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Ninguém o dira, hoje, mas a verdade é que Santo António dos Cavaleiros, Loures, foi projetado em relação com a natureza e inaugurado a 24 de julho de 1969. O responsável pelo projeto de paisagismo foi o próprio arquiteto Gonçalo Ribeiro Telles. A equipa técnica contava ainda com nomes como o do arquiteto Fernando Ressano Garcia, o topógrafo António de Oliveira Barroso e o engenheiro Pereira Gomes, num projeto executado pela ICESA – Indústrias de Construção e Empreendimentos, da qual o arquiteto Alberto Reaes Pinto foi coordenador e projetista.

Alberto Reaes Pinto, diretor e professor catedrático da Faculdade de Arquitetura e Artes da Universidade Lusíada de Lisboa, onde coordena, também, o Centro de Investigação em Território, Arquitetura e Design (CITAD), recorda o projeto de urbanização de Santo António dos Cavaleiros como um projeto inovador e, de certo modo, pioneiro a pensar a questão da sustentabilidade na área da Grande Lisboa.

O arquiteto Alberto Reaes Pinto, um dos responsáveis pelo projeto de Santo António dos Cavaleiros. Foto: Inês Leote

Nesta entrevista, o arquiteto explica o conceito de “cidade-jardim” e como este pode e deve transportar-se para as cidades de hoje.

Em meados de 1960, decidiu urbanizar-se Santo António dos Cavaleiros. Em que contexto surge este projeto de urbanização?

Há vários fatores: por um ladoa empresa ICESA, de pré-fabricação de grandes dimensões, que surgiu, precisamente, relacionada com o défice de edifícios de habitação que tínhamos. Passavam menos de duas décadas da Segunda Guerra Mundial, responsável pela destruição maciça das cidades, onde a grande concentração das pessoas fazia-as viver em cada vez piores condições. Por outro lado, assistia-se, também, a uma explosão da natalidade. Estes foram processos que deram origem a uma escassez muito grande de habitação e, portanto, em muitos governos da Europa utilizou-se 5% do PIB e o Plano Marshall – financiado pelos Estados Unidos – para a reconstrução das cidades com novos materiais como o cotão e investindo-se na construção industrializada, nomeadamente, na pré-fabricação.

E em Portugal?

Em Portugal e nos outros países da Europa que não entraram diretamente na Guerra houve, também, esta escassez. Não diretamente pela destruição das cidades, mas porque a oferta era menor que a procura. Isso trouxe uma especulação dos terrenos e imobiliária. Nessa altura, fazíamos, mais ou menos, 3,6 fogos por mil habitantes. No resto da Europa faziam, pelo menos, 10. Portanto, a ICESA aparece para dar resposta a esta escassez, construindo rapidamente e a baixo preço. Santo António dos Cavaleiros serviu como volante para isso.

A freguesia foi urbanizada à volta da ideia de se fazer uma “cidade-jardim às portas de Lisboa”. De onde veio este conceito: «cidade-jardim»?

O espírito era criar, em Santo António dos Cavaleiros, a maior massa verde possível. Nós tivemos a trabalhar connosco o arquiteto Gonçalo Ribeiro Telles. Em Santo António, havia uma grande altimetria no terreno e foi necessário estudar a implantação dos edifícios de acordo com as curvas de nível e, por isso, outra coisa fundamental foi a criação do lago. A zona tinha um terreno muito alto e com muitos fios de água. Gonçalo Telles juntou os fios de água, arranjou muros em pedra solta, que filtram as impurezas, e criou um lago.

A ideia era a de criar um núcleo residencial com vastos espaços verdes?

Sim, mas o desenho da urbanização teve outros conceitos como a separação entre peões e automóveis. Vê-se que as ruas não têm escape, não têm continuidade. Tem de se voltar para trás, isto para obrigar a redução da velocidade. Então, era “cidade-jardim” porque íamos fazer uma cidadezinha, um núcleo residencial, muito perto de Lisboa, a dois quilómetros e meio, mas sem aquele compromisso do trânsito e da poluição. No fundo, foi o princípio que sempre seguimos, criar ali uma cidade menos densa. Até certo ponto, podemos dizer que se antececipou um pouco o problema da sustentabilidade.

De que forma?

