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Lixo, essa palavra que acarreta todos os maus sentidos. Se o sentido for literal, repugna, diz-nos o dicionário. Se for figurado, é ralé. E nem em verbo significa sentimento bom perante o outro. O lixo pode também ser controverso quando chamado à discussão sobre uma cidade: a gestão da recolha em Lisboa sempre deu azo a polémica. Mas há um homem para quem significou riqueza e a quem valeu o nome escrito na história. Falamos de Manuel Martins Gomes Júnior, conhecido pela comunidade que o viu crescer como “o rei do lixo”.

Quem passa numa das retas da estrada Nacional 10, na freguesia de Coina, Barreiro, vê-a ali, pousada sobre um terreno baldio, de sobreiros largados ao acaso: uma torre, com ar de castelo de outros tempos, altiva, vazia de gente e de janelas. Foi uma paisagem elogiada em tempos, mas vendo-a agora, a Torre de Coina (ou Torre do Inferno, como também ficou conhecida) não faz adivinhar que foi palco de uma das histórias mais enigmáticas partilhadas entre Lisboa e a margem vizinha.

E casa deste homem, Manuel Martins Gomes Júnior.

Torre de Coina ou Torre do Inferno. O lugar de Coina que guarda uma história de Lisboa. Foto: Direitos Reservados

O aspeto faz adivinhar anos de degradação antiga e a presidente da União de Freguesias de Palhais e Coina, Naciolinda Silvestre, avança um número: este edifício encontra-se “ao abandono há cerca de 40 anos”. Sobre a sua origem já cá andam poucos para a contar. Os que “tinham bastante conhecimento do assunto e apreço” já não podem explicar como se tornou esta torre o castelo de Manuel Júnior.

Mas um estudo realizado pelo investigador Vitor Manuel Adrião, licenciado pela Universidade de Lisboa em História e Filosofia, imortaliza esta história, que terá tido início ali “nos primeiros decénios do século XX”. E tudo terá começado com a compra de um moinho de água.

Nascido em Santo António da Charneca, em 1860, “de uma família humilde”, Manuel Júnior terá crescido com a ambição de inverter a sua condição socioeconómica. Não bastava conquistar uma vida mais estável, prometeu a si mesmo “tornar-se rico”, conta o investigador.

“Como marçano” em Lisboa, ocupou o seu tempo e guardou todo o dinheiro para, mais tarde, investir. Chamaram-lhe visionário, porque decidiu com esse dinheiro comprar um moinho de água. Um moinho entretanto destruído por um incêndio de cuja responsabilidade foi acusado pelo povo da terra. Tudo porque o contrato com a seguradora lhe terá permitido, após a destruição, amealhar uma elevada indemnização.

Fama já ele a tinha – acabou chamado de “rei do lixo” -, mas faltava tirar um verdadeiro usufruto dela. Por isso, construiu o tal edifício que ainda hoje chama atenção na paisagem. Foto: Direitos Reservados

Qual a relevância deste capítulo da sua vida? É que foi precisamente com esta quantia que Manuel Júnior adquiriu “uma pequena propriedade e se entregou à especulação agrícola, emprestando dinheiro, sob pesados juros, aos proprietários vizinhos de Coina para cultivarem os seus terrenos”, lê-se no documento do investigador Vitor Manuel Adrião.

Manuel Martins Gomes Júnior, ao centro, rodeado pelos seus empregados, na Quinta do Inferno no início do século XX. Imagem retirada do blog criado pelo autor do estudo

A mesma propriedade onde, depois de uma “época em que as colheitas foram más”, obrigando os agricultores a endividar-se, Manuel terá acabado por unir parcelas (dos devedores) e formado a sua quinta de 300 hectares.

A quinta onde nasceria a Torre de Coina.

Num ápice, terá saltado de uma vida modesta para a de um grande proprietário. Escolheu a suinicultura e tornara-se um rico exportador de carnes.

Fotografia do interior do cedida por Gary Hammond.

