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Fui para o estádio da Luz com um misto de alegria e tristeza. Não há lugar onde eu esteja tão em casa quanto em frente a 11 homens vestidos de azul, com o símbolo Vizela Romana ao peito. Mas essa casa costuma fazer-se pelas paredes do nosso estádio e pela minha família ao lado. Desta vez, não ia ser bem assim, mas tinha na mesma os meus 11 voltados para umas redes.

Estava com três virgens de estádio, só via vizelenses na outra ponta, e poucos. Tudo era vermelho. As três que me acompanhavam, coitadas, viam a bola a rolar entre as equipas, milhares de olhos atentos, e perguntavam-me se o jogo já tinha começado. Faziam lanches, comentavam filmes, debatiam as regras da gramática francesa, seguiam as bolas que saíam (“Olha, aquele puto roubou a bola!”) e perdiam a que estava em jogo. Na altura dos golos, ficaram confusas: num, pelo silêncio (“Nem deu para reparar”), noutro pelo barulho (“Parecia que estavam outra vez a reclamar de alguma coisa”).

O futebol, perdoem-me os ignorantes, é uma coisa muito linda. Admito que seja chato ter o peito descarnado, deixar o coração dependente do que fazem umas pernas em cima do relvado, mas quando a bola bate na rede certa as artérias coronárias expandem-se e tudo é alegria. Não houve festa na minha vida que eu não tivesse equiparado a um golo.

Eu sei que há quem tenha dias duros, gente a quem é difícil ver a beleza das coisas, mas para isso basta a solução fatal: uma finta bem feita, a surpresa do inesperado, o adversário a ficar para trás, um impulso para a frente que vive de renascimento e esperança e talvez golo. E, nisto, não há nada mais inspirador do que a vontade de ganhar.

O tumulto da bola é grande e adensa-se até se tornar numa tragédia. Para além disto, ainda me divido entre o apoio à minha equipa e a frustração de um sonho por cumprir, eu, que nunca consegui erguer a taça da Liga dos Campeões pelo Vizela.

Na minha infância, sempre achei que a vida seria mais fácil, que as minhas pernas seriam mais fortes e que nem ia precisar de treinar para marcar golos de trivela. Os meus sonhos iam além e, quando me via de braçadeira a comandar os outros 10, era na equipa masculina que estava porque só via homens a jogar. Ao mesmo tempo, sonhava que os outros adeptos iam morrer todos e que eu seria a sócia nº 1.

Os arredores da Luz são uma coisa tendenciosa, só cachecóis do Benfica e couratos. Passando por lá, no meio dos outros, os meus amigos enviavam piadas por mensagens, “Vais ver a tua equipa levar tantas”, “Prepara-te para um desgosto”, porque não conhecem a magia que é ser povo de Vizela.

Nós não temos um treinador, temos o Álvaro Pacheco, e isso, por si só, já nos dá 10 pontos de vantagem. Quem não sabe quem é veja no Google: é o treinador com mais estilo da liga e também da Internet. Contra o ressabiamento do futebol, temos um homem que sabe manter sempre a elegância.

E, de resto, é fácil pegar na metáfora dos anões contra os gigantes, mas na equipa do Vizela não há nenhum anão. Há o Nuno Moreira a dançar em frente à área, o Samu a fazer passes cirúrgicos, o Kouao a engolir o linha lateral com a bola, o Kiko a ziguezaguear sem peso, o Pedro Silva a roubar golos aos outros. No futebol do Vizela, tudo é ritmo e alegria – o fim do escuro. E desta vez tivemos ainda o Cassiano a apagar a Luz.

Eu só tinha visto um jogo na Luz, também ele do Vizela. Dessa vez, fiquei na bancada inferior, perdemos 4-0. Foi a maior roubalheira que já vi. Os jogadores do Benfica fingiam que iam mandar a bola para um lado e depois mandavam-na para o outro, enganando os do Vizela mesmo de má-fé.

Quando os nossos tinham a posse de bola, os deles eram brutos, mal educados, deselegantes – tiravam-lhes a bola por pura grosseria. Os do Benfica ficaram tanto tempo no chão que foi difícil perceber se aquilo era um jogo de futebol ou um campeonato de mergulho. Os nossos foram de tal forma espancados que não percebi se os deles treinaram para dar pontapés na bola ou apenas para dar pontapés.

A estatística, no fim, foi a nosso favor: o Benfica falhou 24 remates, e nós apenas 2. E depois dos 90 foi a pouca-vergonha do costume: o árbitro deu apenas dois minutos de compensação. Algo me diz que, se tivesse dado um pouco mais, o resultado teria sido bem diferente.

Mas desta vez foi outra coisa. Vi o jogo lá de cima e zás, eis o Cassiano a meter a bola na baliza em força bruta. Era eu sozinha numa ponta do estádio, os outros azuis na outra. Devem ter feito barulho, mas a distância engoliu-o. Nunca um festejo de um golo que soube tanto me soube a tão pouca coisa.

A tristeza com que me dirigira ao estádio afinal era aquela: não poder partilhar a alegria. E os saltos e braços no ar não me denunciavam perante quem estava próximo, porque eu já tinha passado 65 minutos a dar indicações ao campo. Já toda a gente sabia que eu ali era a intrusa.

A partir daí, começaram as bocas lá atrás. Perdiam, mas diziam “Estes gajos não são material de primeira liga”, “Não jogam nada, são isto e aquilo”. Virei-me para o lado e perguntei: “Percebes porque é que não posso dar estrilho?”. Ingénua, uma das virgens de estádio lá me disse “Mas olha que o senhor disse que podias festejar.”

De braços no ar, mas a conter-me, o gajo vira-me e dissera “Podes festejar, querida”, e só alguém que não saiba o que é a fúria, o ressabiamento de perder, pode levar a sério a candura. Tentar conter a alegria fechando os punhos e sorrindo é o esforço hercúleo de quem vê futebol na bancada alheia.

A partir da minha alegria, o estádio galvanizou. Os adeptos ainda não tinham entendido que o Vizela não chegara ali a olhar para a relva. Com todos contra nós – adeptos e caixa de som –, o Benfica lá conseguiu empatar o jogo. O estádio levantou-se – eu recusei-me a sair da cadeira, e só não disse palavrões porque tenho educação. A miúda atrás de mim não se calava – e só não levou duas chapadas porque não sou de violência.

Sei que pontuar em casa contra nós não foi tarefa fácil, e por isso engulo a mágoa de nos terem roubado dois pontos para parabenizar os jogadores da casa. Contra a minha expectativa, e a da outra meia dúzia que estava do outro lado, lá conseguiram violar as nossas redes. Atrás de mim, as dezenas continuavam a dizer etc. e tal, porque a provocação amocha aquele monstro que rosna quando um jogo de futebol não nos corre de feição. Eu bem sei, que também sofro.

Nesse dia, só vi lisboetas zangados com a vida. Mais zangada estava eu por não ter tido uma vitória. Perguntei às antigas virgens o que tinham achado da ida ao estádio. “Oh, foi giro.” Nem grande interesse, nem grande alegria. Deviam achar que aquilo era teatro e não galope. E eu aproveitei logo para lhes ensinar a vida: “Pois. Em Lisboa, não tem grande graça, no estádio do Vizela é bem melhor.”


Ana Bárbara Pedrosa

Veio para Lisboa estudar Literatura em 2012. Daqui só saiu para o Brasil, onde, à portuguesa, teve saudades dia e noite. Regressada, escreveu Lisboa, chão sagrado e a cidade foi a diva onde se perderam personagens. Anos depois, numa casa em Benfica, foi ao Médio Oriente e escreveu Palavra do Senhor. Para os de cá, tem sotaque minhoto; para os de lá, engravatado.

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