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Saad chega à Brasileira do Chiado de calças de ganga, dá um forte aperto de mão a Samim e pede um café e um pudim flan. É assim, até um pouco abrupto, o encontro entre os dois afegãos: um refugiado em Portugal, cronista da Mensagem, Samim Seerat, o outro magnata dos media, Saad Mohseni, dono do grupo internacional de media, Mobi e do canal de tv Tolo onde Samim trabalhava, em Cabul.

Samim não pede nada, está a cumprir no Ramadão. Com ar tímido de quem ainda se está a adaptar à nova terra – está em Portugal desde novembro -, sorri e olha para aquele que é visivelmente o seu ídolo com deferência e não questiona. Quase não fala.

Saad, laico, homem do mundo, não cumpre o Ramadão. Bebe café e pergunta pela história da Brasileira. Quer saber tudo, desenvolto. Filho de um diplomata, nasceu em Londres, viveu no Japão, no Paquistão e na Austrália. Ainda vive entre Londres, Nova Iorque e o Dubai – atual sede do grupo.

Encontro de Saad Mohseni com Samim Seerat e a Mensagem, na Brasileira do Chiado. Foto: Inês Leote

É uma estrela no mundo dos media internacionais – saiu neste fim de semana uma reportagem com ele no Sunday Times, antes na Bloomberg, no Die Zeit. Foi sempre uma das principais fontes dos jornalistas no Afeganistão, como explicava uma longa reportagem sobre ele no The New York Times.

Há 23 anos, na aurora da libertação do Afeganistão, a família Mohseni criou o primeiro canal comercial e independente em Cabul, a Tolo. Foram apoiados por Rupert Murdoch e com suporte oficial dos americanos – o que o torna, agora, num dos principais alvos da fúria talibã.

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Tudo o que a Tolo trouxe de modernidade aos media afegãos – música, concursos, futebol, mulheres – é agora proibido. “Uma lufada de ar fresco”, continua a ser o slogan do canal.

Tão longe de tudo isso, no sol quente do Chiado, Saad e Samim sabem que têm o que aconteceu ao Afeganistão para digerir: Samim era assistente da direção da Tolo, dificilmente voltará ao país (os pais estão refugiados nos EUA), Saad está a manter os canais, a driblar o regime e a tentar perceber o que poderá fazer com os constantes ataques, jornalistas detidos, ameaças, e menos 85% de publicidade, pela primeira vez a dar prejuízo.   

“Pode ser uma questão de tempo. Não sei quanto tempo vamos continuar”, desabafa Saad. ”Dançamos esta dança com os talibãs, entretanto, mas não sei quanto tempo… No resto do mundo diz-se que depois de um tempestade vem a bonança, no Afeganistão diz-se que depois da tempestade pode vir outra.” Olha para Samim, que concorda com a cabeça.    

O que dantes era mais um negócio de um grande produtor de media – do Irão à Etiópia -ganhou contornos políticos: “A música foi tirada do ar, as telenovelas também, as mulheres tiveram que cobrir a cabeça. Mas nós contratamos mais mulheres: tínhamos 8 e passamos a ter 22. Queríamos fazer essa afirmação. Mandamos mulheres entrevistar políticos em conferências de imprensa. Às vezes entram, às vezes não”, conta Saad.

Desde que Cabul caiu, no dia 15 de Agosto de 2021, a Tolo TV tem tido um duplo papel: de voz independente, por baixa que seja, e de oposição, por frágil que seja. Um exemplo dá Saad: as meninas que aprendem agora só através da tv, depois de terem sido proibidas de ir à escola. “A tv talvez tenha um papel ainda mais importante agora, que muitos professores saíram do país.”  

A própria TV teve problemas quando muitos dos seus trabalhadores fugiram, como Samim. “Fizeram o que tinha de ser feito. Eu também saí”, diz Saad. 12 dos funcionários morreram num ataque, e muitos são detidos frequentemente. Quando a Tolo News deu a simples notícia da proibição das telenovelas três funcionários foram detidos – em solitária. Foram soltos três dias depois. “Mas até o regime Talibã percebe  importância da televisão. Acredito que das cinzas alguma coisa se erguerá”, conclui Saad.    

Em entrevista para a France 24, Saad Mohseni.

E o que faz Saad Mohseni em Lisboa? É apenas mais uma das histórias da vocação de porto de abrigo da cidade. O irmão vive em Cascais, e Saad quer comprar um apartamento aqui, lugar seguro para as filhas, ainda a estudar. É como dizia Samim nas suas crónicas: paz. Mas “num sítio interessante, não onde haja muitos turistas… Intendente?”, pergunta, prometendo voltar em breve.

* algumas das informações foram dadas por Saad Mohseni durante o Festival Interncional de Jornalismo de Perugia, no início de abril, onde a Mensagem o conheceu e onde combinamos este encontro em Lisboa. Pode rever a conferência, aqui.

LEIA AQUI AS CRÓNICAS DE SAMIM

Samim Seerat

É refugiado afegão em Lisboa, onde chegou em novembro de 2021 com a mulher e a filha. Foi pai, novamente, no dia 7 de janeiro. Em Cabul trabalhava como executivo de media no grupo MOBY detentor da Tolo…

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