Enfim, a primeira definição do desenvolvimento sustentável foi em 1987, com o relatório Brundtland, que se pode resumir a resolver os nossos problemas não os deixando para as gerações futuras. Isto não é o que vemos atualmente porque as pessoas tratam mal o património que recebem e aquele que criam sem pensar que esse património não é seu, mas sim para as gerações futuras e, por isso, deve ser tratado precisamente para ter a maior longevidade possível. Houve, em Santo António dos Cavaleiros, realmente, um pouco já dessa preocupação, principalmente ao criar o mais possível de massa verde.

Em vários panfletos promocionais da época realça-se a ideia de “uma nova maneira de viver”. Como é que este projeto proporcionava isso, relativamente ao que se via na época?

Nova maneira de viver era o fugir da cidade e encontrar zonas residenciais menos poluídas com jardins, espaços verdes e com melhor qualidade do ar. Essa qualidade do exterior e das zonas verdes, da não densidade dos edifícios, era uma atração para as pessoas que, ao mesmo tempo, viviam apenas a cinco minutos de Lisboa. E até na própria organização do espaço dentro dos edifícios notava-se a mudança da maneira de viver das pessoas.

Como assim?

Normalmente, as casas tinham o corredor ao meio, sala de visitas e sala de jantar que estavam fechadas, a cozinha com o quarto de criada, etc. Tivemos ali uma preocupação de organizar o espaço na relação entre as zonas de dormir e as zonas de estar. Por exemplo, a preocupação de que a cozinha não ficasse segregada, mas sim numa zona que permitisse que o marido ou os filhos pudessem partilhar as tarefas. Em vez de o marido estar a ver televisão ou a ler o jornal numa sala à parte, havia uma zona que se prolongava à cozinha e que desempenhava uma função social. Portanto, essa é, também, uma mudança. Mas houve em todo o conceito do projeto uma preocupação com a não segregação.

Não segregação em que sentido?

Não segregação dos residentes do bairro, digamos, entre diferentes classes sociais, uma preocupação a nível económico e social. Pôr de um lado só os edifícios mais económicos e de outro os de qualidade mais elevada, como se via na época. Nós tínhamos apartamentos de pelo menos duas categorias. Por exemplo, há ruas em que tem de um lado uns edifícios mais económicos e outros médios ou com um standard mais alto. Penso que essa preocupação era também pioneira.

Contudo, este foi um paradigma que não sobreviveu ao tempo, principalmente, com o crescimento demográfico nos arredores da capital…

Porque o dinheiro começou a ser mais barato, começou a construir-se e a ser mais fácil comprar e vender e de uma situação de escassez, de que lhe falei há pouco, passámos para uma situação de excesso, a partir dos anos 1990, com cerca de 30 mil fogos a mais. Construiu-se mais do que havia necessidade.

Como é que se desenrolou esse processo, especificamente, em Santo António dos Cavaleiros?

Havia o núcleo residencial que construímos em 36 hectares e depois eram só terrenos agrícolas à volta, ou seja, não havia mais nada. Depois cresceu, como uma bola de neve. Foram-se comprando terrenos e fazendo casas para vender. Mas havia uma diferença de nível de qualidade entre aquele núcleo residencial de Santo António dos Cavaleiros e o que surgiu depois.

Em que sentido?

Houve uma grande preocupação de integrar o trabalho do paisagista Gonçalo Telles com a implantação dos edifícios, não eram só os edifícios, eram todas as infraestruturas à volta, os espaços verdes, o desenho dos bancos do jardim, os bebedouros de água, as caixas de areia para os miúdos brincarem… Era toda uma preocupação com a qualidade do desenho que depois as outras construções à volta, neste aspeto, não exploraram. Ninguém investiu tanto nesse desenho da área urbana como nós porque era um conceito que não existia.

Alberto Reaes Pinto, um dos arquitetos da ICESA responsável pela urbanização de Santo António dos Cavaleiros, é atualmente diretor e professor catedrático da Faculdade de Arquitetura e Artes da Universidade Lusíada de Lisboa, onde coordena, também, o Centro de Investigação em Território, Arquitetura e Design (CITAD).

Porque não houve esse investimento, também, por parte daqueles que começaram a construir à volta?

