jeito que já foi um dia e que talvez ele não estivesse tão disposto a cumprir as exigências das rotinas de gravação, que incluem uma escalada ao Himalaia, com pernoitas em cabanas e paisagens gélidas.

“Falei à minha querida Anitta que iria encontrar um novo Nelson Motta para ela”, disse ele, para ouvir de volta da cantora uma daquelas verdades que parecem incontestáveis: “Nelson Motta só há um.”

E a Anitta sabe o que diz, Nelson Motta só há um, mesmo.


Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 49 anos, há cinco em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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2 Comentários

  1. Creio que vivemos numa época de grandes desafios e espantosas mudanças, mas há muita gente que sonha e vive no Monte Olimpo, da Antiga Grécia! Sem mais comentários!!!!

  2. Nelson Motta é um excelente entrevistado, mas dá sempre gosto ler um texto bem escrito, com o ritmo certo para nos levar de uma só vez do princípio até ao fim.

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