Um Jardim para Todos Arminda Ferreira ioga Jardim da Cerca da Graça Rita Ansone

Receba a nossa newsletter com as histórias de Lisboa 🙂

Nas manhãs de sábado, no Jardim da Cerca da Graça, há tapetes de ioga estendidos na relva e uma banca montada num caminho de terra. Aqui, os vizinhos enterram as mãos num balde de argila e da argila partem para o composto, misturando as substâncias com sementes até obterem uma bola consistente: é uma bomba. Uma bomba capaz de fazer explodir vida em qualquer jardim.

Na verdade, aqui, na Cerca da Graça, a “bomba social” vai além da bomba de sementes. Todos os sábados, o jardim inclinado revive em atividades várias. A ideia veio da cabeça de Adriana Freire, jornalista, fotógrafa e fundadora da Cozinha Popular da Mouraria (uma associação de partilha gastronómica e cultural), que já pensava nisso há anos. Em 2015, quando se inaugurou o Jardim da Cerca da Graça, o maior espaço público verde da zona histórica de Lisboa, pôs-se a sonhar com sábados cheios de gente. Afinal, o quiosque do novo jardim pertencia à Cozinha Popular da Mouraria, cuja sede fica ali nas proximidades.

Mas o sonho foi ficando na gaveta até que algo lhe deu um empurrão: a pandemia. De repente, todos procuravam na natureza um refúgio. E por isso a iniciativa Um Jardim para Todos, promovida pela Cozinha Popular da Mouraria, está desde março até novembro a realizar atividades aos sábados de manhã para os fregueses de São Vicente (e para toda aqueles que se quiserem juntar): ioga, jardinagem e até mesmo pintura de murais. A grande missão a cumprir é “a saúde ao ar livre”.

Mente sã em corpo são na Graça

Adriana Freire prepara-se para mais uma aula de ioga, nunca perde o entusiasmo, esta empreendedora social – ainda tem muitas mais ideias para a realização de atividades ligadas à saúde mental e para aquilo que está aqui a acontecer. Tanto o ioga como a troca de sementes são práticas de uma tradição milenar que ilustram bem o objetivo d’Um Jardim para Todos: a de unir os cidadãos numa pequena comunidade. Os vizinhos.

Essa comunidade está aliás convidada a sugerir aquilo que quer encontrar neste jardim, deixando as suas propostas numa caixinha. “A ideia é também que as pessoas se manifestem quanto às suas vontades”, explica Adriana.

Até agora, palavra passa palavra e as pessoas têm aparecido e participado com entusiasmo. Nesta manhã de sábado, Ana Serrano foi a primeira a chegar à aula de ioga, com o aquecimento feito: veio a pé desde Arroios, onde vive, e onde passa muito tempo fechada a fazer a sua tese de doutoramento. “Precisava de espairecer um bocado, apanhar sol”. Ao seu lado, está a própria Adriana Freire, bem equipada.

O sol bate nos corpos e Arminda Ferreira, a instrutora, guia a aula numa dança de palavras entre o português e o inglês. Ela é um pouco de todo o lado e o seu sotaque é uma mescla de todas as suas vivências: já percorreu destinos desconhecidos numa caravana e viveu em terras lusas bastante diferentes, passando pela Amadora, por Trás-os-Montes e pelo Porto. Finalmente cruzou fronteiras até chegar a Londres, onde trabalhou na área da organização de eventos.

Em Londres, os dias aceleravam e a vida boémia que levava desgastava-lhe o corpo e a mente. Vieram-lhes as dores nas costas e, com elas, uma recomendação médica para fazer ioga. “O ioga trouxe-me as respostas”, diz.

A aula de ioga junta vizinhos da Graça, da Mouraria e de outras zonas de Lisboa. Foto: Rita Ansone

O fascínio acabou por levá-la à Índia, às raízes da prática que se tornou profissão, país a que regressa todos os anos. “A Índia é um sítio mágico, onde há um yin e um yang tão visível”, conta. Voltou a Lisboa, mora em Almada, onde está a ensinar aulas de ioga online. Os sábados são dedicados ao Jardim da Cerca da Graça.

Aprender a cultivar num jardim perto de casa

Na banca comandada pela Horta FCUL, pelo Germinar um Banco de Sementes e pela Caravana Agroecológica, há frascos da Compal com sementes de abóbora, tomilho, tomate e coentros e, claro, fazem-se as bombas de sementes com 70% de composto, 30% de argila e sementes.

Com as mãos na massa, António Alexandre, membro da Horta FCUL e do Germinar um Banco de Sementes, conta a história daquelas bolinhas de terra que servem para cobrir o solo ou lugares mais inacessíveis dos jardins para que neles cresça alimento ou biodiversidade. Chama-lhes uma “tecnologia”, mas aqui não há nada de futurista.

Foram os povos indígenas que, nas suas experiências primitivas, descobriram o potencial destas “bombas”. Séculos depois, a técnica resiste graças ao trabalho do botânico e filósofo japonês Masanobu Fukuoka que as recuperou para a atualidade.

Hoje pela banca param pessoas de todas as idades para misturar as substâncias e levar as bombas de sementes para casa. É que a ideia não é só ensinar esta técnica, mas incentivar as pessoas a aplicarem-na nos seus jardins, como diz João Alpedrinha, da Caravana Agroecológica. “Queremos que estas ações transbordem para a vida das pessoas”.


Ana da Cunha

Nasceu no Porto, há 25 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado.