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Foi no início da década de 1990 que Daniela aterrou na capital portuguesa para iniciar a sua formação em Relações Internacionais e dar os primeiros passos na carreira diplomática. Trazia de Angola a vontade de compreender a guerra, uma constante da sua adolescência. Passou pelo Centro de Estudos Europeus, pela Presidência da República e pelo Ministério da Economia, até que, aos 30 anos, teve a coragem de admitir a si própria: “Não sinto isto”. Fê-lo numa altura em que todo o mundo punha tudo em causa: a seguir ao 11 de setembro.

Caminhava um dia pela Almirante Reis quando viu pinturas expostas numa loja e, conta Daniela, sentiu acender em si o sol que ainda hoje a chama a pintar. Quis experimentar e começou sozinha. “Fechada em casa”, pintou as cores e as paisagens africanas que lhe “aqueciam o coração” e que abriam a porta de Lisboa a Luanda.

Nos lencóis brancos esticados pelas divisões da casa, nasciam pores-do-sol cor-de-laranja e entravam queimadas e faíscas. Nas telas, em Lisboa, fixavam-se as memórias quentes de Daniela, como ventos soprados de África – e com eles fez a sua primeira exposição.

A partir daí, não parou de explorar materiais: aguarelas, óleos, acrílicos e materiais de síntese, onde encontrou as resinas epóxi em que se especializou.

Fascinada pelo universo, apercebeu-se que a evolução acontecia aos seus pés – nas cidades

Nos anos que se seguiram, foi entre Lisboa e Paris que cresceu como artista e, ao ver o filme Hubble: 15 anos de descobertas, sobre o telescópio espacial, ganhou uma noção de dimensão e de escala, do átomo ao universo, e quis reproduzi-la nas suas obras.

De uma garagem nas Olaias fez nascer o seu atelier e logo cobriu o espaço com grandes e vibrantes planetas, sóis, cometas e nebulosas. Das madeiras nuas alinhadas no chão que pisava, Daniela passava a gravitar na sua galáxia quando as cobria com resina epóxi, um material que, pela sua rápida secagem, exigia que a arte das estrelas e poeiras fosse dominada em apenas dez minutos.

Quando o gás e as rochas já não a preenchiam, quis “virar o Hubble para a Terra” e, como um telescópio, Daniela viu cidades, viu Luanda, viu Lisboa, “organizadas tal como num computador”. Nessa altura, foi no seu telemóvel partido que encontrou a sua musa – a tecnologia. Nas peças soltas vislumbrou um paralelo com o que via na Terra: um mapa organizado para o funcionamento inteligente das partes. Sabia que tinha de os combinar. Mas como?

“Apaixonei-me pelo lixo”

A ideia, diz, chegou de forma inesperada. Viu na inutilidade de um telemóvel partido aquilo que via nas lixeiras em Luanda quando era criança: a possibilidade de construir algo. Aos miúdos de Angola não faltava criatividade, recorda Daniela – havia fome, tinham um único par de sapatos, mas brincavam e inventavam muito com tudo o que conseguiam encontrar naquelas montanhas de matéria descartada. A criatividade de hoje começou naquelas lixeiras, e foi lá que se apaixonou pelo lixo.

Entrou em contacto com a TMN no início dos anos 2000 e pediu material. Não tardou a receber na sua garagem 20 mil telemóveis encaixotados. Desmontou-os nos quatro meses que se seguiram e às capas de plástico, teclados de borracha e motherboards juntou outras peças de lixo eletrónico que recolheu de lixeiras. Foi assim que iniciou o seu stock de materiais, do qual não abriu mão até hoje. Com ele, construiu cidades tecnológicas.

Ao olhar para a maquete que construiu de Luanda, admite que ainda vê a cidade assim, como “uma mancha de centros urbanos, com condições de habitação desiguais, com uma leve zona de jardins à volta e, mais longe, na periferia, uma zona agrícola e uma área industrial”.

Lisboa, vista do seu Hubble, também tem uma organização inteligente do espaço, uma malha urbana de bairros e jardins, com um ar computacional. Na coleção, falta-lhe essa maquete, mas garante que se a fizesse não se veriam favelas como na de Luanda. Diz que “são realidades muito diferentes”.

Na arte quântica de Daniela, não sabemos quem é o “manda-chuva”

Para além das cidades tecnológicas, a sua obra também envolve o ser humano enquanto peça única, como parte de um jogo em que as evoluções científica e tecnológica são inevitáveis e vividas por “seres cada vez mais tecnológicos que, um dia, sobreviverão apenas da energia”.

Recorda que soubemos “dizer não à clonagem”, mas nada garante que todas as inovações sejam acauteladas de igual forma e teme que o esforço de guerra e o instinto de proteção levem, como na Guerra Fria, à aceleração deste processo de evolução tecnológica – um processo que “não controlamos, nem sabemos quem controla”.

É por não saber quem se senta no trono da decisão que traz a Lisboa uma exposição com um lugar vazio, um Trono Quântico. É uma obra criada para a Expo Dubai 2020 que une a Ancestralidade à Tecnologia e que agora chega ao foyer do Fórum Picoas, na Avenida Fontes Pereira de Melo, onde ficará até dia 25 deste mês de março. A abordagem artística, diz, parte sempre de uma longa reflexão e, por isso, passa meses a estudar “freneticamente” os fenómenos e os conceitos científicos, sociológicos e antropológicos que a levam a criar.

Para erguer esta “corte de poder”, Daniela Ribeiro mergulhou durante quatro meses no estudo das suas raízes e da evolução tecnológica. Para trazer estes valores tradicionais ao presente, misturou estes elementos e os padrões africanos com o lixo eletrónico.

Através das máscaras Bantu, do povo Chokwe, Daniela resgata a cultura africana, representada pela matriarca, pela anciã, pela criança e pela importância do casamento e da comunidade. Ao centro, o trono vazio, também ele decorado com chips e motherboards, quer incentivar uma “reflexão sobre os poderes que intervêm em África”, desde os regionais e nacionais aos poderes internacionais, todos eles responsáveis por determinar e regular a exploração dos recursos naturais.

Aos lisboetas, quer trazer a “memória coletiva” do passado colonial português, principalmente a quem o viveu. Mas não encerra o seu público nessa faixa etária e diz que “também as crianças têm a oportunidade de ver peças únicas: as motherboards”, que têm “os dias contados” devido à substituição do silício nos dispositivos por componentes alternativos, como acontecerá “com a eletrónica transparente” – em que se procura utilizar materiais sustentáveis.

Ainda que se esgotem os recursos ou se substituam os materiais, garante que na sua veia artística correrá sempre a inquietação que a leva a questionar os poderes – políticos e tecnológicos – através das peças que constrói. Sempre com as raízes em Angola, ligadas agora ao presente por chips e fios elétricos em fim de vida, Daniela abre agora a porta de Luanda aos lisboetas, na Avenida Fontes Pereira de Melo.

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Inês Leote

Nasceu em Lisboa, mas regressou ao Algarve aos seis dias de idade e só se deu à cidade que a apaixona 18 anos depois para estudar. Agora tem 21, gosta de fotografar pessoas e emoções e as ruas são o seu conforto, principalmente as da Lisboa que sempre quis sua. Não vê a fotografia sem a palavra e não se vê sem as duas. Agora, está a fazer um estágio de fotografia na Mensagem de Lisboa.

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