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Irritava-me aquela mania que eles tinham de ter tudo direitinho. No início, tinha graça pensar que vivia numa loja do Ikea: os armários luziam, nada parecia ter sido usado, não havia um pêlo de pestana fora do sítio. O problema era viver numa coisa que parecia inabitada.

Eu até sou organizada, mas aquilo não fazia bem a ninguém. Era ditadura, não convívio. E estar desconfortável em casa é pior do que estar à espera nas Finanças.

No início, a inexperiência ditou quase tudo, a esperança ditou o que faltava, e estava muito contente com a casa. Era muito diferente das minhas em Vizela e Guimarães e eu ainda não podia adivinhar o que viria.

Num primeiro olhar, não vi defeitos. Só via aquela luz de Lisboa sem igual a bater no terraço, só andava vinte segundos até à Alameda, só via as senhoras de batom a passear cães a quem tratavam por “você” enquanto pediam uma bica.

Mas a vida de quem se faz à vida quase nunca é fácil, e em Lisboa é ainda mais difícil. Foi cá que vivi pela primeira vez sem a mamã ao lado, e pior do que a sua ausência era a presença dos outros.

Pareciam tão civilizados. Tudo limpinho, tudo anúncio Sonasol. Havia quem dissesse: “Vives com quatro rapazes? Aquilo deve ser um pandemónio.” Mas nada. Eu tossia às onze e meia da noite e às oito da manhã tinha um post-it no frigorífico de um deles a queixar-se do barulho.

A sala fora transformada num quarto, para meterem cada centímetro cúbico a lucrar, e o mesmo se passava com a lavandaria onde eu tinha a minha cama. Pelo menos, não nos cruzávamos uns com os outros. Havia um gajo no quarto ao lado que vi duas vezes em dez meses. De resto, só mistério, só silêncio. Acho que uma vez nos cruzámos no Martim Moniz e não o reconheci.

À segunda-feira, o francês metia o nariz em busca do pó da casa. Ordenava limpezas ao fim-de-semana e de nada me adiantava explicar-lhe que ao sábado e ao domingo eu nem sequer metia lá os pés. Ele insistia que, na minha semana, eu devia ir lá de propósito meter detergente e sair depois. Meter é como quem diz. Era mais esfregar como quem espanca, que o gajo depois lançava-se em busca de um defeito, enviando longos e-mails aos colegas de casa, apesar de dormirmos todos a meia dúzia de centímetros uns dos outros.

Um dia, revoltou-se porque a gaveta dos talheres não tinha sido limpa por dentro. Eu olhava, olhava, e não via o que limpar. Podia despejar detergente só para gastar um bocado e passar na inspecção da tropa, mas parecia-me inútil, embora não lhe parecesse inútil limpar o que não estava sujo. Pelo meio, criava um doodle para votarmos o melhor dia para nos reunirmos todos (éramos cinco).

Eu nem sabia o que era um doodle até viver com o ditador ao lado. Nessas reuniões, tínhamos batalhas campais sobre a garrafa de azeite que alguém deixara ao lado do fogão em vez de na segunda prateleira do primeiro armário à esquerda do frigorífico.

À terceira, comecei a inventar desculpas: “Estou muito doente no Sri Lanka. Perdi o avião na Austrália. Tenho um almoço com o Ministro dos Negócios Estrangeiros que não deve acabar antes das dez da noite. O carapau da minha tia-avó faleceu devido a uma doença, juntar-me-ei às cerimónias fúnebres exactamente a partir da hora mais votada.” Doenças, perdas de tempo, almoços longos, funerais, tudo era melhor do que aquele tormento de falar com quem tinha pouco para dizer e mesmo assim usava a língua.

Um dia, estalámos todos. Eu resolvi fritar batatas sem adivinhar o que viria. Em casa, tínhamos um fritadeira, coisa bem diferente de uma frigideira. Ali mergulhavam-se as batatas duas ou três vezes e só depois se deitava o óleo fora. Comi-as com ovos, entupi-me de calorias, que bom foi. Lavei o prato, arrumei a fritadeira, ficou tudo como estava. Uma semana depois, o francês descobriu toda a verdade.

O escândalo que ali se deu foi de tal ordem que ainda hoje todos os habitantes do Areeiro se lembram, espécie de 11 de Setembro de quem vai ao mercado de Arroios. A paz armada deu em luta, entre nós parecia haver apenas sangue. Para o francês, era intolerável que eu não deitasse o óleo fora.

Eu explicava, explicava e voltava a explicar que aquilo se guardava assim, que o óleo era reutilizável, que havia uma tampa, que ninguém usava três litros de girassol espremido para fritar duas batatas, mas ele queria que eu deixasse o óleo arrefecer, o guardasse numa garrafa, a escondesse da vista de humanos, e lavasse a fritadeira com detergente de limão, lixívia, óleo de cedro e saliva de anaconda.

Meteram-se os outros ao barulho. Apresentámos pontos de ordem à mesa, fizemos alterações aos estatutos da casa, advogámos moções como quem discute as teses da IV Internacional Comunista. Aquela casa era um saco de gatos, cada um puxava os seus bigodes. Andávamos tanto à bulha que parecíamos trotskistas. Faltou acrescentar que toda esta discussão se deu por e-mail.

Quantos? Mais de 34, ou seja, 35. Correram 35 e-mails com textos longos para chegarmos a um veredito. Eu não saía da minha, teimosa só porque sim, incapaz de ceder às manias. Por fim, venceu o hipotético, mas o hipotético fazia parte da moção: a fritadeira continuaria com óleo no armário, desde que não trouxesse inconvenientes.

Ao menor destes, teríamos de arranjar um plano b para garantirmos a paz entre quatro desconhecidos que só a conheciam armada, e que por azar se haviam cruzado em Lisboa, onde só vivia sem isto quem podia pagar rendas adequadas aos salários dos gestores de projectos da Deloitte.

A sós, saboreei a vitória. E respondi ao senão: “Não haverá nenhum inconveniente para além desta discussão.” Afinal, aquilo já tinha estado no armário sem que alguém se pusesse a chorar por isso. E um deles, sempre sóbrio, sempre adulto: “A ver vamos. Não deitemos foguetes antes da festa.”

A partir daqui, não mais se falou da fritadeira. No dia seguinte, dois deles estalaram porque só um investia em guardanapos de folha dupla. Não me meti em discussões, o papel que me interessava era o dos romances da rua Actor Isidoro, que comia por um euro.

Os meus amigos de Vizela gozavam, ainda debaixo do braço dos pais, e perguntavam porque é que não arrendava uma casa a sós, e eu perguntava-me, santo Deus, santo Alá, santo Tolstói, se faziam ideia de quanto ouro valia um metro quadrado nesta terra em que o sol bate a direito. No meio disto, só me faltou dizer que nem sequer gosto de fritos e que, findo esse annus horribilis de 2013, nunca mais comprei uma garrafa de óleo.


Ana Bárbara Pedrosa

Veio para Lisboa estudar Literatura em 2012. Daqui só saiu para o Brasil, onde, à portuguesa, teve saudades dia e noite. Regressada, escreveu Lisboa, chão sagrado e a cidade foi a diva onde se perderam personagens. Anos depois, numa casa em Benfica, foi ao Médio Oriente e escreveu Palavra do Senhor. Para os de cá, tem sotaque minhoto; para os de lá, engravatado.

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