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Por amor de Deus, não me acusem de andar à cata de personagens-tipo para dar palha às crónicas. Mas se a vida é o que é, se não é o que não é, que podia eu fazer depois de ter conhecido o João Diogo?

Quem quer que o visse, após o estorvo inicial, quereria como eu usá-lo como musa. Não por ser bonito, atenção. Ou heróico ou musculado ou brilhante de alguma forma ou qualquer coisa. O que caracterizava o João Diogo era não ser de jeito em nada.

A glória de Edmond Dantès fez-se em centenas de páginas. A doença mental de Werther lançou ao mundo o romantismo. Até o Harry Potter viveu, morreu e reviveu e, depois de vencer a morte, foi à sua vida. Se o extraordinário já fez trilho, é hora de encarar o medíocre. E se vocês conhecessem o João Diogo também achavam que era hora de explorar o baixo, o baixinho e o rasteiro.

Eu nunca tive grandes desgostos na vida, mas tive o infortúnio maior de o ter conhecido um dia, de ter passado horas a ouvir informações inúteis, histórias que nem à mãe dele interessavam, e ainda hoje me queixo, ainda hoje quero que exista um Deus que me proteja de o ver mais uma vez.

Corria o ano de 2012. Em 2011, eu ainda vivia o auge porque não o conhecia. A seguir, vim para Lisboa. Tinha a imagem da cidade cristalizada na poesia oitocentista (quem nunca?) e achei que ia encontrar um poeta que se tornasse no meu melhor amigo. Claro, a vida foi outra coisa. Já era mau dar aulas numa AEC, mas fazê-lo com o João Diogo era outra estirpe de tormento.

Todos os dias, via-o entrar para dar aulas de Música a putos. Tanto vinha de camisa como de T-shirt do Star Wars, tanto de cabelo para trás como risco ao lado. O que ali nunca variava era a pancinha.

À segunda reunião de trabalho, eu já não tinha dúvidas sobre quem tinha à frente. Ele era o Lorde Baelish a roubar a cabeça ao Stark. As lágrimas de Rodolphe Boulanger a cair por uma adúltera. O Messi num penalty a dar a bola ao Suárez quando já ganhavam por 3-1. O Lucius Malfoy muito timbradinho em frente ao Crouch. Ele era o ressabianço do Ibrahimović por não saber o que é uma Bola de Ouro. O meu ressabianço por não chegar a dois metros sob os calcanhares do Ibrahimović.

Cada reunião de trabalho durava 30 minutos, e ao fim de 40 eu já sabia tudo: o nome da mulher, onde casara e quando, onde tinha trabalhado e durante quanto tempo, as bolachas preferidas do filho Artur, o que gostava de fazer para aliviar o stress (era jogar PlayStation). Já sabia que estava sempre disponível para um copo, e eu tentava safar-me sendo abstémia, mas nem por isso. Especial como era, sabia que por ele eu beberia. Nesta altura, nem eu sabia que, dois meses depois, se me dissessem que a salvação estava no fundo de uma garrafa, eu fecharia os olhos para um mergulho, sem óculos, sem oxigénio, sem pensar.

No segundo dia, ficou claro que casou com a primeira que o quis e que a vida desde aí foi andar à volta dela. Ainda assim, tinha a piadola sempre em riste. Quando alguém casava, cantava “Another one bites the dust”. Dava ar de quem tinha sido apanhado numa armadilha, embrenhado num plano global feminino, quando foi ele a pedir a Márcia em casamento, e ainda por cima de joelhos, na serra de Sesimbra, depois de terem ido à praia, 27 graus, com o lanche levado de casa, feito por ela, duas sanduíches de atum e ovo, e a dele com alface, e duas Fantas de ananás, para além de dois croquetes de carne de vitela, caseiros, caseirinhos, e de duas maçãs Granny Smith, embora ele lhe tenha confessado que preferia as mais moles, mas “paciência, não se acerta sempre”.

Para quem não sabia ler o e-mail sem o apoio da mulher, não espantava que ser gente significasse ter um filho feito e outro a caminho (era um feto de dois meses, como comprovámos na foto, apresentada ao vivo e a preto e branco logo à cabeça da segunda vez que o vi). Durante semanas, senti que uma Faculdade qualquer me devia um diploma Honoris Causa em Obstetrícia por causa dos pormenores que tive de ouvir sobre “o meu puto”, que ainda por cima nasceu menina.

Nas reuniões, enchia tantos chouriços que parecia trabalhar num talho. Quanto a desporto, era um atleta, tricampeão nacional de lambe-botismo em série. A língua, em vez de saliva, já tinha camurça. E ainda por cima dava-se ao luxo de dar palpites sobre se as outras professoras da escola deviam ou não esticar o cabelo para irem trabalhar quando ele não se coibia de sair de casa com cabelo no pescoço.

Pois é, para além da cara de parvo, das T-shirts do Star Wars, da vida íntima despejada no meio de conversas sobre dossiers, ainda tinha cabelo no pescoço. Mas semicerrava os olhos volta e meia como quem faz um olhar sexy, meio descomprometido, meio inocente, e as pessoas respondiam-lhe com esgares de nojo porque não havia mais nada para lhe dar.

