Receba a nossa newsletter com as histórias de Lisboa 🙂

Há dez anos que Rui Joaquim está ao volante das carrinhas do Porta a Porta. Está habituado às ruas da freguesia da Misericórdia, do Bairro Alto, lá em cima, e do Cais do Sodré, lá em baixo, onde fica o centro de saúde. A topografia da Misericórdia não facilita a vida à população mais envelhecida da freguesia e ao andar vagaroso de quem não consegue andar a subir e descer colinas. Precisam de ir a consultas, de chegar às atividades organizadas pela junta ou de ir aos frescos, no Mercado da Ribeira.

Desde 2012, o trabalho de Rui garante a mobilidade de quem mais precisa. Entra ao serviço às oito da manhã e não costuma sair antes das seis, sete. É “conforme calha”. Se uma freguesa o chama, vai.

Esta semana o trabalho continuou a fazer-se ao volante da carrinha, mas contou com uma reviravolta: em vez de responder às chamadas dos fregueses, esteve a assegurar o percurso normalmente feito pela 22B, a carreira de bairro da Carris na Misericórdia. Foi a resposta que, com meios próprios, a junta de freguesia conseguiu articular, no espaço de um fim de semana, perante a suspensão temporária daquele transporte público.

A “surpresa”, como Rui lhe chamou, chegou na última sexta-feira, num anúncio da Carris. Das 25 carreiras de bairro operadas pela transportadora, 19 iriam parar e apenas seis estariam em funcionamento durante a semana. Apesar do regresso às aulas, as restantes carreiras continuariam a circular em horário de férias escolares.

Em comunicado, a empresa pública de transportes da cidade justificou a suspensão das carreiras e os ajustes na oferta com o teletrabalho obrigatório e o “previsto incremento de casos positivos” entre os trabalhadores da Carris, assegurando, no entanto, “o menor impacto para os seus clientes”. Esta quarta-feira chegou a notícia da reposição integral das carreiras de bairro suspensas, já a partir deste sábado, e do regresso, na próxima segunda-feira, aos horários de dia útil de inverno.

A pandemia também está a afetar os trabalhadores da Junta de Freguesia da Misericórdia. Dos quatro motoristas, apenas dois estão de serviço esta semana, mas isso não impediu a junta de articular a sua própria resposta. Com uma carrinha ocupada com o transporte de fregueses para o processo de vacinação, no Parque das Nações, a substituição da 22B fez-se com os nove lugares da carrinha que sobrou.

O “desenrascanço” que garantiu transporte a duas vizinhas

A fazer a vez da 22B, a carrinha Porta a Porta que saiu do Cais do Sodré às quatro da tarde de quarta-feira partiu vazia. Não tem o reconhecido amarelo da Carris e, por isso, quando encontra uma pessoa nas paragens, Rui tem de avisar que está a dar boleias. As pessoas que encontra pelo caminho “ficam admiradas, há muita gente que não sabe”.

“Não havendo isto, temos nós de desenrascar. Isto é um desenrascanço”, diz o motorista da Junta de Freguesia. A maioria dos passageiros utiliza o serviço da parte da manhã, para chegar às consultas na Unidade de Saúde Familiar Ribeira Nova. À tarde, o movimento diminui, mas nem por isso a existência do transporte habitualmente assegurado pela Carris deixa de fazer a diferença na mobilidade da freguesia.

Num dia normal, Rui Joaquim transporta fregueses, sobretudo pessoas mais velhas, para onde precisam de ir. “Para os hospitais, à fisioterapia, a vários exames médicos. Levamos os velhotes ao hospital porque não há hipótese. Há pessoas que não têm mobilidade para ir daqui até não sei onde”. Foto: Inês Leote

Desde que foi inaugurada, no final de 2019, que a carreira 22B é o único transporte coletivo a circular dentro do Bairro Alto. Antes, só o Porta a Porta transportava passageiros por ali, parando para dar boleia a quem acenasse. Atualmente, o serviço de transporte da Junta, que durante a pandemia funciona por marcação, dá resposta a “uma média de 200 e poucas pessoas por semana”, afirma o motorista.

De meia em meia hora, tal como faz a 22B, Joaquim dá início à carreira circular no Cais do Sodré. Esta volta soalheira vai dar boleia a apenas duas freguesas. Numa folha de cálculo pode parecer pouco, mas na vida das vizinhas Anabela Antunes e Ana Maria Casimiro, a passagem da carreira de bairro nesta tarde fez toda a diferença. Na última década, a freguesia da Misericórdia perdeu 26% da sua população – foi a que mais perdeu em toda a cidade, são menos 3399 habitantes. Apesar da perda de moradores, continua a ser nas zonas do Bairro Alto e Príncipe Real que há mais pessoas a precisar de transporte.