Do outro lado da margem, encontrou um segundo negócio e com potencial para o ajudar no primeiro: Manuel Júnior “atingiu o auge ao assegurar o controlo da recolha dos lixos em Lisboa”, na altura composto apenas por matéria orgânica, que servia de alimento para os porcos que criava.

O transporte terá sido garantido através das suas cinco fragatas que percorriam o Tejo de uma ponta para a outra. Cada uma batizada com um nome, num exercício de ironia: Mafarrico, Lúcifer, Belzebu, Demónio e Satanás. Na verdade, conta o investigador Vitor Manuel Adrião, foi “uma provocação desaforada ao regime eclesiástico secular que a recente Revolução de 5 de Outubro depusera.” Foi, aliás, assim que ficou com fama de antiteísta obstinado.

Fama já ele a tinha – acabou chamado de “rei do lixo” -, mas faltava tirar um verdadeiro usufruto dela. Por isso, construiu o tal edifício que ainda hoje chama atenção na paisagem: à medida das suas posses e ambições, nasce a Torre de Coina, também conhecida como Torre do Inferno.

Ali terá permanecido vários anos, até à data da sua morte, em 1943, com 83 anos. Morreu sob “circunstâncias estranhas cujas causas nunca foram apuradas”, diz o investigador. 

A morte, no entanto, não significou o desaparecimento do seu nome. Na verdade, foi eternizado numa rua na sua localidade natal, Santo António da Charneca: Rua Manuel Martins Gomes Júnior.

Hoje não haveria lugar para um “rei do lixo”. Não só porque o município de Lisboa é atualmente a entidade responsável pela recolha e transportes dos resíduos, sejam eles de lixo comum ou materiais recicláveis. Mas também porque Manuel Gomes Júnior viveu em tempos em que os resíduos eram apenas orgânicos e só por isso conseguiu fazer deles alimento para os seus animais. 

No dia 17 de maio é assinalado o Dia Internacional da Reciclagem, um marco instituído pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO)

Conhece mais sobre o “rei do lixo”? Gostávamos que nos contasse:


Catarina Reis

Nascida no Porto há 26 anos, foi adotada por Lisboa para estagiar no jornal Público. Um ano depois, entrou na redação do Diário de Notícias, onde aprendeu quase tudo o que sabe hoje sobre este trabalho de trincheira e o país que a levou à batalha. Lá, escreveu sobretudo na área da Educação, na qual encheu o papel e o site de notícias todos os dias. No DN, investigou sobre o antigo Casal Ventoso e valeu-lhe o Prémio Direitos Humanos & Integração da UNESCO, em 2020.

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6 Comentários

  1. Vi tantas vezes esse edifício, a caminho da praia de Sesimbra, que faz parte da minha infância. Ainda tenho a esperança que se possa recuperar e não desapareça. Obrigado à Mensagem por contar também histórias não só de Lisboa cidade, mas de toda a área metropolitana de Lisboa.

  2. Bom dia gostaria de saber o porquê do abandono da casa ,e triste todas ou quase todas elas têm este fim triste

  3. Desconhecia esta história. Gostei de ver. Obrigado pelos esclarecimentos. Cumprimentos

  4. Eu vivi nessa quinta quando era pequena. A quinta empregava muitas pessoas, umas moravam lá e outras na povoação. Era enorme, tinha muitas àrvores de fruta de várias espécies, grandes explorações tanto de gado bovino como suíno. Tinha um lagar de azeite e outro de vinho. Uma oficina própria, para o concerto das máquinas agriculas e uma carpintaria, esta onde trabalhava o meu avô e onde eu me perdia por entre as pilhas de madeira.
    Quanto à torre apesar de nunca ter sido terminada , foi habitada pelos trabalhadores da quinta, e por as abelhas do meu avô que instalou um apiário na torre. Não havia àgua nem luz. Estamos a falar dos anos 60!

  5. Devia ser recuperado pq faz parte da historia da zona metropolitana de Lisboa . Durante anos interroguei-me sobre as suas origens . Obrigado

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