A estrutura metálica reluz ao toque do sol, como uma pérola, uma joia, impossível de não se notar. Um brilho que espelha a preciosidade que é a Livraria Solidária de Carnide, um espaço dedicado à literatura e parte de um equipamento cultural que se instalou na avenida do Colégio Militar há três anos e mudou a rotina do bairro.

“A ideia é e sempre foi partir da cultura para criar um envolvimento com a cidadania”, explica Paulo Quaresma, professor de ensino básico que foi presidente da Junta de Freguesia de Carnide e hoje dirige a Boutique da Cultura, o “chapéu-de-chuva” que abriga a livraria e outras iniciativas de cariz cultural.

A Livraria Solidária é, literalmente – e literariamente – a porta de entrada da Boutique da Cultura, a tal estrutura metálica e quadrangular, que abriga ainda a Casa das Artes e uma incubadora de projetos culturais. Um espaço que mistura um certo charme das livrarias contemporâneas e o ancestral negócio – e preço – dos alfarrabistas.

Uma livraria, um conceito

As prateleiras abastecidas exclusivamente por doações permitem que os livros custem entre 1 e 5 euros. Paulo Quaresma evita ao máximo o termo “usado” e refere-se a eles como “já lidos”. A ressalva é pertinente, pois muitos títulos estão em ótimo estado e poderiam estar nas estantes de livrarias que comercializam novas edições.

O acervo composto exclusivamente por doações permite a comercialização de livros “já lidos” com preços que variam entre 1 e 5 euros.

A aparência de alfarrabista disfarçado de livraria – ou vice-versa – é um atrativo, mas Paulo faz questão de reforçar que a preocupação não é concorrer nem com um nem com outro. “Não somos alfarrabistas, pois não temos nada raro ou antigo, nem uma livraria tradicional, porque não vendemos lançamentos. O nosso conceito é outro.”

“Conceito” parece ser a palavra-chave. Paulo explica que a livraria não foi pensada como um negócio, mas “um motor para Carnide”, abrigando equipamentos que até então não existiam no bairro. O conceito, portanto, não é o da concorrência, da competição, mas de unir esforços e promover uma economia circular.

“Não somos alfarrabistas, pois não temos nada raro ou antigo, nem uma livraria tradicional, porque não vendemos lançamentos. O nosso conceito é outro.”

Paulo Quaresma.

“O projeto original previa um café na livraria, mas quando escolhemos o local para construí-la, percebemos que havia uma pastelaria no outro lado da rua. Desistimos do café e, agora, quando os clientes procuram uma bica, indicamos o vizinho”, conta Paulo, ilustrando que o “solidário” no nome não é em vão.

Um grande negócio solidário

O negócio solidário estende-se a outros exemplos. A receita da livraria alimenta as atividades da Boutique da Cultura. Financia, por exemplo, parte das operações da incubadora, que abriga no primeiro andar do prédio mais de uma dezena profissionais da indústria criativa, como ceramistas, artistas plásticos e designers.

“A outra parte paga os participantes, que por 90 euros mensais cobrem a renda da sala e os custos com água, eletricidade e apoio administrativo”, explica Paulo. O conceito – para não se perder o costume – da incubadora é dar apoio aos jovens do bairro no início do percurso profissional até poderem caminhar com as próprias pernas.

A mesma lógica aplica-se à Casa das Artes, que oferece aulas de música e formação em teatro. A dramaturgia, aliás, está no ADN de tudo. O projeto Boa Noite… Fim, de 2011, foi a primeira atividade cultural destinada a promover a cidadania e as pessoas envolvidas nele hoje estão por detrás das atividades da Boutique da Cultura.

Entre eles, o ator João Oliveira, que na companhia de Joana Tavares fazia as leituras encenadas em Boa Noite… Fim. “Em 2017, percebemos que o projeto poderia estruturar-se de outra forma, com uma sede própria, e ampliar as suas atividades”, conta João, atual coordenador da Livraria Solidária.

O pontapé de saída veio do programa do Bip/Zip, que tem articulado e apoiado a criação de sinergias em bairros e zonas consideradas de intervenção prioritárias.

O pontapé de saída veio do programa do Bip/Zip, gerido pela Câmara Municipal de Lisboa e que, desde 2011, tem articulado e apoiado a criação de sinergias em bairros e zonas consideradas de intervenção prioritárias na cidade. Paulo e João apresentaram o projeto em 2017 e candidatura foi aprovada em setembro do mesmo ano.

