1.Fantasiamos com viagens no tempo, com a invisibilidade, com velocidades extraordinárias que um dia serão alcançadas. No entanto, talvez o dom do qual estamos mais próximos de atingir seja o da ubiquidade. 

Estamos na nossa cidade e estamos noutras cidades nos nossos ecrãs. Estamos numa praia e continuamos a acompanhar o que se passa nas nossas ruas. 

Talvez não seja culpa da tecnologia e se trate apenas da natureza humana. A partir de certa idade, nunca estamos apenas num só lugar, mas em todos os que já passámos e todos os que desejamos ainda estar. A partir de certa altura, é difícil não perguntar se poderíamos estar noutro sítio, a fazer outra coisa. 

Em inglês chamam a isso “fear of missing out” mas talvez não seja tanto um medo de perder a oportunidade de experimentar muitas coisas, várias vidas até, mas um receio de não estar a viver a verdadeira vida que era suposto ser vivida. 

2.

“Mãe, é tão bonito”, diz a minha filha mais nova quando nos aproximamos do carrossel. “E tem música!” Os adultos, por outro lado, acham as figuras do carrossel monstruosas. São grotescas na sua imperfeição. Mas para as crianças basta a sugestão. A minha filha mais pequena senta-se num carrinho da Frozen e não vê o quanto a Elsa não se parece com a princesa do desenho animado, mas o quanto se parece. Ela vê que está num carro de uma princesa. A música toca e não precisa de ser uma canção especial. As luzes são uma promessa de festa, vistas de longe. Ela não quer estar noutro carrossel, noutro lugar. Na verdade, não se lembra de estar noutro carrossel. Não é a primeira vez que ela anda no carrossel mas é a primeira vez de que ela se lembra. 

3.

A ubiquidade não tem que ser um dom egoísta, pode ser um dom para a empatia. Poderíamos estar com todas as pessoas de que gostamos. Nunca teríamos que deixar ninguém, dizer adeus. Nunca nos esqueceríamos de uma cidade, porque continuaríamos a visitar as mesmas ruas. 

No fundo, a ubiquidade, mais do que a distância, resolveria o problema da memória. 

4.

O antónimo de ubiquidade é isto: estar perfeitamente contente onde se está. Às vezes, só o conseguimos nas férias. Mas e se todo o ano fosse isto, estarmos constantemente bem situados?

5. Uma cadeira de madeira vazia em frente à ria. Não se sabe porque está ali. Não parece pertencer ao restaurante ao lado, com as suas cadeiras de plástico. Ponho a foto no Instagram. A foto diz que estou ali. Mas também diz que não estou, que não estou sentada na cadeira, que provavelmente não me sentarei. 

A foto também engana, porque não se vê ninguém mas há muita gente à volta. Pessoas que esperam para ter mesa no restaurante. Crianças a brincar. Várias pessoas que saem para virem mudar os carros de lugar que começam a estar em perigo de serem levados pela maré. Um rebuliço completamente escondido daquela fotografia, que é mais reveladora não do que eu vejo mas daquilo que eu quero ver. 

6.

Muros brancos. Muros com sombras mas não com figuras de carne e osso. Muros de onde se debruçam ramos de árvores floridos com cores. 

Ruas que afunilam o olhar ao fundo, vazias, ou com gente que parece que se afasta há muito. Janelas com belos frisos de azulejos que não emolduram nenhum rosto.
O que é que queremos ver nessas imagens da cidade de onde parece que as pessoas se ausentaram? Queremos que a cidade seja só nossa? Queremos que seja um cenário onde se possa desenrolar a vida que imaginámos mas que ainda não aconteceu? É isso que fazemos quando fazemos turismo: por breve momentos, criar ruas só nossas, janelas só para nós espreitarmos como se mais ninguém tivesse apreciado antes, do mesmo modo, aquela mesma vista? 

7.

Outro objecto de fascínio da minha filha: uma bóia. Vêm em várias formas, de outros objectos ou de animais, e todas têm o mesmo objectivo de fazer flutuar. Todas podem ser facilmente levadas pelo vento – ou pela corrente – a não ser que estejamos nelas, com o nosso peso. Podemos com os braços remar para avançar um pouco ou deixarmo-nos balançar pelo próprio movimento da água e, mais uma vez, pelo nosso peso. Às vezes, é o facto de estarmos onde estamos, sem querer ir a lado nenhum, que faz com que haja algum movimento.

8. A característica mais invejável dos deuses é a ubiquidade. Mas também dos heróis. Os heróis pertencem a todos os lugares. Ulisses pode ter fundado Lisboa num mito, e nunca cá ter chegado voltando para Penélope noutro. Os heróis são os únicos verdadeiros cidadãos do mundo, aqueles que podem mostrar o melhor de si mesmos onde quer que estejam. Para o comum dos mortais, essa é uma tarefa difícil e muitas vezes não sabemos se somos melhores quando estamos em casa ou quando saímos dela. 

9.

Há aquele momento em que a lua aparece no céu e o sol ainda não se pôs. A minha filha, com três anos, é sempre a primeira a reparar numa mancha branca ainda ténue no céu azul. Não o consegue verbalizar mas percebe quão especial é que, naquele momento, noite e dia coincidam. 

No dia seguinte, ela repara na lua com a mesma surpresa e alegria. Como dará mais uma volta no carrossel, cada vez, como se fosse a primeira vez, outro tipo de ubiquidade: estar em todos os lugares como se tivéssemos acabado de chegar.


Susana Moreira Marques

É jornalista e escritora. Tem colaborado sobretudo com o Público e o Jornal de Negócios. Publicou dois livros de não-ficção. Gosta de cidades pela quantidade de histórias que habitam nelas. Foi para se perder no meio de ainda mais histórias que viveu em Londres cinco anos. Saiu do Porto com 18 achando que era temporário, mas ficou em Lisboa e é a Lisboa que sempre regressa.

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1 Comentário

  1. “O facto de ter passado em Porto Rico as minhas primeiras semanas de Estados Unidos fará com que, daí por diante, eu encontre a América em Espanha. Assim como o facto de ter visitado muitos anos mais tarde, a primeira universidade inglesa no ‘campus’ de edifícios góticos de Dacca, no Bengala oriental, leva-me agora a considerar Oxford como uma Índia que tivesse conseguido controlar a lama, o mofo e os excessos da vegetação.” (Lévy-Strauss, in Tristes Trópicos)
    Ao ler os seus textos, lembrei-me desta ideia: a partir de onde é que conhecemos bem uma cidade? A ilha de S. Miguel conhece-se bem estando lá, ou conhece-se melhor no Little Portugal, em Toronto? De facto, nem sempre é “aqui” que percebemos “aqui”, por vezes é “ali” que percebemos “aqui”. Ainda que inconscientemente, o antropólogo afastou-se de um local para perceber esse local, tal como Naipaul (O Enigma da Chegada) só em Wiltshire percebeu a Trindade, de onde vinha. Por vezes só quando saímos de um sítio é que percebemos esse sítio.
    Qual o melhor sítio para se conhecer Lisboa?

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