É com olhos de uma experiente fotógrafa que Adriana Freire mira o amplo espaço que comunga o restaurante e a cozinha industrial. “Tanto a fotografia como a cozinha são uma coisa química”, filosofa, mergulhando na penumbra do ambiente como quem mergulha na câmara escura de um laboratório de revelação fotográfica.

Quando as luzes se acendem no número 5 da Rua das Olarias, a Cozinha Popular da Mouraria revela a casualidade de um ambiente mobiliado como a casa de toda gente, livre da austeridade dos arquitetos, pois a intenção é justamente resgatar no visitante a tépida lembrança de um fim de tarde de domingo entre amigos, do afetivo almoço no quintal dos avós.

Desde 2011, Adriana responde pela bem-sucedida experiência gastronómica no coração da Mouraria, uma zona normalmente associada a outras experiências, menos bem sucedidas e glamourosas. “Vivo aqui e, quando abri a cozinha, a Mouraria era estigmatizada. A cozinha contribuiu para a mudança de imagem”, diz.

Numa década, a Cozinha Popular da Mouraria funcionou como um íman, atraindo para a sua órbita os anónimos vizinhos da comunidade e também visitas ilustres – turistas, celebridades da televisão e políticos – o ingrediente de um saboroso e colorido prato, temperado pela convivência de diferentes culturas e origens sociais.

“Vivo aqui e, quando abri a cozinha, a Mouraria era estigmatizada. A cozinha contribuiu para a mudança de imagem.”

Adriana Freire

O desafio de Adriana é não deixar o prato esfriar. Em junho, a antiga fotógrafa pôs a mão na massa e inscreveu-se numa nova candidatura ao programa Bip Zip, gerido pela Câmara Municipal de Lisboa, cúmplice na abertura do negócio, há dez anos, com o objetivo de democratizar ainda mais o acesso à Cozinha pela comunidade.

“A ideia é que o espaço passe a operar também como uma cozinha de produção”, revela Adriana. Na prática, a Cozinha Popular da Mouraria abrirá as portas, não só aos vizinhos e clientes atraídos pelo aroma, sabor e pela fama, mas também aos cozinheiros e chefes do bairro que não dispõem de alguns equipamentos nas suas próprias cozinhas.

Perdida no espaço

Essa espécie de coworking gastronómico é mais uma ideia de uma gestora que estranhamente reconhece não ter nascido para ser patroa. “Gosto do desafio, de construir, não da continuidade”, confessa Adriana, 63 anos, que depois de uma longa carreira como fotógrafa viu-se obrigada a reinventar a vida profissional.

O ano de fundação da Cozinha, em 2011, marca também a chegada da troika em Portugal, a cereja no topo do bolo da crise económica iniciada em meados de 2008 e que acabou por azedar a rotina de fotógrafa freelancer. “Fotografava para a área gastronómica e comecei a não ter trabalho. Precisava de fazer alguma coisa”, conta.

“O detalhe é que, como o Cartier-Bresson, via o mundo enquadrado. Quando deixei de ser fotógrafa, fiquei perdida no espaço. Não sabia o que viria depois”, continua. “Então, percebi que a gastronomia era tão visual quanto a fotografia, a cozinha era como um laboratório, e que estava a fazer a coisa certa, no lugar certo.”

De uma das mesas da grande sala de refeições erguida na antiga garagem de um imóvel que já foi de tudo – de armazém de uma agência funerária à oficina de um estofador – Adriana lembra, saudosa e vaidosa, do burburinho dos clientes e do tilintar dos talheres, silenciados com a chegada da pandemia.

“Percebi que a gastronomia era tão visual quanto a fotografia, a cozinha era como um laboratório, e que estava a fazer a coisa certa.”

Adriana Freire

“A Cozinha caiu no goto das pessoas e esteve sempre cheia, no almoço e no jantar. Havia uma imensa lista de reservas. Era uma loucura”, relembra a fotógrafa-cozinheira, sobre o intenso entra e sai de celebridades, chefes de cozinha, políticos e turistas, vários deles atraídos pela aura de comerem num espaço atípico num típico bairro lisboeta.