O luminoso prédio da Boutique da Cultura trouxe mais um brilho ao bairro de Carnide.

Como não havia tempo a perder, em fevereiro de 2018 a livraria já operava, numa vivenda no centro histórico de Carnide. A primeira sede foi essencial para testar o modelo do negócio e para que houvesse tempo de erguer a atual, onde a livraria passou a funcionar em setembro de 2019.

Para não esquecer das raízes, a Boutique da Cultura abriga também um auditório, onde as peças ensaiadas pelos alunos da escola de teatro são encenadas. Nos primeiros meses de atividade, antes da pandemia, o espaço recebeu cerca de quatro mil espetadores em apenas dois meses e meio de apresentação.

Com o abrandamento da pandemia e o novo faseamento de retoma das atividades, a expetativa é de que os espetáculos voltem ao auditório da Boutique da Cultura já em setembro.

A aventura digital

Se por um lado a pandemia arrefeceu as atividades teatrais no auditório, por outro alavancou os negócios da livraria. Sem poder abrir as portas durante o primeiro confinamento, a alternativa foi mergulhar de cabeça no digital e oferecer o catálogo na internet. “Descobrimos uma vocação online”, diz João Oliveira.

A expansão para o comércio online permitiu que a livraria expandisse as fronteiras e mantivesse a receita durante a pandemia.

Assim como a própria livraria, erguida com a ajuda de colaboradores e voluntários, o site para o e-commerce foi criado através de parcerias e de ajuda dos profissionais incubados no espaço, a custo praticamente zero. O esforço em conjunto valeu a pena e, nos primeiros meses de operação, mais de 3 mil livros foram vendidos online.

As medidas sanitárias já não obrigam a portas fechadas, mas o comércio virtual segue e hoje supera as vendas físicas da loja em Carnide. “Todos os dias, despachamos entre 50 e 60 livros, para todo o país”, explica João. Para não perder o conceito solidário, há uma comparticipação do valor de envio postal, fixado em 50 cêntimos.

O comércio virtual segue e hoje supera as vendas físicas da loja em Carnide. “Todos os dias, despachamos entre 50 e 60 livros, para todo o país.”

João Oliveira.

O negócio virtual ajudou a Livraria Solidária a superar as intempéries da pandemia e manter os seis empregos que criou desde o início. Completam a equipe dois estagiários – um espanhol e um francês, mantidos por uma parceria com um fundo europeu – e uma voluntária mais “experiente”, uma reformada de 72 anos.

As doações constantes garantem o acervo de 8 mil livros, a maioria deles em estado de novo, mas com o preço praticado nos alfarrabistas.

Os estagiários e a voluntária ajudam no laborioso processo de triagem dos livros doados. “No início, tínhamos dúvidas se conseguiríamos manter a livraria apenas com as doações. Hoje, apesar de não fazermos campanhas a pedir doações há um ano, elas continuam a chegar”, conta Paulo Quaresma.

A saída para fazer o crescente acervo circular foi uma parceria da livraria com as farmácias do bairro. Desta forma, era possível comprar um título enquanto se esperava na fila. “Havia já uma rede criada e não precisávamos construir uma outra”, explica Paulo, novamente fazendo valer o conceito de solidariedade do negócio.

Rumo a outras paragens

Os planos agora são de expandir as experiências adquiridas nos três anos de atividade solidária a outras regiões que, assim como Carnide, carecem de equipamentos culturais. “Há algumas propostas para sítios na Margem Sul e no Alentejo, regiões sem livrarias e bibliotecas, carentes de opções de cultura”, esclarece Paulo.

Paulo Quaresma e João Oliveira sonham em expandir o projeto a outras paragens.

A princípio, a Livraria Solidária passaria a funcionar como um sistema tradicional de franquias com um parceiro local, entretanto, sem escapar do conceito original – e fundamental – de ser um “motor” de uma zona desfavorecida e não um negócio que concorra com as poucas atividades existentes e resistentes em tais áreas.

“Ainda não sabemos o que a Boutique da Cultura e a Livraria Solidária podem ser no futuro, mas já sabemos a diferença que um equipamento como este pode fazer”, diz Paulo Quaresma, ciente de que a joia que hoje reluz em Carnide pode também fazer brilhar os olhos de outros leitores de Portugal.


Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 48 anos, há cinco em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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3 Comentários

  1. Artigo fantástico! Pormenorizado, esclarecedor, deixa certamente um irrecusável convite para uma visita/descoberta da Boutique da Cultura.

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