Na Rua da Rosa, estende-se uma mão. A carrinha para para deixar entrar Anabela Antunes, moradora no Bairro Alto há 51 anos. “Vou buscar lãs, porque não tenho”. Com o apoio da Junta faz roupas “para bebés carenciados” e usa a carreira de bairro todos os dias da semana para não falhar na agenda que preenche de atividades. “Segunda-feira tenho uma atividade de pintura e nas terça de manhã ginástica, que é em São Marçal”.

Esta semana, Rui Joaquim percorre as paragens fixas da 22B e tem facilidade em cumprir o horário da carreira, agora que não há trânsito. Se antes da pandemia este era um trajeto em que, por vezes, “meia hora não chegava, era mesmo resvés, Campo de Ourique”, agora a rota faz-se em “15, 17 minutos”.

Há uma década nestas andanças, Rui gosta do trabalho que faz, mas antes da pandemia “às vezes chegava a casa com vontade de gritar”. Era o trânsito que não suportava. “Agora já estou habituado”, diz. Por estes dias, deixou de ser problema. Com 62 anos, vive na freguesia há 50, sempre na mesma casa. Antes de trabalhar na Junta, era marceneiro e trabalhava por conta própria.

Anabela Antunes já saiu e a carrinha do Porta a Porta entra na reta final, no Largo do Conde Barão, quando acolhe Ana Maria Casimiro. “Agora vou ao centro de saúde marcar uma consulta”. Conta que também usa a carreira de bairro “para ir ao Mercado da Ribeira, à Rua da Rosa, ao Calhariz”. Soube através da página de Facebook da junta de freguesia que iria ter uma alternativa à 22B.

Uma surpresa que chegou sem aviso

“Tiraram o elevador ao mesmo tempo. As pessoas ficaram de mãos atadas”, diz Anabela. Na Misericórdia, as alterações ao serviço da Carris pesaram mais do que noutras freguesias. Para além da carreira de bairro, na segunda-feira parou também o Ascensor da Bica e foi suspenso o reforço da carreira de elétricos 28E.

No caso do centenário Ascensor, a suspensão vai prolongar-se por seis meses, para manutenção da Casa do Ascensor. Já o reforço do elétrico, feito por autocarros mini, é a alternativa à elevada procura turística. Menos interessantes para os turistas, os autocarros que reforçam a carreira são principalmente utilizados pelos moradores. “O elétrico vai sempre cheio e eu não vou meter-me [lá] nesta altura”, explica Ana Maria Casimiro, considerando que o reforço dos autocarros, com regresso agendado para a próxima segunda-feira, “faz muita falta”.

Em comunicado, a Junta de Freguesia da Misericórdia dá conta de “algum espanto” pela suspensão da carreira de bairro e do reforço ao serviço do elétrico 28E, anunciando aos fregueses a realização do percurso habitual do serviço da Carris por uma carrinha Porta a Porta. Foto: Inês Leote

A presidente da Junta de Freguesia da Misericórdia, Carla Madeira, lamenta ter tido conhecimento da suspensão da carreira de bairro “pela comunicação social” e reivindica “articulação com as Juntas de Freguesia, que são quem conhece o território”. “Na mesma semana, a nossa população deixou de ter resposta”, diz a autarca, lembrando que o centro de saúde não deixou de funcionar.

“Foram três meios de transporte cortados. Se não existisse o serviço Porta a Porta, a nossa população idosa ficava sem qualquer resposta”, diz. Outros presidentes de Junta de Lisboa também se manifestaram e perante a suspensão do serviço também as juntas de freguesia de Campolide e Alcântara procuraram garantir alternativas de mobilidade com meios próprios. Contactada pela Mensagem, a Carris recusou prestar declarações adicionais, além de ter anunciado que as carreiras vão ser repostas.


Frederico Raposo

Nasceu em Lisboa, há 29 anos, mas sempre fez a sua vida à porta da cidade. Raramente lá entrava. Foi quando iniciou a faculdade que começou a viver Lisboa. É uma cidade ainda por concretizar. Mais ou menos como as outras. Sustentável, progressista, com espaço e oportunidade para todas as pessoas – são ideias que moldam o seu passo pelas ruas. A forma como se desloca – quase sempre de bicicleta –, o uso que dá aos espaços, o jornalismo que produz.

Entre na conversa

1 Comentário

  1. Deixo uma sugestão de reportagem: investiguem qual o motivo pelo qual assim que os funiculares da Glória, Bica e Lavra são requalificados, em menos de uma semana aparecem logo todos vandalizados.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado.