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1.

Casa e lar.

Em quase todas as línguas existem duas palavras para dizer casa. Uma casa física e uma casa que habitamos sempre, mesmo quando a deixamos para trás.

2.

Nos sites imobiliários, a palavra é casa. Ou apartamento. Depois, há muitas variações atraentes destas palavras. Casas geminadas. Vivendas. Apartamentos com quintal e/ou jardim. Outros com terraços. Outros apenas com varanda ou com uma janela que imite de alguma maneira a respiração que dá uma vista, um pedaço de ar livre.

Cada uma corresponde a um sonho. A um sonho de uma vida urbana ou a um sonho de uma vida calma dentro da cidade. Uma vida com crianças e uma em perpétuo sossego das vozes dos miúdos com as suas frustrações e euforias.

Um bom vendedor sabe que nunca está a vender um produto, mas uma ideia do que é que esse produto poderá transformar nas nossas vidas.

Do mesmo modo, é assim que se vende uma cidade.

3.

Uma cidade para reformados, onde há sempre sol e a água nunca falta para alguns.

Uma cidade para jovens que querem conhecer outros jovens que vieram também para conhecer jovens.

Uma cidade que está no centro das coisas, que está na vanguarda.

Uma cidade que está afastada do centro, que é alternativa.

Uma cidade para profissionais com várias profissões e empregados sem empregos nem escritórios.

Uma cidade onde de manhã o dia parece cheio de promessa, como aconteceu em tantas outras cidades ao longo dos tempos.

4.

Tem cuidado com o que desejas.

Tenho pensado muitas vezes nesta frase, cada vez que os meus amigos se queixam da vida de Lisboa. Queixamo-nos dos preços das casas, do custo de vida, dos estabelecimentos que fecham, de como é difícil manter hábitos que dávamos por adquiridos.

Mas, na verdade, todos nós desejámos esta cidade, com gente de todo o mundo, com várias línguas na rua, com comida internacional, com cafés como aqueles que frequentámos nas nossas estadias mais ou menos prolongadas em Londres, Nova Iorque, Paris, Berlim.

Uma cidade onde nos sentíssemos cidadãos do mundo sem sair de casa.

5.

Em alguma momento, a palavra lar caiu em desuso.

Deixou de significar aquilo que vai com conforto.

Soa-nos antiquada. Não temos a certeza que possa ser usada com precisão num mundo em que estamos sempre a mudar de casa e com famílias a desdobrarem-se contantemente em células mais pequenas.

No pior dos casos, é desagradável, porque nos faz pensar em lugares de onde saíremos com dificuldade.

“Nunca mais saímos daqui”, dizia uma senhora, repetindo senilmente a frase, no lar onde a minha avó passou os seus últimos tempos de vida.

6.

O momento em que verdadeiramente nos deixamos de sentir jovens é quando alguém nos diz que já não conseguiremos um empréstimo a 40 anos.

Efectivamente, é arriscado um cliente pagar prestações depois da sua morte.

7.

A primeira casa dos meus pais era uma casa de sonho. Uma vivenda. Tinha jardim. Tinha terraço. Tinha garagem. Tinha espaço para as filhas e para o cão.

Mas os agentes imobiliários nunca prometem que o sonho dura para sempre.

8.

A minha comoção quando chego à minha cidade de nascença, cada vez que lá vou, é evidente para as pessoas que a visitam comigo. O meu coração pára como não pára quando chego a Lisboa nem quando sobrevoo Manhattan ou outro lugar onde sempre desejei viver.

Talvez a cidade dos nossos sonhos seja sempre a nossa cidade só que um pouco diferente. Talvez a nossa cidade noutra época, pelo menos noutra época da nossa vida.

9.

A minha casa é alugada. Não tem obras feitas à minha medida. Não tem terraço nem jardim como as minhas crianças desejariam e as varandas são demasiado estreitas.

Mas é a única casa que a minha filha mais nova conhece e, agora que penso nisso, a casa onde passei mais tempo na minha vida desde que os meus pais se separaram e deixámos a casa do sonho deles.

À nossa volta as pessoas continuam a sair e a entrar de apartamentos, como sempre acontece nos centros de cidades em mudança e sujeitas a especulação. Perdemos vizinhos de que gostávamos. Ganhámos outros de que gostamos.

Nós ficamos, com uma renda que a senhoria mantém igual, possivelmente por delicadeza, e cinco anos começam a parecer mesmo muito tempo.

10.

Ontem, um sem-abrigo pediu-me dinheiro para dormir. Queria ir passar uma noite a uma pensão. O grau zero do sonho imobiliário.

11.

Às vezes, penso que os liberais não ficam, como eu, a ver montras de imobiliárias. Assim, especada em frente aos anúncios, sem chegar a entrar, se percebe como o sítio onde se vive não é uma questão de escolha.

12.

Temos como certo que a única verdade inevitável é que morremos e que é por isso que queremos aproveitar a vida, enquanto estamos aqui.

Mas, na realidade, o ser humano tem muito maior capacidade de projecção, muito para além da sua morte. É com essa ideia da imortalidade que se segue a nós que as cidades se tornam melhores.

É assim que as pessoas compram casas. É assim que o imobiliário gira, não com os grandes grupos imobiliários. No dia em que esses grupos desaparecerem, as pessoas ainda vão querer comprar casas para deixar para os seus filhos.

Ainda vão emigrar para finalmente fazerem uma casa. Ainda vão regressar para cumprir o sonho. Ainda vão deixar património como uma possibilidade de lar para ser reconstruído.


Susana Moreira Marques

É jornalista e escritora. Tem colaborado sobretudo com o Público e o Jornal de Negócios. Publicou dois livros de não-ficção. Gosta de cidades pela quantidade de histórias que habitam nelas. Foi para se perder no meio de ainda mais histórias que viveu em Londres cinco anos. Saiu do Porto com 18 achando que era temporário, mas ficou em Lisboa e é a Lisboa que sempre regressa.

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2 Comentários

  1. É um gosto vê-la por cá outra vez. Ou, para corromper uma certa frase feita inglesa, “long time no read”.
    É sempre interessante lê-la, mas o que me prendeu a atenção foi a ideia de que a expressão “lar” desapareceu do nosso léxico comum. Também desapareceu “boîte” ou “conjunto” ou “telefonia”, que era como as pessoas da minha geração se referiam a “discoteca” ou a “banda” ou a “rádio”. Mas o desaparecimento da expressão “lar” talvez seja outra coisa: a de que o “regresso a casa”, num certo sentido metafórico e moderno, é aplicável a quem tem uma terra (as pessoas de Lisboa não têm terra, ou pelo menos nunca vão à terra) e uma casa dos seus sonhos, não a quem tem um apartamento com o despojamento que só o ikea sabe dar. O desaparecimento da ideia de lar tem mais do que se lhe diga: o centro de gravidade da segurança mudou de sítio.

  2. Talvez a melhor autora da mensagem? Muito contenido, coisas para dizer, e pouco espaço à procura preocupada de um “estilo” de escritura que mostre que bem que eu escrevo… Bravo!!

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