Além do sabor da comida, a Cozinha era conhecida pelas peculiaridades. Adriana conta que, um dia, um cliente lavou o prato e os talheres que usou e, não sabe explicar como, o gesto virou uma regra de conduta, seguida pela maioria dos clientes. “O presidente Marcelo só não lavou o dele porque eu não deixei”, conta, divertida.

Na pandemia, já não há quem lave os próprios pratos e talheres. Até a situação normalizar, a Cozinha Popular da Mouraria tem aberto apenas pontualmente, como no dia da entrevista, quando uma diletante cozinheira preparava uma perfumada refeição para um evento motivacional – e que motivação! – de uma empresa.

As viúvas da Mouraria

Além de point gastronómico da Mouraria, a Cozinha tem cumprido vocações que não rendem estrelas no Zomato, mas têm um imenso valor social. “As portas sempre estiveram abertas para as pessoas do bairro. Este salão recebeu várias atividades, festas de anos de crianças e almoços comunitários com os mais velhos”, lembra Adriana.

As portas do número 5 da Rua das Olarias abertas à comunidade da Mouraria.

Adriana recorda um grupo de miúdos que fizeram da Cozinha a extensão de casa. “Andavam pela rua, dez, quinze deles, sem opções de lazer. Trouxe-os para cá, para aprenderem a cozinhar”, conta Adriana, que usou os contactos do tempo de fotógrafa e convidou chefes de cozinha para ministrar oficinas aos mais novos.

“Primeiro, investimos numa dieta saudável, mas sem sucesso. Como a ideia era tê-los por perto, para que socializassem, passámos a oficinas de preparação de pizza e de bifanas, e resultou”, conta Adriana. “Com o tempo, passaram a vir da escola para cá, ajudavam na manutenção do espaço e, claro, iam à cozinha preparar o próprio jantar.”

“Eu gosto disso aqui, mas gosto mais ainda de criar. Adorei o confinamento neste sentido, de poder parar, de apontar coisas no caderno.”

Adriana Freire

Dos oito aos oitenta, as viúvas da Mouraria também se renderam à cozinha de Adriana. “Um dia, percebi-as de braços cruzados na calçada e convidei-as para me ajudarem a preparar um bolo. Com o tempo, passaram a vir sem serem convidadas e a trazerem as receitas delas, algumas servidas nas refeições”, lembra.

Dentre as viúvas, uma delas de tanto frequentar a Cozinha acabou “promovida” a voluntária e, em seguida, ficou a trabalhar casa. “Da primeira vez que viu de perto um dos atores de novela favoritos dela, nunca mais quis sair daqui”, conta Adriana, saboreando a lembrança.

A pandemia fez Adriana rever o foco na gestão da Cozinha, em busca de mais tempo livre para tirar as ideias do papel. Foto: Adriana Freire

Se o passado é doce, o futuro da Cozinha repousa em banho-maria, enquanto aguarda pelo fim da pandemia e o resultado da nova candidatura ao programa Bip Zip da CML. Entretanto, a patroa que não nasceu para ser patroa pensa em contratar um gestor de carreira e ter mais liberdade para concretizar as ideias rascunhadas num velho caderno.

“Há milhares de coisas a serem feitas. Eu gosto disto aqui, mas gosto mais ainda de criar. Adorei o confinamento neste sentido, de poder parar, de apontar coisas no caderno. Senti-me reconciliada com quem sou e tive a certeza de que um dia até posso ir-me embora, mas não sem deixar um equipamento que sirva ao bairro”, reflete.

A entrevista termina com a chegada dos comensais para o tal evento motivacional. Da cozinha, emana um aroma que convida a ficar e não a partir. Antes das despedidas, a fotógrafa atende ao convite para, com a máquina em punho, registar o autorretrato que ilustra a história da mais ilustre Cozinha Popular da Mouraria.


Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 48 anos, há cinco em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *