O sol cai lentamente e os peregrinos dos quatro cantos do mundo cumprem o ritual diário de rumarem ao Miradouro da Graça, uma alegre horda de pele bronzeada e copos de cerveja na mão, a colorir com pouca roupa e muita euforia a Calçada do Monte, a via em forma de lua minguante que leva até o topo mais famoso de Lisboa.

Um caminho que está ainda mais colorido, desde que surgiu em junho o mural de sete metros de largura por dois de altura, uma obra de arte composta por 700 quadrados de cerâmica Bordallo Pinheiro, pintados à mão pelo artista plástico Jorge Romão, numa homenagem ao bairro da Graça e à poeta Sophia de Mello Breyner.

Jorge Romão não esconde a satisfação pelo reconhecimento do seu trabalho, homenagem à Graça e a Sophia de Mello Breyner. Foto: Líbia Florentino.

O mural “O Mundo de Sophia” foi um presente de artista ao bairro que elegeu para morar há 16 anos. Uma prenda também à Calçada do Monte, já que, da varanda do prédio onde vive, Jorge Romão confrontava-se com o muro sem vida, “a pedir para ser pintado”. De tanto pedir, o artista não teve outra escolha a não ser atendê-lo.

Sensibilizados com o esforço, houve quem parasse para lhe oferecer água ou cerveja, a fim de lhe atenuar o calor.

“Pedi autorização à Junta de Freguesia de São Vicente e eles nem pensaram duas vezes. Meti dez dias de férias em junho e resolvi pôr a mão na massa”, conta Jorge Romão, nascido na remota vila de Painho, no limite entre os concelhos de Lisboa e Leiria, um funcionário público de 62 anos que se descobriu artista apenas em 2012.

A conceção do mural exigiu nove dos dez dias de férias, uma jornada de trabalho que se iniciava às seis da manhã, ainda com o sol complacente, e se estendia até ao crepúsculo. “Fui ao chinês comprar um chapéu de sol para suportar o resto do dia”, conta, exibindo a pele ainda bronzeada, como a dos peregrinos do miradouro.

Da varanda, Jorge Romão observa o Mural de Sophia, onde antes havia uma parede que “pedia para ser pintada”. Foto: Líbia Florentino.

Sensibilizados com o esforço, houve quem parasse para lhe oferecer água ou cerveja, a fim de lhe atenuar o calor. “Um dia, um comerciante aproximou-se e disse que tinha um almoço pago na tasca dele”, lembra Jorge o gesto de solidariedade de estranhos e que se tornou corriqueiro. “Cheguei a ter três almoços pagos no mesmo dia.”  

O esforço valeu a pena. Desde junho, além do alívio de não ser obrigado a olhar da varanda o muro sem vida, a obra assinada por ele trouxe luz não apenas às paredes da Graça, mas ao nome de um artista que começou a produzir tardiamente e, talvez por isso, seja dono de um ritmo de produção impressionante.

O ímpeto de um artista imparável

Desde 2018, Jorge Romão já organizou quatro exposições, ao ritmo de uma por ano. A primeira foi Ímpetos, um título que sintetiza o vigor de um artista até então amador, que pintava uma tela aqui outra ali para presentear amigos e familiares, mas que subitamente produziu 60 quadros entre dezembro de 2017 e março do ano seguinte.

A profícua lavra levou os amigos a convencerem-no expor. Em junho de 2018, estreava-se como artista profissional na Galeria Arte Graça, ainda sem saber que seria “profissional” de facto. “Pensava apenas em exibir o meu trabalho e ouvir opiniões, entretanto, começaram a perguntar sobre o valor dos quadros para comprá-los.”

Jorge Romão e o reflexo de um artista que tem conseguido produzir uma exposição por ano nos últimos quatro anos. Foto: Líbia Florentino.

Jorge Romão confessa que foi obrigado a recorrer à ajuda de uma amiga profissional do ramo da arte para pôr um preço ao seu trabalho. “Achei os preços sugeridos altíssimos, mas ela garantiu que tinha qualidade para assim ser”, lembra. E a amiga sempre tinha razão: das 54 telas postas à venda na galeria, foram vendidas 53.

A mais recente exposição de Jorge Romão é O Triunfo do Kitsch (e do lixo), em cartaz até 29 de agosto, novamente na Galeria Arte Graça. Ao contrário das anteriores, é a primeira da série composta por obras que misturam pintura, colagens e esculturas, uma alteração de rota artística “efeito colateral” da pandemia.

“Durante o confinamento, as lojas de material artístico fecharam e, como não compro pela internet, decidi trabalhar com o material que tinha em casa. Depois passei a recolher objetos deixados na rua, como janelas, cadeiras, molduras, além dos resíduos das obras de restauro que estavam a acontecer na Graça”, lembra.

O resultado são vibrantes esculturas equilibradas em pedras portuguesas, emolduradas por tampas de bidões e janelas. Jorge Romão apostou no kitsch como resposta a círculos artísticos que veem o estilo como uma arte menor e decidiu fazê-lo triunfar sobre o “preconceito”, num igual triunfo de um material destinado ao lixo.

A resposta desta apaixonada defesa do kitsch veio na forma de um convite para expor o trabalho em Madrid, em novembro.

A arte de extrair cor até dos dias cinzentos

A recente mostra resgata o primeiro passo de Jorge Romão como artista, em 2012, bem antes de imaginar em exposição sold out ou convites para Madrid, quando ele, como funcionário público da Direção Geral de Reinserção e Serviços Prisionais, conseguiu extrair vida e cor dos monótonos e cinzentos dias de um prisioneiro a cumprir pena.

“Desde 2002, passo os dias a monitorizar os presos por vigilância eletrónica”, explica Jorge Romão, a respeito da outra face da sua vida de artista. Em resumo, acompanha por um ecrã os presos que cumprem prisão domiciliária, através de uma pulseira eletrónica que emite sinal para uma box instalada na casa do preso.

Em 2012, houve um seminário para marcar o décimo ano de operação da vigilância eletrónica em Portugal e foi pensada uma exposição para ilustrar a data. “Voluntariei-me para fazê-la”, lembra Jorge Romão, que decidiu contar a trajetória desta década através da história de dez presos monitorizados eletronicamente por ele.

Da experiência – e da convivência – surgiu a exposição A Caixa, com dez peças trabalhadas sobre as pulseiras e as respetivas box utilizadas pelos presos durante o período em que cumpriram a pena, cada uma delas transformada numa escultura que, de alguma forma, conta a relação do preso com os objetos.

A Caixa é uma exposição feita a partir de pulseiras electrónicas e as respetivas box utilizadas pelos presos durante o período em que cumpriram a pena.

Uma das obras, por exemplo, recria uma casa portuguesa, já que a dona da casa costumava esconder a box sob a toalha da mesa para que as visitas não a vissem ao entrarem. Uma outra, transformada em santuário, lembra que a caixa serviu de base para um santo, com a tornozeleira convertida numa coroa dourada.

Há ainda uma que se assemelha a uma maleta de primeiros socorros.“Nos dois anos em que a caixa esteve lá, a mãe do preso não sentiu as dores de cabeça que a afligiam. Suplicou para que não a levássemos”, explica Jorge Romão. “Certamente, as dores sumiram por a polícia ter parado de lhe bater à porta durante a noite em busca do filho, mas ela acabou por associar a súbita melhora à presença da caixa”, avalia.

Há também uma box concebida num formato semelhante a de um cofre. “Como os agentes avisam que é proibido mexer na caixa – nem para limpá-la – havia uma senhora que guardava o seu dinheiro em baixo dela para evitar que os filhos o gastassem”, explica, sobre a obra ornada com moedas e um vistoso espanador a ostentar o alerta de “Stop“.

Um arco, outros triunfos

A experiência de criar arte na via pública parece ter agradado a Jorge Romão, que um mês após conceber o mural fez uma intervenção num arco a poucos metros dali, na Travessa do Monte, no acesso a uma antiga vila operária, onde hoje turistas e locais se protegem do sol enquanto conversam entre taças de vinho.

A obra agrega pintura e instalação, e as glicínias pintadas nas paredes materializam-se penduradas no teto. “O processo foi o mesmo: pedi autorização à Junta e meti mais uma semana de férias”, diz Jorge que, entre 31 de julho e 7 de agosto equilibrou-se numa porta sobre os corrimões da escadaria para alcançar o topo do arco.

Sem mais férias para “meter”, Jorge Romão espera o ano virar para investir noutro muro, vizinho do arco, que se apresenta como uma enorme tela em branco também a suplicar para ser pintada. Até lá, goza da popularidade do mural, aos poucos integrando-se na paisagem da Graça, já transformado em atração turística.

Com o Castelo de São Jorge como moldura, o Mural de Sophia tem sido apresentado aos turistas pelos condutores de tuk-tuk. Foto: Líbia Florentino.

“Os tuk-tuk já param em frente para exibi-lo aos turistas e há também quem o faça de moldura para selfies”, conta Jorge Romão, orgulhoso. “Quem sabe, um dia, quando perguntarem onde é o Miradouro da Graça, responderão que fica ali, na rua do Mural de Sophia”, torce, em tom de brincadeira. Ou não.

Noutro dia, da varanda da sua casa, o artista viu um par de recém-casados, trajados de fato, gravata, vestido, grinalda e tudo, sair da igreja para ser fotografado ao lado do mural. Então, satisfeito e comovido, teve a certeza de que a relação de Lisboa com as suas obra é, mesmo, de amor à primeira, segunda, terceira…. vistas.  


Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 48 anos, há cinco em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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5 Comentários

  1. Excelente artigo, pois para além do talento do artista aqui apresentado, há que dizer que os estrangeiros têm um olhar mais interessado e apreciador do que o “lesboeta” apressado e modernaço … embora os brasileiros não sejam verdadeiros estrangeiros … nem mesmo aqueles que estão sempre a falar no ouro que lhes roubámos …

  2. Muito obrigado Alvaro Filho e Líbia Florentina pelo vosso trabalho e pela generosidade e carinho com que abordam e divulgam a minha obra. Jorge Romão

  3. Em 2019 dezenas de iniciativas tiveram lugar, em Portugal e no estrangeiro, para assinalar as comemorações do Centenário de Sophia de Mello Breyner Andersen.
    É por isso mais do que oportuno divulgar a merecida homenagem pelo artista plástico Jorge Romão, à poeta Sophia de Mello Breyner e ao Bairro da Graça, onde a poetisa viveu, que empresta o nome ao miradouro da Graça, na freguesia onde o seu corpo repousa no Panteão Nacional.
    É por isso ainda mais lamentável que a Junta de freguesia de São Vicente, não tenha promovido qualquer iniciativa por ocasião do centenário de Sophia, nem em prol da Cultura em São Vicente

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