Sempre que uma mulher falava, o João Diogo tinha o dom de interrompê-la. Pegava numa palavra qualquer que tivesse sido dita e metia conversa com um homem. A Jéssica dizia “Às quartas-feiras, tem de ser outra pessoa a fazer a vigilância no intervalo das quatro” e o gajo virava-se para o Rui, “Na quarta-feira, sai o jogo do Starhawk. Já disse à Márcia que nesse dia não posso ser incomodado.”

Nós tínhamos pena da Márcia, grávida, mãe do filho e do marido, mas também não queríamos defendê-la porque não podíamos estar do lado de alguém que o João Diogo amasse. E não a queríamos nas nossas vidas nem nas nossas conversas porque sabíamos demasiado sem a conhecermos e porque achávamos ridículo que alguém pudesse encontrar aquele empecilho num altar.

Ainda assim, ela era o que se esperava de alguém casado com ele: tirara a licença de parentalidade toda para ele se focar na sua carreira (dar aulas numa AEC foi, até hoje, o ponto alto da sua vida, e ainda se apresenta como professor no LinkedIn, apesar de não mais ter dado aulas e de hoje ser copywriter numa empresa de suplementos proteicos) e passeava-se por Lisboa com o último nome dele, para escancarar a marca de posse de um homem medíocre.

Como o coordenador dos professores da AEC era um homem, deixava-o falar porque eram todos camaradas. As mulheres usavam a estratégia passivo-agressiva: tudo calado e sério a olhar para eles a ver se tinham noção da vida, mas parecia que a noção era um comboio que se recusava a parar na estação em frente àquela escola. Pelo meio, o João Diogo presenteava-nos com monólogos sobre mérito sem entender que o mérito dele era o Y que os pais lhe tinham dado à nascença.

Tinha sido contratado pelo amigo que trabalhava na junta e falava por cima da Beatriz, que tinha feito o conservatório todo, terminara a licenciatura em Composição com 19 e só ali estava para pagar as propinas do mestrado em Ciências Musicais, com uma tese sobre Ruy Coelho, que, aprendi então, era dodecafonista. Ele nem sabia o que era o dodecafonismo e a Beatriz era menos diplomática do que eu, revirava os olhos e dizia-lhe “Cala-te, tu não percebes nada disto”, e ele parecia muito confuso ao ver que uma fêmea também conseguia dizer uma frase até ao fim.

Ainda antes do Natal, a coisa ficou pesada. O Lorde Baelish quis fazer de Stark. Nas reuniões, ainda que ninguém perguntasse, ele respondia que era bom marido. Na minha cabeça, julgava-se tão querido e admirado como a cabeça do Tony Carreira e a caixa torácica de um dos filhos. Julgava que olhávamos para ele e víamos o Lourenço Ortigão: uma estátua grega, um pedaço. E então gabava-se: “Não levanto o braço à minha mulher, até a ajudo.” Ajudo.

Era bom marido e pai porque volta e meia fazia aquele favor de preparar o lanche do filho ou punha a máquina a lavar quando ela lhe pedia ou ia ao supermercado quando ela fazia a vistoria à despensa e lhe dava uma lista com a indicação dos preços. No fundo, era um terceiro filho, mas com o privilégio de adulto – a independência de dizer que, quando tivesse o CD do Starhawk, não tinha como admitir ser interrompido.

No meio disto, julgava que olhávamos para ele como musicólogo, embora não sonhasse olhar para mim como inglesa por dar aulas de inglês a pigmeus acabados de sair das fraldas. Nós, no fundo, só olhávamos para ele como o tipo sem noção, a miséria dos medíocres, o fundo do nosso saco de paciência.

Quando pedi a demissão, vi Lisboa no seu esplendor. Dupliquei o salário num freelancer, já me safava sem ter de passar por aquilo, e isto apesar de viver numa ex-lavandaria transformada, um quarto 2×3 onde mal eu cabia, quanto mais livros, com entrada para um terraço exclusivo onde quase nunca pus os pés.

O João Diogo, como quem estraga a alegria, pôs-se a enviar mensagens, sabe Deus como terá tido o meu número: “Cara colega, vamos sentir a tua falta”, “Desejo-te inúmeros sucessos no teu trilho profissional.”

Como os sonhos se adaptam à vida, sucesso era não ter de o aturar nem mais um dia, e por isso pus o alívio às costas, desci a Almirante Reis, um senhor foi contra mim e eu sorri-lhe, apanhei todos os vermelhos e não me exasperei, passei o Martim Moniz a sentir que a vida era bela, corri a Praça da Figueira como quem regressa ao sonho dos poetas e cheguei enfim ao Terreiro do Paço. O Tejo estendia-se à minha frente e, sem as histórias idiotas do João Diogo, parecia que se estendia também a liberdade.


Ana Bárbara Pedrosa

Veio para Lisboa estudar Literatura em 2012. Daqui só saiu para o Brasil, onde, à portuguesa, teve saudades dia e noite. Regressada, escreveu Lisboa, chão sagrado e a cidade foi a diva onde se perderam personagens. Anos depois, numa casa em Benfica, foi ao Médio Oriente e escreveu Palavra do Senhor. Para os de cá, tem sotaque minhoto; para os de lá, engravatado.

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