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O sentido de vizinhança já existia neste prédio em Santa Engrácia, freguesia de São Vicente, na Rua General Justiniano Padrel, antes mesmo de ser casa para muitos. O passado não se deteta imediatamente pelo olhar e nem mesmo os vizinhos parecem conhecê-lo. Mas basta atravessar os corredores até chegar à porta das traseiras para se ter um vislumbre de outros tempos.

Ouve-se um cão a latir e Matisse – o cão, não o pintor – surge a galgar as escadas de um pátio atravessado por um estendal onde seca a roupa dos vizinhos. Maria do Céu Jesus faz sinal a Mati (como gosta de ser tratado pelos amigos) para regressar ao seu dono, e ela própria sobe as escadas do pátio em direção a um lugar esquecido: o das hortas.

Foi no workshop de hortas urbanas da Mensagem que Maria do Céu se apercebeu que este lugar no seu prédio merecia um olhar mais atento. Afinal, é lá que se encontra com uma amizade recente, Matteo Sarná, e que dá vida a pequenas hortas em plena baixa de Lisboa.

Matteo Sarná enrola um cigarro na sua oficina, com as mãos sujas do ofício da terra mas também da madeira. Nesse seu pequeno abrigo, amontoam-se as madeiras, as ferramentas e os velhos objetos que precisam de reparação, como um rádio enferrujado. Para lá dele, um amplo terreno fervilha com vida: tomate, abacate, couve-flor, ervilhas, bróculos…

São de gerações e de lugares muito diferentes: Maria do Céu tem 54 anos, é office manager e de Lisboa. Matteo tem 36, é marceneiro e natural de uma pequena cidade perto de Roma, onde cresceu a cultivar azeite e onde passa o verão a perpetuar a tradição. Mas, apesar das diferenças, falam como velhos amigos, ou melhor, como aquilo que realmente são: vizinhos.

A horta que Matteo construiu nas traseiras do prédio. Foto: Inês Leote

A Quinta do Saloio

Maria do Céu nunca se questionara muito sobre aquelas hortas, nem tinha muito tempo para pensar no espírito de vizinhança que se fora perdendo na cidade. Até que a pandemia a fechou em casa. Aí, passou a observar da sua janela o jovem que cavava num dos talhões.

Era Matteo, que ali chegara em 2017, embora já andasse por Lisboa há 12 anos a trabalhar na área da marcenaria, e que transformara aquele espaço “cheio de lixo” num verdadeiro jardim, alimentando as hortas que resistiam.

Uma dessas hortas, que sobrevive com belas flores, é a de Manuela Martins. Maria do Céu bate à porta desta vizinha com toda a naturalidade. Manuela tem a panela do jantar a ferver, mas nem assim recusa uma oportunidade para uma conversa à porta de casa. Com a jovialidade dos seus 74 anos – que, dizem os vizinhos, deve-se à sua paixão pelos cremes e perfumes que a rejuvenescem – traça o seu percurso de vida até à chegada àquele prédio.

Manuela Martins é a moradora com a horta mais antiga do prédio. Foto: Inês Leote

Nasceu e cresceu na Calçada dos Barbadinhos, paralela à General Justiniano Padrel, e para aqui veio em 1967. Desses primeiros anos, recorda plantar com o marido batatas, couves e videiras, e tem saudades dos churrascos animados de Santo António que se faziam no pátio.

Este prédio, claro, nem sempre foi um prédio. As hortas são uma reminiscência do passado. Quem sabe bem a história é Joaquim Claro, administrador do grupo Vizinhos de São Vicente, também nascido e criado na Calçada dos Barbadinhos.

Ainda em criança, brincou naqueles que eram terrenos de semeadura, explorados por um homem conhecido pelo “galego”. Chamavam-lhe a Quinta do Saloio. Por lá, os bois “Castanho” e “Galante” lavravam a terra e a vacaria abastecia os fregueses com leite fresco todas as manhãs. Mas, a partir de 1960, vieram as mudanças.

De repente, a rua desses terrenos ganhava o nome do General Justiniano Padrel (um troço da também recente rua Barão Monte de Pedral) e as gruas interpunham-se na quinta da sua infância. Do solo, já não cresceu mais sustento para os fregueses. Cresceram os prédios residenciais.

A antiga Calçada dos Barbadinhos. Foto: Arquivo Municipal de Lisboa

Com o passar dos anos, Lisboa expandiu-se e as quintas onde as crianças brincavam desapareceram. Mesmo as hortas deste prédio foram sendo esquecidas, com o envelhecimento dos seus moradores. Mas isso não significa que tudo se tenha perdido: ainda há sentido de vizinhança em Santa Engrácia e são Maria do Céu e Matteo quem planta as sementes.

Recuperar o espírito de vizinhança nas hortas

Durante as descobertas da pandemia, Maria do Céu reparou numa ameixoeira que crescia pelas hortas, colheu as suas ameixas e pô-las num balde no hall de entrada. Dias mais tarde, uma jovem batia-lhe à porta com compota de ameixa. Foi então que começou a pensar sobre o espírito de vizinhança que se podia criar naquele prédio.

Foi também nessa altura que começou a cultivar, fazendo crescer cenouras e rabanetes do solo. “É aqui que dou cabo das unhas todos os fins-de-semana”, diz com um sorriso. “Mas não percebo nada de agricultura, só leio umas coisas na Internet”. Tudo com a ajuda do seu novo companheiro de jardinagem.

Matteo é o verdadeiro especialista, claro. Traz a agricultura no sangue e chegou mesmo a construir um espaço para que todos pudessem descansar e usufruir da natureza. Um espaço de vizinhança, onde se erguia uma pérgola. Mas há dias, essa pérgola desabou. O muro da horta, por não estar preso ao chão, sofreu com a pressão da terra e caiu. “Era uma zona muito bonita”, lamenta Maria do Céu.

O grande desafio até agora tem sido a inclusão dos vizinhos mais novos nestas hortas. “Não aderem tanto”, dizem Matteo e Maria do Céu. Talvez por falta de tempo e de estímulo. Há uma solução para isso, afirma Maria do Céu: “Não ter grandes expectativas”. Para esta vizinha proativa, a horta é um passatempo de fim-de-semana. Uma forma de cultivar, sim, mas também de conviver.

O muro que desabou sobre o espaço de convívio. Foto: Inês Leote

E de criar uma comunidade numa Lisboa sem tempo. Onde as quintas que alimentavam os fregueses deram lugar a grandes edifícios. Onde as portas dos prédios se fecham sem se conhecer os vizinhos que moram mesmo em frente. Maria do Céu gostava que essa realidade mudasse: que os vizinhos saíssem dos seus apartamentos e se dessem a conhecer.

Que os espaços vazios fossem aproveitados. Que houvesse mais churrascos no pátio. Que uma antiga quinta continuasse a dar fruto e flor, unindo a vizinhança de Santa Engrácia como acontecia noutros tempos, em que os bois puxavam o arado e havia leite fresco todas as manhãs.

Ainda não sabe bem como fazê-lo, mas passa muitas vezes por um descampado no topo da rua General Justiniano Padrel onde vão surgindo flores selvagens, e pensa na possibilidade de ali criar uma horta comunitária, um lugar de convívio. Onde aquilo que está ao abandono possa ganhar um propósito de todos para todos.


Ana da Cunha

Nasceu no Porto, há 25 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.

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