Porque aí entra a especulação imobiliária. Quando se visa muito só o lucro… quer dizer, tudo visa lucro e nós também o visávamos, não há aqui milagres, mas nós pretendíamos, também, fazer algo com qualidade. Portanto, à volta aproveitaram-se da existência dessa unidade com uma maior qualidade e foram construindo só para vender. Por isso, todo aquele tratamento dos espaços verdes foi menorizado em função do lucro, penso eu.

O fluxo migratório que se deu com o fim da ditadura pode, também, ter tido um impacto nesse crescimento?

Sim, penso que sim. Este crescimento de que falo não foi imediato. Foi mais tardio e pode ter tido esse impacto, sim. Começaram a construir-se casas para alojar a população que imigrou para Portugal depois do derrube do regime. Mas o problema principal, a explicação do não investimento na qualidade, teve que ver com o facto de o esforço financeiro que se fez à volta ser mais limitado porque tinha um objetivo mais simplista: fazer casas para vender, que as pessoas compravam, porque havia grande procura.

É preciso repensar os espaços urbanos… 

É fundamental. As cidades, hoje, têm que gerir o problema da redução das emissões de dióxido carbono porque, atualmente, produzem dois terços do total das emissões globais. Só a construção de edifícios e a sua utilização tem uma responsabilidade de cerca de 30% da produção de CO2. Por isso, as cidades hoje têm que gerir bem os problemas da poluição, da gestão ambiental, dos resíduos, da habitação e olhar para a massa verde como essencial consumidor do dióxido de carbono. A separação dos edifícios das ruas, das pessoas, dos carros, das bicicletas… Tudo isso é fundamental para ter uma cidade bem conseguida, onde os espaços verdes são prioridade.

Como é que esta ideia de “cidade-jardim” pode ser transportada para os dias de hoje?

Dando-se maior importância à qualidade de vida das pessoas. O nosso crescimento, depois da Segunda Guerra Mundial, tem sido um crescimento desequilibrado em relação às três vertentes da sustentabilidade: a ambiental, a económica e a social. O que aconteceu depois da guerra, e que ainda acontece, infelizmente, é que este crescimento económico se faz abruptamente à custa da qualidade de vida das pessoas, ou seja, da vertente social, e à custa da proteção do ambiente. É um crescimento que vai aumentando também o fosso entre ricos e pobres e tudo isto leva a situações que degradam o planeta. Temos que inverter esta situação rapidamente, melhorando a qualidade de vida das pessoas, pensando nas cidades e nos seus edifícios. Pensando que os edifícios não são só para nós, são para ter o maior ciclo de vida possível e para serem reutilizados pelos vindouros.

Construção sustentável é tema caro ao arquiteto Alberto Reaes Pinto, que a defende para o presente e futuro das cidades. Foto: Inês Leote.

E como é que se faz essa construção responsável e sustentável dos edifícios para as próximas gerações?

Hoje é urgente fazer uma transição energética, passando da utilização dos combustíveis fósseis para as energias renováveis, que é o que está a tentar fazer-se com muita dificuldade. Por isso, os edifícios devem, também, ser feitos com materiais renováveis. Veja o cimento ou o tijolo… a sua exploração e fabrico são feitos à custa do carbono. Por isso, esses materiais vão para os edifícios cheios de carbono e durante o seu ciclo de vida estão a produzir emissões tóxicas. Quando se utiliza estes materiais temos colas altamente agressivas que durante certo tempo vão também produzindo emissões que fazem mal à saúde dos seus utilizadores. Portanto, a ideia de Santo António dos Cavaleiros era uma ideia de uma melhor qualidade de vida, mais calma, com caminhos de peões separados dos veículos, massas verdes, jardins, as caixas de areia para os miúdos, bebedouros… aquilo foi tudo desenhado “tim-tim por tim-tim”. Para mim, foi uma ação pioneira, até do ponto de vista da sustentabilidade, ao contrariar a cidade cada vez mais poluidora e agressiva.


* Marta Pereira mora às portas de Lisboa há 22 anos, mas sempre fez a sua vida no centro da capital. É entre miradouros, vistas sobre o Tejo e dando um saltinho à cidade da bossa nova, Rio de Janeiro, onde os pais moraram durante seis anos, que se sente mais feliz. Está a terminar uma licenciatura em Ciências da Comunicação na Universidade Nova de Lisboa e estagiou na Mensagem de Lisboa. Este texto foi editado por Catarina Pires.

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