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Vejam, que eu não vi: Cais do Sodré nos anos sessenta, qualquer odor insalubre, atrás das portas as solicitações – sussurrariam «vem, baby»? –, nas janelas a roupa sujamente lavada secando, letras de néon luzindo ou não, conforme a electricidade falhe, e as pessoas passeando com ares de eu não sou daqui. Na verdade, tiro isto de uma rua de Havana, que está ainda muito parada nos anos sessenta, mas suponho assim o Cais do Sodré.

E acrescento um macaco.

Conduzia-o à trela um alentejano que foi procurar o Alentejo algures em Angola e voltou decepcionado na companhia daquele bicho. Era um macaco muito macaco, nada semelhante aos saguis que se fazem de símio grande: era um macaco-verde (Chlorocebus sabaeus) que detestava o dono – e estava em busca de amor. Era fêmea, pesava quatro quilos e não gostava da trela, nem do Cais do Sodré, nem do barulho dos vagões chiando nos carris, nem do fadinho cantado sabe-se lá em que tasca.

Mas gostava do meu pai.

A cauda destes macacos não é preênsil. Se fosse, ter-se-ia agarrado ao meu pai, então jovem de vinte anos apaixonado pela Teresa – essa mesma, a que décadas mais tarde se fez minha mãe. Nem a cauda era preênsil, nem a macaca falava. Falando, teria dito ao meu pai quando o viu pela primeira vez: «Leva-me daqui, meu amor.»

O meu pai assim fez. Tinha ombro largo de homem, que é o melhor poiso para uma macaca que ama. Desse modo seguiram ruas acima: Anchieta, Camões, São Pedro de Alcântara e Escola Politécnica, onde a minha mãe vivia.

Os meus avós maternos tinham uma casa grande o suficiente para não se cruzarem com os filhos nos corredores. Talvez por isso não tivessem visto a macaca ao ombro do meu pai. Nem depois tivessem sabido que a macaca, cujo nome invento agora (Júlia-dos-olhos-doces), passou a viver no quarto da minha mãe. É que o meu pai, com quem partilho um certo animal appeal, estudava em Évora e não tinha onde abrigar a Júlia.

Sabem como é quando uma macaca se apaixona: amor de savana, amor de Tarzan e Jane, amor de selva, muito hu-hu-ha-ha. Era como se a Júlia tivesse encontrado o galho definitivo.

Mas quem amava de verdade o meu pai – e nada de savanas, e um tanto de para a vida toda já aos dezoito anos – era a minha mãe. Amar a ponto de acolher a macaca do amado.

Só que não havia nada de razoável no amor da Júlia, que trepava às cortinas, abria as gavetas, fugia pela casa, e às tantas até cagava o coche estacionado no hall de entrada. A minha mãe suportava-a por causa do namorado – e a Júlia, por sua vez, não suportava a minha mãe pelo mesmo motivo.

Não digo que se tenham desentendido porque seria injusto para o Homo sapiens (fabulosamente sapiens, aliás) que era a minha mãe. Mas digo que a Júlia se desentendeu. Se descompensou. Passou a considerar a rival insuportável – ela, que é tão suportável –, e a vê-la como ameaça. Subia-lhe ao cabelo em vez de trepar pelas cortinas, agarrava-se-lhe às pernas, chiava, cuspia. Atirava o que os macacos são famosos por atirar. Mostrava os dentes.

Porque era macaca, a macaca não sabia que o amor entre ela e o meu pai nunca resultaria: eram verdadeiramente de espécies diferentes, porque o meu pai sempre sentiu atracção – total, intensa, assoberbante – por uma única espécie. E o único exemplar dessa espécie é a minha mãe.

Isto continuaria se a Júlia não tivesse começado a cheirar a macaca amargurada (dá-se-lhes qualquer coisa acre no pêlo) e se, pior, certo dia não tivesse fugido pela mansarda e deambulado por Lisboa a chorar de amores.

Os meus pais encontraram-na de braços cruzados no capô de um Citroën 2CV amarelo. Uma gente curiosa à volta: que era aquela macaca de Angola?, que eram os braços cruzados? E a Júlia ainda chorando, ainda de beicinho, onde se viam os caninos de três centímetros que ela não chegara a meter na garganta da minha mãe.

«Vamos lá, Júlia», disse-lhe o meu pai depois de mandar embora a gente que assistia.

Desanimada, a Júlia arrastou os nós dos dedos pelo capô, enganchou-se no pescoço do meu pai (era o abraço último, o derradeiro), olhou entristecida para a minha mãe, e disse na sua língua: «Desisto, sê feliz com a Teresa». Nessa semana, deram-na ao jardim público de Évora, onde a Júlia macaca viveu confortável, embora sem o verdadeiro conforto da pessoa amada. E os meus pais, testemunho-o eu, cumpriram o pedido: foram muito felizes.


Afonso Reis Cabral

Nasceu em Lisboa em 1990. Cresceu no Porto, mas voltou às origens para frequentar a esplanada da FCSH. Aos 21 anos, escreveu os primeiros capítulos de O Meu Irmão numa mezzanine com vista para a Tapada das Necessidades. Mudado para Campo de Ourique, escreveu os primeiros capítulos de Pão de Açúcar num terraço com vista para as Amoreiras. Há muito destas paisagens nos seus livros, embora Lisboa não esteja lá.

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1 Comentário

  1. Adorei ler esta história assim como todas as outras, ainda mais por conhecer os personagens. Mande um beijinho grande aos seus pais que eu sempre conheci assim apaixonados. Gosto muito de o ler. Continue.
    Leonor (filha de um grande amigo do seu avo PM e amiga de grande parte da sua familia)

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