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A ideia de que a pandemia fez com que os lisboetas passassem a comprar perto de casa, quer por os centros comerciais se encontrarem encerrados, quer por medo do contágio nas grandes superfícies, é evidentemente válida, mas cá em casa não teve efeitos por aí além.

Para começar porque, com a calamidade, fecharam nas redondezas muitíssimas lojas que não se aguentaram a pagar rendas sem vender ao longo de várias semanas; e isso só não aconteceu a outras porque o mesmo destino já lhes calhara em sorte com a crise que assolou a Europa há uma dezena de anos.

Quando o ar começou a ficar mais respirável, permitindo umas caminhadas pelo bairro, foi realmente um choque descobrir quantos comerciantes haviam sido obrigados a cerrar portas: o papel pardo forrando as montras era uma constante, bem como as tabuletas que diziam TRESPASSE e as cartas acumuladas no chão de boutiques que outrora fervilhavam de clientes.

Muitos desses estabelecimentos continuam assim até hoje, desfeando as ruas; noutros, felizmente, fizeram-se obras de renovação e os espaços comerciais ressuscitaram. Porém, onde antes imperava a diversidade criou-se uma certa monotonia: lojas de telemóveis, imobiliárias, gabinetes de unhas de gel, lojas de reparação de telemóveis, imobiliárias, cabeleireiros…

No bairro onde vivi até à idade adulta, era possível comprar de tudo num só lado do rectângulo que formava o nosso quarteirão. Se começar pela esquina onde apanhava a carrinha da escola, esta era ocupada por uma padaria com duas montras e um balcão de mármore, onde a padeira metia (sem luvas) as carcaças estaladiças nuns sacos que, regra geral, tinham a palavra pão bordada, como se não se visse logo para que serviam.

Ao lado, havia a papelaria da dona Aninhas (escura, porque a porta era estreita), na qual se pagava só ao fim do mês, prática que facilitava alguns exageros no consumo de livros aos quadradinhos, revistas e furos de chocolates Regina – e, claro, os consequentes raspanetes.

Seguiam-se: um barbeiro; uma capelista que vendia chitas e punha goma nas golas dos vestidos; uma retrosaria; uma drogaria aonde se iam buscar produtos com nomes incríveis; um lugar de fruta e legumes; e – nem era preciso chegar à esquina seguinte – uma mercearia com dois degrauzinhos manhosos que passou do patrão para o empregado e ficou igual por trinta anos. Em frente havia um talho.

Hoje, no entanto, já mal reconheço a rua quando lá passo. Dos velhos tempos, só sobrevive o barbeiro, a que um dos meus irmãos, por uma questão de fidelidade, continua a levar o filho mais novo a cortar o cabelo (ele ficou careca bastante cedo).

A papelaria, tão necessária num local onde nunca houve um quiosque de jornais, tornou-se um espaço de venda e reciclagem de tinteiros (mas, se queremos uma simples caneta, nicles!); a drogaria é uma perfumaria cara; a capelista, um pronto-a-comer exíguo; e, no local onde em tempos comprei fechos, forros e botões para levar à modista, sucederam-se fiascos atrás de fiascos (e adivinho mais um na actual academia de formação de uma marca de cosméticos que se diz amiga do ambiente, mas não é amiga dos habitantes do bairro, que agora vão ter de ir ao chinês ou à Baixa se acaso precisarem de uma fita métrica ou um carrinho de linhas).

A cereja no topo do bolo é, porém, a antiga padaria, que há uns meses, e com algum espalhafato, foi transformada em loja de… cannabis. Não sei como a minha pobre mãe não fuma um charrinho de vez em quando para esquecer que o comércio de proximidade está, afinal, cada vez mais distante.


Maria do Rosário Pedreira

Nasceu em Lisboa e nunca pensou viver noutra cidade. É editora, tendo-se especializado na descoberta de novos autores portugueses. Escreve poesia, ficção, crónica e literatura infanto-juvenil, estando traduzida em várias línguas. Tem um blogue sobre livros e edição e é letrista de fado.

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