No dia a seguir a ter visto a menina dos olhos verdes, encontrei-me com a malta para o jogo da bola do costume. Quando cheguei à Igreja de Santa Isabel, já lá estava o Manel a remendar a melhor bola que tínhamos feito, redonda, com meias de qualidade superior. Eu tinha trazido mais umas meias da minha mãe para garantir que ninguém aproveitava a qualidade da bola para justificar uma derrota. Vinha obviamente muito orgulhoso de ter visto a menina – ainda por cima ela tinha sorrido para mim, logo eu de todas as pessoas – e estava ansioso para contar aos outros miúdos do bairro.

Quando a equipa se juntou para começar o jogo convoquei-os a todos para comunicar a grande notícia:

– Meus amigos, meus caros amigos, eu vi a Menina dos Olhos Verdes.

– Não viste nada.

– Juro-vos que vi, e o Manel estava lá e também viu.

– Eu não vi nada.

– Como assim não viste nada!? Estava lá ao lado quando estávamos à bulha. O Tozé também a viu!

– Eu não vi nada também. És cá um mentiroso, ó Abreu.

– O quê?! Seus mentirosos de primeira. Estão é com inveja que ela tenha sorrido para mim e não para vocês, ó parolos!

Felizmente para todos, chegou o Padre Amílcar, quando eu já estava a preparar-me para me mandar à pancada ao Manel e ao Tozé, e acabou com a zanga toda. O jogo que se seguiu foi muito tenso e deixei entrar 3 golos que só se justificaram com o estado de nervos em que me encontrava. Eu tinha visto a Menina dos Olhos Verdes de Campo de Ourique, tinha a certeza que era ela, e agora os meus amigos fingiam que não a tinham visto.

– Quem era a Menina dos Olhos verdes avô?

– A menina mais bonita de Portugal. 

A Menina dos Olhos Verdes era um mito entre os miúdos de Campo de Ourique. Ninguém sabia quem era nem nunca ninguém tinha tido provas de que ela existisse sem ser pelos relatos feitos, aqui e ali, um pouco por todo o bairro. De acordo com a maior parte dos relatos desses avistamentos, a menina era certamente de grande estatuto, filha de famílias ricas com grandes nomes e grandes casas. Vestiam-na sempre de branco, com saias de linho bordadas à mão e que combinavam sempre com os casaquinhos azuis que as amas lhe punham para que não apanhasse frio. Era branca como um anjo, com olhos brilhantes como esmeraldas que iluminavam o passeio quando passava ao pôr-do-sol. Não havia rapaz que não quisesse casar com ela mesmo sem a conhecer. Tinha aquela delicadeza que não se ensina nem se aprende, que só a gente rica tinha no bairro e que nós nem imitar conseguíamos. Constava que tocava muito bem piano e que um grande mestre lá de fora, que tocava no São Carlos, tinha dito que ela era o novo Mozart. E depois tinha um sorriso…

– Aquele que viste naquela vez na Saraiva de Carvalho?

– Esse mesmo.

Os miúdos de Santa Isabel sabiam que não tinham hipótese nenhuma com uma menina daquele calibre. O máximo que podíamos fazer era partilhar avistamentos, tentar desenhar teorias acerca de onde ela viveria, que jardins frequentava ou o nome das amas que cuidavam dela. As amas eram gente pobre como nós e, portanto, era mais fácil apanhá-las a ela do que à Menina. Mas eu sempre pensei que podia ser diferente comigo. Muito embora fosse um miúdo de Santa Isabel, o meu pai contava que a nossa família vinha de grandes sítios e tinha feito coisas valentes. Tínhamos sido militares em guerras e comandado batalhões contra franceses e espanhóis. Por azar – e parece que na família havia muito – o meu avô tinha decidido casar-se por amor, com uma peixeira da Ferreira Borges, e o pai dele tinha achado pouca piada à ideia e tinha-lhe tirado o nome, a casa e a fortuna. Era por isso que éramos pobres, mas era condição que se alteraria rapidamente caso recuperássemos o normal andamento da família.

Portanto naquele dia em que a vi sorrir para mim pensei logo: Ela sabe que eu também sou de bem.

– Achas que ela detetava isso, avô? 

– Tenho a certeza que sim, que aquele sorriso não podia merecê-lo qualquer um.

Depois do jogo de futebol voltei para casa da minha mãe a queixar-me de que os miúdos não acreditavam que tivesse visto a Menina dos Olhos Verdes e que jurava que ela tinha sorrido para mim. A minha mãe achou injusta essa descrença e disse-me que acreditava em mim, que nunca me tinha ensinado a mentir e que por isso devia ir atrás dela. Um sorriso vale mais do que mil palavras, disse-me ela. E tinha razão, eu sabia o que tinha visto e queria lá saber o que os outros parolos pensavam. Tinha de a encontrar e perguntar-lhe se queria casar comigo. Na altura era assim: começávamos o cortejo pelo fim.

No dia seguinte o Manel tinha escola e por isso fui esperá-lo junto ao jardim da Estrela onde estava a tocar a banda dos bombeiros. Quando ele chegou vinha macambuzio – como sempre, aliás, porque a escola parecia um sítio horrível para os miúdos que lá andavam – mas quando me viu lá se alegrou.

– Ó Abreu, já encontraste a menina ou quê?

– Se és meu amigo Manel, é agora que tens de o provar. Acreditas?

– És mau guarda-redes António, mas mentiroso nunca foste. Qual é o plano?

– Vamos encontrá-la juntos.

Campo de Ourique era grande e nós não tínhamos nem um tostão para apanhar o 12 e bater o bairro a pente fino. Mas como ela era rica, o Manel teve a boa ideia de começar onde a gente rica vivia, lá mais para cima para as zonas do Jardim da Parada. Subimos a correr pela rua da Estrela, ao lado do cemitério dos ingleses, e virámos logo a esquerda para evitar o território dos matulões. Assim que chegámos ao Cinema Europa, parámos em frente e desenhámos um plano:

– Ora o que é que sabemos: é uma menina, veste-se de branco e tem olhos verdes como esmeraldas.

– E é um anjo, não te esqueças de que é um anjo!

– Mas tu sabes a que se parece um anjo?

– É como ela.

– Pois, mas isso não ajuda, ó Abreu.

– Pois, mas ela é um anjo. Que fique registado.

Fotografia sem data. Produzida durante a atividade do Estúdio Mário Novais: 1933-1983 / via Flickr Biblioteca de Arte – Art Library Fundação Calouste Gulbenkian

Bom, o Manel lá escreveu num pedaço de papel – ele era o único dos miúdos que sabia escrever e estava sempre de serviço para estas coisas – que andávamos à procura de uma menina, vestida de branco com olhos verdes-esmeralda que se parecesse com um anjo. Até fez um desenho com os lápis de cor da escola e eu fiquei surpreendido com as semelhanças. O Manel tinha jeito para estas coisas, de facto.

O plano era ir porta a porta do Jardim da Parada e perguntar se alguém a tinha visto. 

Primeiro fomos ao Senhor João da pastelaria, por onde passava toda a gente de bem e que era amigo da minha mãe. Ele infelizmente não sabia de nada, e dizia que uma menina dessas nem bonita seria, branca e escanzelada com olhos claros, que as meninas se queriam era de pele morena e cabelos pretos, roliças e com curvas fartas. Eu, muito honestamente, respondi-lhe que o sorriso dela era tão bonito que nem tinha tido capacidade para ver mais nada, e ele riu-se e deu-me um bolo de arroz. Bom, não tinha sido um falhanço completo, porque eu e o Manel partilhámos o bolo de arroz e soube-nos muito bem.

Depois fomos ao cabeleireiro das senhoras ricas e ficámos à porta que tempos até que alguém saísse para lhe perguntarmos. Depois de mais de uma hora a jogar à pedrinha, lá saiu uma senhora com um casaco de peles e nós fomos logo a correr ter com ela.

– Dona Sá, viu porventura uma menina vestida de branco com olhos esmeralda? É parecida com um anjo.

– Vi sim senhor.

– Viu?

– Venham comigo.

Imaginas a excitação em que o Manel e eu estávamos enquanto seguíamos a Dona Sá para irmos conhecer a minha futura mulher. Tinha sido uma busca difícil, sacrificando a brincadeira por mais de 3 horas, mas tinha valido a pena. Íamos finalmente conhecer a Menina dos Olhos Verdes e íamos contar à malta toda que a tínhamos conhecido e que ela tinha aceitado ser minha mulher. Quando chegámos perto da Basílica da Estrela, a Dona Sá disse que entrássemos e que olhássemos para a direita. Ali estaria a Menina dos Olhos Verdes de Campo de Ourique. Antes de entrar respirei fundo, olhei para o Manel e dei-lhe um abraço. Ele olhou para mim e disse:

– Vai António, vai conhecer a tua mulher.

Entrei na Basílica triunfante, virei à direita e dei de caras com uma estátua gigante da Virgem Maria. Nada de Menina dos Olhos Verdes. A Virgem tinha de facto olhos verdes, mas não se parecia nada com a Menina nem eu queria casar com uma estátua da mãe do Menino Jesus. A única explicação é que a Menina tivesse desaparecido mais uma vez, que eu tivesse chegado atrasado e que ainda não fosse desta que a apanhasse. Saí da Igreja triste e aguardavam-me a Dona Sá e o Manel.

– Então menino, encontrou a Menina?

– Não estava lá. Estou destroçado.

– Ah estava sim menino. Não viu a Virgem Maria? É ela que devemos sempre procurar dentro dos nossos corações. É ela a encarnação da beleza última, a fé em Deus e na sua Mãe. É ela que deve ser o seu grande amor.

E ao dizer isto deu-nos um rebuçado e foi-se embora. Fiquei pior que estragado e decidi desse dia em diante não confiar mais em velhotas ricas.

Quando voltámos para Santa Isabel, eu estava muito em baixo e o Manel também. Tinha-lhe prometido que ia ser meu padrinho de casamento e que podia casar com a irmã dela, caso a tivesse, e tinha ido tudo por água abaixo. Estávamos já na Ferreira Borges, a caminho da Rua do Cabo, quando lá ao fundo vemos umas luzes brilhantes. Eram para aí umas seis da tarde, o sol já se estava a pôr, e nós não conseguíamos perceber bem o que era aquela luz que vinha na nossa direção. Quanto mais andávamos para a frente mais a luz se aproximava, como se fosse o sol a refletir-se num espelho que caminhava na nossa direção. Quando chegámos ao final da Ferreira Borges era já evidente: eram os olhos da Menina e a Menina de braço dado com a ama iluminando o caminho das duas. Enquanto passavam por nós nem eu nem o Manel conseguimos dizer uma palavra. Ficámos paralisados.

Quando ela se afastava, já à distância, deu-me uma coragem e gritei:

– ó Menina! Case comigo!

A ama parou, sem se virar, e largou a menina do braço. A menina, no seu jeito mais delicado, de alguém que só se vira por amor, virou costas à Ama e olhando para mim sorriu e disse:

– Olá, António.

E, deixando-me mudo, despareceram as duas, rua acima.


* Lisboeta de gema, dividido entre o Saldanha e Campo de Ourique, Francisco de Abreu Duarte é doutorando em Direito e Tecnologia, fotógrafo amador e viajante profissional. Viveu em Bona, Nova Iorque, Bruxelas e Florença. O coração esteve sempre em Santa Isabel onde passeava com o seu avô.

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8 Comentários

  1. Que maravilha! Francisco escreve muito bem e durante a leitura vivi a história da “menina dos olhos verde” é estranho … também a vi! Parabéns Francisco. Bjnhs

  2. Gostei muito, o texto está tão bem escrito e é tão evocativo! Obrigada!

  3. Obrigada pelo magnifico texto, o meu pai era jornalista e veio para C. Ourique em 1942 com os meus avós ribatejanos, o meu avô foi polícia nos Terramotos, eu sempre aqui vivi neste bairro tão nosso, bem haja por esta história que nunca tinha ouvido.

  4. Lindo texto! Também consegui “ver” e “acompanhar” a menina dos olhos verdes pelas ruas e igrejas que são as minhas há sessenta anos!

  5. Adorei a história e fiquei muito curiosa com as cenas dos próximos capitulos!

  6. Liiiindo! Enquanto lia o texto, à menina dos olhos verdes sobrepunha-se a Moura Encantada que a minha infância procurava sempre que ao passear pelo campo encontrava uma cisterna ou um poço. O desvio da atenção só reforça a força do texto.

  7. Uma verdadeira maravilha este texto. Reporta-nos a um tempo passado, o da nossa infância , tão simples tão desprovida de luxos mas tão saudável e tão feliz. Bem-haja por esta viagem a um tempo em que as crianças brincavam na rua, faziam bolas de trapo e, principalmente, ainda tinham a ingenuidade de crianças e a esperança de alcançar a felicidade ao encontrar a nenina dos olhos verdes.

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