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Permitam-me que me apresente. Chamo-me Pedro, sou médico, tenho 25 anos. Nasci em Trás-os-Montes, vivi no Porto e cheguei agora, em definitivo, a Lisboa. São pequenos passos, ainda ofuscado pela luz, ainda na dúvida trepidante, que tentarei comunicar nesta Mensagem. Uma nova morada – limpa, acessível e arejada -, a rebentar de variedade e alegria, sem negar as sombras, os dias escuros, os silêncios.

Depois de fechar esta porta tão cedo não regressarei. A porta da casa de família, o lugar do crescimento, o ponto longínquo no mapa da memória. Ainda assim, por cá fica o chão frio, a lareira limpa, os armários, os cristais, a cama feita, o arrepio dos mármores. Uma casa fechada, cantaria Zambujo, mas guardo a chave para confessar-me aos deuses da saudade. Não deito a chave ao Tejo, antes seguro-a nas mãos diante o rio – este corpo de água, esta força, de onde nos vem? Para acordar cedo, para pôr o músculo ao trabalho, para passar a ponte, para picar o ponto. Milhares de milhares. Que força é esta, cantaria Godinho, o mestre.

Eu vim de longe, do lugar onde morre o cinismo e toda a graça se acrescenta no calor do madeiro. A noite cristalina de uma aldeia deserta em que os olhos comovidos se aconchegam, os cães ladram livremente, ninguém pensa no preço do metro quadrado. Existe realmente um céu – estrelado, imenso, a rebentar de espaço. Existe realmente um horizonte – desimpedido, livre, a rebentar de tempo.

Há pouco espaço e pouco tempo nesta carruagem. O meu casulo urbano, decorado num minimalismo pobre. Pack lightly, move fast, cidades em revista, um pulmão comunitário a respirar no compasso do comboio.

Meti tudo em caixas. Vou sair de casa. Out of the box, criativo, útil, enérgico. Alguém me diz que é absolutamente urgente que eu incorpore essa vivacidade existencial: um puto novo, na flor da idade, no pico da funcionalidade, no máximo expoente da esperança. Um puto a caminho da cidade grande, como nos filmes americanos – imagens de autoestradas descomunais, o carburar monstruoso dos motores, miúdas em tank tops floridos, paragens para batatas fritas em estações de serviço sombrias.

A ver se arrumo tudo isto. Depois, claro. Agora há o Novo Ano, depois a Viagem. Tudo em pequenas caixas: os livros, a roupa, os utensílios de cozinha, as poupanças, a parafernália digital. O número de infetados vai aumentar, isto diz a matemática, a lógica, a experiência. As filas engrossam para a testagem gratuita, entopem-se as linhas de saúde, a linguagem nauseante dos telejornais roubada aos manuais de epidemiologia.

Um sentimento de iminência. Quase lá. Um pequeno deslize e tudo terminaria. O monumental azul das escarpas da Arrábida faz arder os meus olhos, habitantes normais dos montes sobre montes, tapetes de olivais. A escarpa da Arrábida, sonhos de uma moradia branca e lisa de um poema, memórias das vinhas do avô, sentado à merenda numa pedra, numa varanda natural sobre o imenso Douro. Agora a Arrábida, antes as praias limpas do Norte, os cafés da Madalena, a capela do Senhor da Pedra, as ruas da Foz. Em desespero, como em busca de ar, desenho uma triangulação para me orientar, como funciona um GPS ou as três cores de Kieślowski.

Procuro símbolos eficazes na comunicação de uma mensagem: a distância e o caminho, para explicar o estado de coisas; o progresso, para alimentar dúvidas e semear esperança; a inquietação, para homenagear José Mário Branco, do Porto, muito mais vivo do que morto – síntese ao alcance apenas dos sublimes.

Mas não me faltam dentes. Algumas coisas ardem de uma forma inacessível, assim uma dor dentária nos mantém acordados trincando memórias como pastilha elástica. A minha escola primária, onde a competição feliz se via alimentada pela luz de um jardim florido, a paz de ser criança e explorar dias infinitos. A outra escola, casa da adolescência tola, excessiva, irreverente. Depois a faculdade, os fins-de-semana desenhados pelos horários das carreiras, a serra do Marão como orografia de sentimentos paralelos à frieza do teatro anatómico, O Grande Desconhecido arrepiante dos pedaços de gente – ainda assim, vulgar e normal desconhecido se comparado com o mistério insondável da curiosidade nos olhos jovens, fluidez ética entre a argúcia científica e o voyeurismo bizarro da morte.

Um pequeno país onde existe tudo. Um país para percorrer devagar e ir deixando migalhas de saudade, um amor que é sempre na distância o seu próprio esboço. Alimenta-se uma sombra até que se preencha de verdade. A ideia da coisa cumpre-se no exercício da idealização. Meti tudo em caixas. Vim de lá para cá pela estrada larga, escutei o murmúrio do mar num búzio, congelei o oceano inteiro numa fotografia, vi o nascer do sol nas dunas finas da Granja.

Morreu o american dream, a medicina perdeu o charme, a saúde pública é uma forma humilde de servir a comunidade. Resta-nos o amor e o cinema. O sabor do café quente. Os verões na barragem. A esplanada da Cinemateca. As curvas do rio Sabor. Cacilhas. Os braços do meu pai. Os dealers do Chiado. O pão com marmelada da minha avó.

Depois de fechar esta porta tão cedo não regressarei. Guardo a chave como salvaguarda. O futuro é ainda tudo.


* Pedro Eduardo Ramos não nasceu em Lisboa. É filho dos montes e da calma das aldeias. Escreve crónicas e poemas, pratica medicina nos tempos mortos. Procura alinhar, com harmonia, o amor dividido entre a saúde, a comunidade, a política, a arte e o futuro. Acredita que Deus mora na beleza.

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