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Parte 1

Sempre que o meu pai voltava a casa, era dia de festa.

Comia-se com fartura – bom peixe, bom vinho e até um ou outro bolinho – e ouvia-se outra vez a alegria da nossa casa. Era tão raro termos esses dias, que eu e a minha mãe nos preparávamos sempre com muita antecedência para a chegada do pai.

O ritual era sagrado e estava escrito numas folhas de papel café que a minha mãe colocava na cozinha com as coisas que tínhamos de fazer.

Primeiro que tudo havia que garantir que a casa estava muito bem organizada e limpa. Durante os três dias que antecediam a chegada do meu pai Alberto, não entravam nem sapatos, nem gatos, nem nada naquela minúscula sala do n.º 10.

Depois, praticávamos sorrisos e abraços sem querer, de tão felizes que estávamos por ele chegar. Compravam-se uns bombons do Zé da esquina, punha-se o vestido a lavar, e depois era esperar. Esperar pelo dia da sua chegada.

Sentados frente a frente, eu e a minha mãe, nunca poderei esquecer o seu olhar.

Era um olhar que só vi outra vez muitos anos depois, num outro cenário e com outras pessoas, em que alguém olhava as coisas sem as ver. Os olhos bem abertos percecionavam os móveis e as paredes rachadas, as fotos a preto e branco do meu pai, os napperons brancos feitos à mão, os anjos e santinhos da escrivaninha. Mas não viam nada daquilo, nem nada daquilo interessava.

Naquele momento, a minha mãe olhava para o futuro e esse não estava ali. Imaginava-se já no Cais do Sodré, com a barulheira dos barcos, rodeada de gente, à procura de trocar olhares com o meu pai. Já ouvia o Alberto a gritar de longe o seu nome, vindo lá da multidão de marinheiros que chegava, e ela com o miúdo ao colo a gritar de volta ‘Bem-vindo, Alberto! Trouxeste peixe?!’.  

Era assim aquela espera, que era quase tão boa como quando ele chegava.

– Sabe, Dona Sá, o meu marido chega hoje. Da última vez que falámos, disse que traria um bom bacalhau lá para casa. Já está tudo preparado, até comprei uns chocolates que ele gosta tanto.

– E o menino está feliz com a vinda do seu pai? Uma criança precisa do seu pai!

– Nem pode em si de contente Dona Sá, que admiração que tem por ele.

E era verdade que tinha. De acordo com a minha mãe, o meu pai era marinheiro e isso para mim significava que enfrentava tempestades e monstros no alto mar. Imaginava-o sempre como os bonecos dos livros da primária, um Vasco da Gama ou um Pedro Álvares Cabral, que mais cedo ou mais tarde daria nomes a ruas do nosso bairro.

Naquela altura, não sabia exatamente o que é o que o meu pai fazia e desconfio que a minha mãe também não. Na verdade, o meu pai não era nenhum Vasco da Gama, mas um homem honesto cuja profissão tinha título de engenheiro. Era ‘Chefe de Máquinas’ de uma pequena embarcação de 20 homens, gente que se atirava ao Mar todos os meses para dar de comer às suas famílias.

O Alberto, meu pai, era responsável por uma equipa de cinco homens, todos eles sem saber ler nem escrever, que punham as embarcações a andar à custa de caras de fuligem que já não saíam com sabão.

Sempre que as embarcações voltavam do mar, as famílias iam ao Cais do Sodré recebê-las. Era um longo caminho que fazíamos a andar – eu e a minha mãe – para ir receber os homens do mar, exaustos de mais uma aventura.

Saíamos de casa de manhãzinha com um farnel e levávamos connosco tantas outras mulheres e miúdos do bairro que aguardavam os seus maridos e os seus pais. Por vezes, éramos tantas famílias que todo o percurso se tornava numa procissão cuja beleza não passava despercebida aos lisboetas dos outros bairros todos.

Enquanto atravessávamos o Jardim da Estrela, todos bem-vestidos e sorridentes, as velhotas da rua sorriam para nós e gritavam palavras de incentivo ‘bem-vindos sejam, bem-vindos sejam!’ e nós lá respondíamos «Amén! Amén!’.

Quando descíamos a rua de São Bento e passávamos ao pé do palácio, as mães apontavam sempre para o edifício e diziam aos miúdos que era ali que vivia o Dr. Oliveira Salazar. A coisa não durava muito, nem os miúdos se mostravam muito interessados, até porque entre o Salazar e os homens do mar não havia tempo a perder com governantes.

Quando chegávamos ao Cais do Sodré já levávamos connosco mais de 20 famílias de Lisboa, com as mulheres a conversar alegremente, contando histórias dos seus maridos e do mês que tinham passado sozinhas a cuidar da casa.

O Cais do Sodré da altura era um sítio sombrio, com prédios que assombravam o branco dos vestidos das nossas mães. Por onde quer que se andasse, só havia porcaria e um cheiro a peixe podre do pior.

Ali passávamos sempre rapidamente pela Rua de São Paulo – quase a correr de tanto medo que tínhamos – e as mulheres formavam uma espécie de círculo protetor com a criançada toda no meio. Os miúdos adoravam aquele momento. Enquanto estávamos no meio das mães, pegávamos em paus e fingíamos que eram pistolas e carabinas de combate que apontávamos aos drogados e prostitutas que por ali andavam.

Uma vez chegados ao Cais do Sodré, a confusão era total. Não só encontrávamos os miúdos de Campo de Ourique que tinham chegado mais cedo – normalmente para uns jogos da pedrinha – como de repente tínhamos os putos de Alfama e do Castelo a chatear-nos o juízo.

Às vezes, passavam horas desde o momento em que chegávamos ao cais até ao momento em que eles chegavam, e eram sempre umas horas de grande dor para as nossas mães. Naqueles tempos nunca se sabia bem quem chegaria vivo a Lisboa. De todas as vezes que íamos buscar o meu pai havia uma família que ficava para trás, que aguardava interminavelmente pela chegada do seu pai, que chorava na ânsia de o ter perdido para o mar.

Naqueles momentos difíceis, as outras famílias juntavam-se e apoiavam com desculpas esfarrapadas, de que os homens se teriam atrasado, ou que talvez tivessem já chegado mais cedo e os esperassem em casa. Todos sabíamos que o mar não os atrasava. Roubava-os a eles e às famílias do sustento, tirava-lhes à força o futuro e matava-lhes os sonhos. Era este o mar que nós conhecíamos e que não tinha nada a ver com o mar da poesia. E era este o medo da minha mãe.

Até que por milagre, ele lá chegava. Carregado com dois sacos às costas, gordo, alto e possante, com anos de mar imprimidos nas rugas da cara, o meu pai Alberto chegava como um herói. Tinha ido para o mar e voltado, conquistado novas terras, dado nome a zonas longe no Canadá (Alberta, que outra coisa poderia ser?). A minha mãe corria a arranjar o vestido e o cabelo e virava-se para mim dizendo:

– Que tal estou, Toninho? Estou bonita?

– A mais linda de Lisboa, Mãe.

E depois repetia a frase que tinha praticado mil vezes na sua cabeça.


* Lisboeta de gema, dividido entre o Saldanha e Campo de Ourique, Francisco de Abreu Duarte é doutorando em Direito e Tecnologia, fotógrafo amador e viajante profissional. Viveu em Bona, Nova Iorque, Bruxelas e Florença. O coração esteve sempre em Santa Isabel onde passeava com o seu avô.

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